por Dinho Santoz
Assisti ao espetáculo “Aqui Jazz” no Teatro Itália e saí convencido de que o teatro musical brasileiro está em excelentes mãos. A peça, que mistura jazz, humor e drama familiar, consegue a proeza de ser ao mesmo tempo leve e profundamente reflexiva, como uma boa conversa em um bar na madrugada.
A História Que Nos Pega Pela Mão
Logo que entramos na plateia, ainda antes do início formal do espetáculo, já somos recebidos por músicos tocando jazz no palco – um detalhe que cria imediatamente a atmosfera de intimidade que permeia toda a obra. A história gira em torno de “Jazzinho“, interpretado com impressionante naturalidade por Felipe Hintze. Seu personagem, criado sob a expectativa de se tornar um grande músico de jazz, nos guia por uma jornada de reconciliação com seu passado familiar.
Hintze domina o palco com uma presença única, especialmente nas cenas em que dialoga diretamente com o público, quebrando a quarta parede com um timing cômico preciso, mas sem perder a profundidade emocional que o papel exige.
Um Quarteto em Sintonia
Ao redor do protagonista, três performances brilhantes completam o quadro familiar.
Marcus Veríssimo, que além de atuar assume a direção musical, mostra toda sua versatilidade. Em cena, alterna entre momentos de intenso drama familiar e números musicais onde seu talento como cantor e instrumentista brilha – especialmente em uma cena emocionante onde toca trompete, e quando desenvolve um diálogo crucial com o filho.
Nando Pradho, conhecido por seus papéis em grandes musicais, surpreende ao mergulhar em um personagem complexo e multifacetado. Sua capacidade de transitar entre diferentes figuras que marcaram a vida do protagonista – todas com o rosto do pai ausente – é uma aula de interpretação.
Camilla Camargo, como Marina, a mãe cantora de jazz, entrega uma performance cheia de nuances. Com uma presença cênica que vai da elegância à vulnerabilidade, ela constrói um personagem rico e complexo. Sua interpretação de “Bang Bang” é um dos momentos mais emocionantes do espetáculo, onde voz, emoção e história se fundem perfeitamente.
A Direção de Giovani Tozi
Tozi, responsável pelo texto e direção, demonstra aqui toda sua maturidade como criador. Com uma carreira que já passou por comédias, dramas e musicais de grande porte, ele parece ter encontrado em “Aqui Jazz” um equilíbrio perfeito entre todas essas linguagens. Sua direção permite que o ritmo da apresentação flua como uma jam session, com espaço para improvisos que respondem organicamente à energia da plateia.
O cuidado com os detalhes é impressionante – desde a cenografia minimalista que evoca tanto um bar decadente quanto um espaço de memórias, até a forma como a música (executada ao vivo por Rafael Gama no piano e Gabriel Ferrara na bateria) se integra perfeitamente à narrativa.
Uma Experiência Que Fica
O que mais impressiona em “Aqui Jazz” é como consegue tratar de temas pesados – expectativas familiares, arrependimentos, a passagem do tempo – com uma leveza que nunca soa superficial. A mensagem final sobre aceitação e perdão é forte e tocante, mas entregue sem melodrama.
É daqueles espetáculos que nos fazem refletir sobre nossas próprias relações familiares e escolhas, mas sem jamais perder o prazer do entretenimento de qualidade. Uma prova de que o teatro musical brasileiro pode sim dialogar com grandes clássicos do gênero, mantendo ao mesmo tempo uma identidade própria e contemporânea.
Serviço
“Aqui Jazz”
Teatro Itália – Av. Ipiranga, 344, República, São Paulo
Até 1º de setembro
Sábados às 21h | Domingos e segundas às 20h
Ingressos: R$60 (inteira) / R$30 (meia)
Classificação: 12 anos
Duração: 80 minutos






