
Chico Chico em lançamento do single Menino Bonito | FOTO: divulgação
Filho de Cássia Eller, o cantor e compositor Chico Chico lança nova versão do clássico “Menino Bonito”, de Rita Lee. Uma travessia artística entre 1974 e 2025 que celebra liberdade, sensibilidade e o poder da canção que resiste ao tempo
Por tOn Miranda
Em 1974, em plena ditadura militar, Rita Lee lançava “Menino Bonito” — uma canção lírica, sensível, quase um acalanto romântico que ia na contramão do endurecimento dos tempos. Mais que uma declaração de amor, “Menino Bonito” era uma afirmação do afeto em sua forma mais pura, sem gênero fixado, sem necessidade de explicação. Um gesto de liberdade que só a música, e mais especificamente Rita, sabia fazer soar como revolução.
Cinco décadas depois, em 2025, a canção renasce pela voz de Chico Chico, cantor e compositor com DNA artístico poderoso. Filho da inesquecível Cássia Eller, Chico não apenas interpreta, ele acolhe a música de Rita com doçura e maturidade. Sua versão, lançada junto a um clipe de um registro ao vivo que contém delicadeza e visualmente poético, é um tributo afetuoso que honra o passado sem deixar de olhar para o presente — e para o futuro.

O indelével Chico Chico | FOTO: divulgação
Não é a primeira vez que a arte de Rita Lee atravessa a vida e a voz de Chico. Há um laço que vem de berço. Em 1998, no icônico álbum “Rita Lee Acústico MTV”, sua mãe fez uma participação inesquecível cantando “Luz Del Fuego” ao lado de Rita. Antes disso, já havia gravado ao vivo, em 1997, uma versão emocionante de “Todas As Mulheres do Mundo”, lançada no disco “Veneno Vivo” de 1998. E ainda em 2001, no histórico MTV Acústico – Cássia Eller, a cantora deu nova vida ao clássico “Top Top”, composto por Arnaldo Baptista, Dinho Leme, Liminha, Rita Lee e Sérgio Dias — um verdadeiro hino da fase Mutantes de Rita. Três registros preciosos que não apenas celebram a obra de Rita Lee, mas também revelam a profunda afinidade artística entre essas duas mulheres ímpares da música brasileira — uma sintonia que agora ecoa na voz de Chico Chico.
Um salto de 50 anos: Rita em 1974, Chico em 2025
Se em 1974 cantar uma canção de amor com tons ambíguos era um ato de resistência silenciosa, em 2025 esse gesto ainda pulsa como necessário. Vivemos tempos em que afetos ainda precisam ser defendidos. Onde o amor, a pluralidade e a ternura seguem sendo armas contra a intolerância, o ódio e a pressa do mundo.
Chico Chico, com sua postura artística discreta e potente, representa essa nova geração de artistas que sabem o tamanho do silêncio e a força do sussurro. Em sua interpretação, “Menino Bonito” se desdobra em camadas: é canção de amor, é memória afetiva, é espelho do artista que canta — bonito em todos os sentidos.
A canção permanece relevante, não apenas pela beleza melódica ou pela poesia da letra, mas por aquilo que provoca: o direito de sentir, o direito de ser sensível, o direito de ser bonito — para além da estética, na profundidade da alma.

Chico Chico | FOTO: divulgação
Um clipe, um canto, um legado
O clipe lançado por Chico Chico é um recorte sensível e vibrante de um show ao vivo realizado no Teatro Sesiminas, em Belo Horizonte — apresentação que será lançada na íntegra em audiovisual ainda este ano. Com a faixa gravada ao vivo, acompanhada pela Banda Banda formada por João Rafael (baixo), Thiaguinho Silva (bateria), Walter Villaça (guitarra) e Pedro Fonseca (piano e produção musical), “Menino Bonito” ganha contornos ainda mais íntimos e viscerais. A canção pulsa viva no palco, em meio à respiração da plateia e à entrega emocional de um artista que canta com alma.
Essa versão, lançada pela gravadora Deck, é mais do que um tributo. É um gesto de continuidade afetiva, um abraço entre gerações que a música brasileira tem o privilégio de testemunhar. Chico, com sua presença serena e carismática, canta com doçura e respeito — e nos convida a revisitar a força de uma letra que continua encantando corações:
“Lindo / E eu me sinto enfeitiçada, é / Correndo perigo / Seu olhar é simplesmente lindo / Mas também não diz mais nada, é / Menino bonito / E então, quero olhar você / E depois ir embora / Ah! / Sem dizer o porquê / Eu sou cigana / Ah / Basta olhar pra você.”
Veja e Ouça o clipe do single “Menino Bonito” com Chico Chico, composição de Rita Lee de 1974 | Reprodução – YouTube
Entre vozes e afetos: a formação de um artista plural
A voz de Chico Chico carrega o peso e a leveza de muitas histórias. É comum que o público, ao ouvi-lo, reconheça de imediato certos traços, timbres e trejeitos que evocam a memória viva de sua mãe Cássia Eller — uma das vozes mais marcantes da música brasileira. Mas o que muitas vezes passa despercebido é que há também, e com igual intensidade, a presença de Maria Eugênia Vieira Martins, sua mãe afetiva e figura fundamental em sua criação. É dessa fusão — do amor incondicional, da liberdade de ser, da escuta generosa — que nasce o artista Chico Chico. Ele é filho de Cássia, mas é também filho de Maria Eugênia. E é justamente essa soma de afetos, referências, mundos e gestos que faz de Chico um ser singular, um artista plural. Sua arte ecoa essa formação rica e amorosa — e cada nota que ele canta é também um testemunho dessas duas mulheres que o formaram com coragem, sensibilidade e verdade. Em “Menino Bonito”, é possível ouvir todas elas: Rita, Cássia, Maria Eugênia — e o próprio Chico, bonito em todas as suas camadas.

Chico Chico, menino e artista bonito! | FOTO: divulgação
