Aos Vivos, Aos Versos, Ao Brasil | VALE A PENA OUVIR DE NOVO – Especial Canal Diversão & Arte

Há 30 anos, Chico César estreava com um disco ao vivo que virou um marco da música brasileira. Hoje, celebramos essa obra inaugural que permanece viva, necessária e ainda urgente

Chico César e os 30 anos do álbum icônico que iniciou sua carreira ao grande público | FOTO: divulgação

Por tOn Miranda

Voz, violão e veia exposta: o nascimento de uma obra urgente

Em 1995, o Brasil vivia um tempo de promessas neoliberais, de estabilidade monetária recém-conquistada pelo Plano Real, de expansão da mídia e de um otimismo programado. Foi nesse cenário que Aos Vivos, primeiro álbum do paraibano Chico César, chegou como um soco poético e político, desafiando rótulos e fórmulas. Gravado ao vivo em São Paulo no ano anterior, com produção de Egídio Conde e participações de Lenine e do mítico guitarrista Lanny Gordin, o álbum lançou Chico ao grande público — de peito aberto, voz firme e violão como escudo e espada.

Aos Vivos não é apenas um álbum inaugural. É um manifesto. O artista se lança ao mundo não com efeitos de estúdio, mas com a coragem crua de se apresentar em tempo real, diante do público, sem retoques. Um gesto artístico ousado — feito anteriormente por Marisa Monte em 1989 com MM ao Vivo — mas com uma camada a mais: Chico se expõe não apenas como intérprete, mas como autor da imensa maioria das faixas. Das 15 canções, 13 são de sua autoria, sendo duas em parcerias e apenas duas regravações — “Alma Não Tem Cor”, de André Abujamra, e “Paraíba”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

30 anos depois, em 2025, o disco soa ainda mais necessário.

Chico César nos anos 90 | FOTO: divulgação

Temas que ecoam: o Brasil de 1995 no espelho de 2025

Se o disco nasceu num país que ainda descobria o que fazer com sua democracia recente, hoje ele é ouvido num Brasil que enfrenta feridas antigas e novas, tentando reequilibrar os afetos, as justiças e as escutas. Aos Vivos continua sendo um chamado, um convite à reflexão sobre a negritude, o nordeste, a maternidade, o amor, a política, o corpo e a arte.

Como disse o próprio Chico em entrevista da época: “Sempre que há encontro há renovação”. O álbum é esse encontro: entre ritmos e palavras, entre o regional e o universal, entre denúncia e delicadeza.

FAIXA A FAIXA:

15 Canções, 1 Voz, Muitas Pátrias

1. Beradêro
Compositor: Chico César
A canção que abre o disco já aponta o tom: poético, político e inventivo. Com versos como “O beijo que vós me nordestes”, Chico embaralha o mapa do Brasil e o sentido das palavras, em um manifesto contra a desigualdade geográfica, social e afetiva. “Beradêro” é uma crônica de fricções e encontros, com a verve nordestina apontando para o concreto das grandes cidades e o grito dos sem voz. Em 2025, a metáfora da “cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire” permanece dolorosamente atual.

2. Mama África
Compositor: Chico César
Um clássico instantâneo. Hino à mulher preta periférica, mãe solo, trabalhadora. O Brasil de 1995 viu nessa música o retrato da mulher que se desdobra para sobreviver. O Brasil de 2025 ainda vê. Casas Bahia viraram e-commerce, mas o corpo e o afeto de Mama continuam explorados. A repetição do refrão enfatiza a rotina exaustiva. É uma canção sobre amor e resistência.

3. À Primeira Vista
Compositor: Chico César
A mais romântica do álbum. A canção estourou nacionalmente após ser regravada por Daniela Mercury. Mas na voz de Chico, é pura delicadeza. Um amor que chega sem aviso, “quando criei asas, voei”. É sobre encantamento, mas também sobre transformação. A canção foi um sucesso radiofônico nos anos 1990, e ainda ecoa nos corações atentos ao amor sem manual.

