Encerramento da temporada no Espaço Cia do Pássaro reafirma a força da vivência LGBTQIAPN+ e marca a estreia significativa de Alessandro Marba na direção

Elenco de Tudo O Que Nos Cabe que esteve em cartaz com sua primeira temporada no Espaço Cia do Pássaro em São Paulo | FOTO: Rebeca Maia / divulgação
Por tOn Miranda
“De repente fico rindo à toa, sem saber por que / e vem a vontade de sonhar de novo te encontrar…” — os versos da canção “Cheiro de Amor”, na voz de Maria Bethânia, poderiam muito bem ser a síntese da atmosfera que tomou conta do Espaço Cia do Pássaro até 28 de setembro de 2025. Foi nesse sopro poético que o espetáculo “Tudo O Que Nos Cabe” encerrou sua temporada, deixando no ar um perfume de afetos, reflexões e intensidade.
Entre drama e comédia, o retrato da existência queer urbana
Mais que um enredo, a peça se construiu como um abraço coletivo em meio ao caos da vida LGBTQIAPN+ nas grandes cidades. Um grupo de amigos se reúne para celebrar um aniversário, e o que poderia ser apenas uma festa se revela como um campo de afetos, confrontos, lembranças doloridas e amores mal resolvidos.
A força da obra está na capacidade de alternar riso e lágrima em um mesmo sopro, provocando no público uma experiência de reconhecimento. Os diálogos afiados e sensíveis tocaram em questões urgentes — identidade, sexualidade, sorofobia, pertencimento, descobertas e AMOR — tudo permeado por humor, delicadeza e coragem. O resultado foi um espetáculo capaz de provocar reflexão ao mesmo tempo em que fazia rir, dançar e chorar junto.

Elenco de Tudo O Que Nos Cabe, direção de Alessandro Marba | FOTO: Rebeca Maia / divulgação
A estreia amorosa e potente de Alessandro Marba na direção
Se o espetáculo já impressiona por sua força, o que de fato tornou esta temporada histórica foi o debut de Alessandro Marba como diretor. Reconhecido como ator, preparador de elenco e sócio-criador da Cia do Pássaro – Voo e Teatro, Marba surpreendeu ao assumir a direção de forma plena, imprimindo AMOR em cada detalhe.
Da cenografia intimista ao cuidado com a encenação dos atores — Bruno Olliver, Dávison Souza, Gabriel DiMarco, Igor Carrasco, Jura Cipriano e Marcello Santanna — tudo respirava coerência e afeto. Sua direção não apenas organizou o espaço cênico, mas criou um ambiente de confiança e entrega, permitindo que cada intérprete revelasse sua própria vulnerabilidade.
É uma direção que pulsa amorosa e corajosa, que não teme a exposição das fragilidades humanas, mas as transforma em poesia cênica. Um olhar que reconhece o caos como matéria-prima e o traduz em beleza.

Alessandro Marba, o diretor do espetáculo Tudo O Que Nos Cabe | FOTO: Julio AraKack / divulgação
O elenco como corpo pulsante da cena
Se “Tudo O Que Nos Cabe” conquistou plateias, isso se deve também à entrega visceral do elenco. Bruno Olliver deu vida a uma presença intensa e magnética, equilibrando humor e feridas abertas. Dávison Souza, coautor do texto, imprimiu uma interessante narrativa. Gabriel DiMarco trouxe sensibilidade estética também para além do palco, assinando figurinos, mas no palco se destacou pela delicadeza interpretativa. Igor Carrasco explorou a sonoridade e os silêncios da cena, ora com a sonoplastia, ora com sua performance densa, dramática, recheada de humor e afetuosa. Jura Cipriano acrescentou camadas visuais com o design gráfico e em cena apresentou potência dramática, marcada por presença firme, potente e ao mesmo tempo delicada. E Marcello Santanna brilhou com intensidade, trazendo frescor e entrega total aos embates cênicos. Juntos, eles formaram um coletivo que fez da peça não apenas teatro, mas experiência partilhada.

Elenco e Diretor do espetáculo Tudo O Que Nos Cabe: Marcello Santanna, Gabriel DiMarco, Igor Carrasco, Alessandro Marba, Jura Cipriano, Dávison Souza e Bruno Olliver | FOTO: Halysson Silva / divulgação
Um espetáculo que é manifesto
“Tudo O Que Nos Cabe” não se limita ao palco: é um manifesto de existência, resistência e celebração queer. Inspirado em relatos do próprio elenco, o espetáculo ofereceu ao público um espaço de acolhimento e reconhecimento. Cada gesto, cada diálogo e cada silêncio reafirmaram o desejo profundo de amar e ser amado sem culpa, sem medo e sem se apagar.
Esse é o poder do teatro quando ele se aproxima da vida: torna-se um espelho onde vemos nossas dores, mas também um farol que ilumina as possibilidades de futuro.
Um voo que deixa marcas
A escolha do palco da própria Cia do Pássaro, no coração do Anhangabaú, deu à temporada uma sensação de intimidade quase doméstica: estar ali era como estar em casa, compartilhando confidências entre amigos. Não à toa, a peça reverberou como uma experiência sensorial e afetiva, carregada de memórias que permanecem.
Encerramento com perfume de amor
Encerrada a temporada, o que se perpetua não é apenas a lembrança de um espetáculo, mas a certeza de que o amor — em suas formas múltiplas e insurgentes — é a força que sempre nos cabe. Como nos versos imortalizados por Maria Bethânia:“E vem o cheiro de amor / eu te sinto tão presente / volte logo, meu amor…”

Elenco de Tudo O Que Nos Cabe, direção de Alessandro Marba | FOTO: Rebeca Maia / divulgação
