A poética do corpo que dança o terror e ilumina a existência de Preto Vidal | PERFIL

Preto Vidal – ator, diretor, dramaturgo, fotógrafo, educador, bailarino, iluminador | FOTO: Caio Oviedo / divulgação

Por tOn Miranda

Existe um silêncio entre o riso e o susto. É nesse intervalo raro e profundo que habita Preto Vidal, artista multifacetado nascido em Santo André em 1992, que transforma o corpo em instrumento de escuta, resistência e provocação. Ator, educador, bailarino, fotógrafo e iluminador — suas criações fluem entre linguagens com a leveza de quem domina o gesto e a densidade de quem sabe de onde veio.

Formado pela Escola Livre de Teatro de Santo André, carrega no olhar a pulsação de quem aprendeu com mestres como Cida Almeida, Eduardo Silva e Cristiane Paoli Quito. Sua experiência com a palhaçaria e a máscara ressignifica o humor como possibilidade de revelar medos profundos — e, por que não, monstruosos. Em cena, Preto Vidal não interpreta: ele assombra, encanta, atravessa.

Preto Vidal, um artista plural de múltiplos talentos | FOTO: Caio Oviedo / divulgação

Entre a dança contemporânea e a investigação de um corpo cotidiano, tornou-se intérprete na Cia Mais Companhia. Com a mesma intensidade que movimenta o corpo, passou a movimentar imagens: desde 2019, sua câmera registra a vida que pulsa nas ruas de São Paulo — manifestações políticas, rostos invisibilizados, cotidianos urgentes. Sua fotografia busca uma beleza crua, que não anestesia, mas potencializa a narrativa de quem é retratado.

Atualmente, aprofunda sua pesquisa no espetáculo solo “Terror Noturno” — um teatro negro do gênero terror onde o corpo em cena carrega cicatrizes da infância e da ancestralidade. Vidal atua, escreve e dirige esse mergulho escuro e necessário, em que o pesadelo é também uma denúncia, uma memória e uma libertação.

Preto Vidal e seu espetáculo solo “Terror Noturno” | FOTOS: Ian Maenfeld / divulgação

Preto Vidal é desses artistas que caminham com um lampião aceso em noites sem lua: ilumina feridas, dá forma à insônia e nos obriga a ver, mesmo com medo. E isso, talvez, seja uma das definições mais bonitas de arte. Vamos mergulhar um pouco mais no perfil deste vital artista? 

tOn Miranda: Qual a lembrança marcante você tem da sua infância? 

Preto Vidal: Tenho a lembrança de juntar com algumas primas, primos e tias e íamos num parque chamado “Parque do Pedroso”, onde eu morava em Santo André. Até hoje, quando vou visitar minha família, acabo indo nele. É um parque bem preservado, mata fechada, fica próximo a Represa Billings.  Ali me dá uma sensação de voltar ao passado, onde as coisas ali eram e são simples, tive a oportunidade de brincar na terra, nadar no rio e beber água da bica que nascia. Isso marcou e marca minha infância até hoje, poder (mesmo em São Paulo), ter esse contato com a terra.

tOn: Quem é uma inspiração para você? 

PV: Minha mãe é minha inspiração, pois sempre vi nela (mesmo em momentos difíceis), um ar leve e de alegria. Sinto que carrego isso comigo e me ajuda muito. Aprender a lidar com algumas coisas com mais leveza e humor.

tOn: Em que momento decidiu fazer do seu talento uma profissão? 

PV: No momento em que percebi que precisava contar da minha história e dos meus. Transformar nossas dores em trabalho poético, muitas vezes não é fácil, pois precisamos ir lá no fundo e mexer com coisas que às vezes não queremos

O artista Preto Vidal | FOTO: Caio Oviedo / divulgação

tOn: Qual artista faz a trilha sonora da sua vida? 

PV: Acho que desde garoto que comecei a estudar teatro, tive como referência o Grande Otelo, pois é um multi artista que se desdobra e ainda consegue sair na graça. Me identifico com o seu humor. Pra mim ele é a figura do “malandro brasileiro”.

tOn: O que você ensinaria a você mesmo quando criança? 

PV: A ter mais paciência comigo mesmo (risos).

tOn: Uma música… 

PV: À primeira vista – Chico César

tOn: Um lugar… 

PV: Minha casa.

tOn: Um livro… 

PV: Os dragões não conhecem o paraíso – Caio Fernando de Abreu.

tOn: Um prazer… 

PV: Cozinhar e compartilhar esse momento com alguém.

tOn: Uma saudade… 
PV:Em ter mais tempo para poder ficar com os meus, infelizmente optar por morar em São Paulo, faz com que não consigamos estar tão próximos assim e sinto falta às vezes…

Preto Vidal | FOTO: Caio Oviedo / divulgação

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