4. Tambores
Compositor: Chico César
Uma ode percussiva, mesmo sem percussão. Os tambores são símbolo de resistência, identidade e fé. Mais fortes que os açoites dos feitores — como diz a letra —, são também cura e memória. Em 2025, num país que ainda luta para não invisibilizar suas matrizes africanas, essa canção é um ritual em forma de canção.

5. Alma Não Tem Cor
Compositor: André Abujamra
Das poucas faixas não compostas por Chico. A música dialoga com a pluralidade e o antirracismo. Em tempos de violência racial escancarada (ontem e hoje), é urgente lembrar que “a alma não tem cor”, embora o racismo insista em pintar de desigualdade cada chance. Uma canção de educação sensível.

6. Dúvida Cruel
Compositores: Chico César / Itamar Assumpção
Dois gênios da invenção se encontram aqui. A dúvida amorosa se torna drama, loucura, quase tragédia grega: “Será que ela me ama / ou será só de mesa, fama, sexo?”. Uma das letras mais pungentes do disco, entre a comédia amarga e o abismo da paixão. Em tempos de afetos líquidos e redes sociais, essa pergunta ecoa ainda mais cortante.

7. A Prosa Impúrpura do Caicó
Compositor: Chico César
Mistura erudita, popular, sertaneja e urbana. “Caicó arcaico”, “cashcouer mallarmaico” — a canção mistura sertão e simbolismo francês. O Nordeste não como folclore, mas como modernidade poética. O Brasil de 2025, hiperconectado e ainda desigual, encontra aqui uma música que antecipa a pós-modernidade com sotaque de feira.

Chico César no início de carreira musical nos anos 90 | FOTO: divulgação

8. Saharienne
Compositor: Chico César
A faixa mais geopolítica do disco. Do sertão à televisão sem som, Chico reflete sobre o Oriente Médio, a mídia, a dor e a arte. “Saravá Sarah Vaughan” — a ancestralidade preta do jazz encontra a política internacional. Hoje, quando guerras e crises se acumulam nos feeds, a canção permanece como um alerta: só a arte não morre.

9. Benazir
Compositor: Chico César
Uma canção em defesa de Benazir Bhutto, ex-primeira-ministra do Paquistão, assassinada anos depois. É denúncia, mas também poesia. “Benazir resiste / o olho que existe / é o que vê.” Em um país onde as mulheres ainda precisam resistir para existir, esta canção transcende continentes.

10. Mulher Eu Sei
Compositor: Chico César
Chico canta como quem já foi mulher. Uma canção forte, desconcertante, sobre a violência simbólica e física contra as mulheres. “Sapatilhas de arame”, “alpercatas de aço” — o amor violento é denunciado como dança perversa. Uma canção feminista, antes mesmo de o termo estar na boca da indústria.

11. Clandestino
Compositor: Chico César
Curta, ácida e brutal. “O riso do menino que nem nasce e chora / apavora como a xota da órfã anã” — versos de choque e denúncia, que revelam o abismo social e a hipocrisia de instituições como a ONU. Em tempos de migração, de crianças invisíveis e de discursos de ódio, a canção permanece necessária.

12. Templo
Compositores: Milton de Bíasi / Tata Fernandes / Chico César
Uma pausa lírica. Aqui, o corpo é lugar sagrado. “Eu me derreto suave / neve no vulcão.” É sobre o toque, o encantamento, a sensualidade como expressão mística. Em 2025, quando o toque voltou a ser precioso após distâncias pandêmicas e tecnológicas, Templo é uma oferenda de afeto.

13. Paraíba
Compositores: Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira
Única regravação explícita de um clássico do cancioneiro nordestino. Chico devolve à sua terra natal esse hino com vigor e identidade. O orgulho regional é também político. “Muié macho, sim sinhô” — reafirmação de força, resistência e pertencimento.

14. Dança
Compositor: Chico César
Mistura de elementos indígenas, negros e urbanos. “Dança o povo negro / dança o povo índio / sobre as roças mortas de aipim.” Uma canção sobre apagamentos e renascimentos. A dança como corpo político, como ato de permanência e movimento. Em 2025, ainda dançamos por sobrevivência.

15. Nato
Compositores: Tata Fernandes / Chico César
A canção final é uma espécie de autorretrato artístico: “um punk inexato / rato de porão / uma Inezita Barroso cantando Luar do Sertão”. Chico se vê como síntese e contradição. O artista como ser mutante, plural e provocador. Um fecho poético para um disco que não fecha nada — ele abre.

Chico César | FOTO: divulgação

Um álbum nu, necessário e eterno

Lançar um primeiro disco ao vivo é coragem. Lançar um disco com esse teor autoral, poético e político, é uma entrega. Como Chico mesmo disse: “eu nu. voz e violão.” A nudez aqui não é só estética — é ideológica, emocional, cultural. Aos Vivos é o nascimento público de uma obra que não se rendeu às convenções da indústria. É o mapa inicial de uma carreira que ajudaria a redesenhar a MPB nos anos seguintes.

Um disco que resiste ao tempo

Ao olhar para trás, vemos que Aos Vivos não foi apenas um álbum de estreia. Foi um marco de linguagem, que costurou o Brasil real à canção popular contemporânea. A crítica da época, como a do jornalista Lauro Lisboa Garcia (Jornal da Tarde), reconheceu sua força:

“A diversidade contemporânea não dispensa sonoridades regionais. Sobre as inventivas divisões rítmicas de seu violão, crepitam neologismos, versos de inspiração concretista.”

Já a Folha de S.Paulo destacou em outubro de 1995 a força de sua lírica social:

“Chico César é um dos carros-chefes de uma nova geração que propõe renovar a música popular brasileira.”

Trinta anos depois, o disco segue atual: desigualdades persistem, afetos se tornam armas de resistência, e o violão de Chico César continua sendo um fio de voz que atravessa gerações.

O LEGADO: de Catolé do Rocha para o mundo

Aos Vivos pavimentou uma estrada firme para uma carreira rica, inquieta e engajada. Chico César segue compondo um Brasil múltiplo, afetuoso e atento.

Em três décadas desde que surgiu Aos Vivos, Chico César se tornou uma das vozes mais luminosas e necessárias da música brasileira. Sua trajetória é marcada por coragem estética, lirismo cortante e uma coerência política rara. De Mama África a Estado de Poesia, de À Primeira Vista a Pedrada, suas canções habitam o território da beleza inquieta — ora românticas, ora insurgentes, ora as duas coisas ao mesmo tempo. Compositor de alma generosa, teve suas músicas gravadas por nomes como Maria Bethânia, Elba Ramalho, Vanessa da Mata, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Daniela Mercury, Simone, entre outros tantos que encontraram em sua obra um espelho para o Brasil múltiplo que cantam. Parceiro de artistas como Lenine, Laila Garin, Geraldo Azevedo,  Zeca Baleiro,e tantos outros, Chico não apenas criou uma discografia plural e potente — ele construiu uma rede de afetos artísticos que conectam gerações. Sua obra cruza o sagrado e o profano, o barroco e o popular, o grito e o silêncio. Ao mesmo tempo em que canta as dores do mundo, Chico nos lembra — com voz, violão e poesia — que ainda vale a pena amar, sonhar, resistir. E cantar, sempre, aos vivos.

No palco, na escrita, na política e na música, ele nunca se calou. E tudo começou aqui, nesse álbum que 30 anos depois nos lembra que, para seguir vivo, é preciso cantar.

E cantar ao vivo.

Chico César nos tempos atuais | FOTO: divulgação

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