
Thays Ishikawa – Entre o método e o mistério, ela faz da cultura um campo de energia em movimento. | FOTO: arquivo pessoal / divulgação
Por tOn Miranda
Há pessoas que atravessam o campo da cultura como quem dança entre mundos — com a precisão de quem entende de gestão e a leveza de quem ouve o tempo do tambor. Thays Ishikawa é uma dessas presenças raras. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Cultural, dentro da Fundação Itaú, ela é o elo entre o pensamento estratégico e o chão fértil das práticas culturais.
Economista de formação pela FECAP e especialista em Gestão e Política Cultural pela Universidade de Girona, Thays soma à técnica uma escuta sensível, afinada pela experiência de mais de uma década à frente do programa Rumos Itaú Cultural — um dos mais relevantes mecanismos de fomento à arte no país. Ali, aprendeu e ensinou que cultura se faz tanto de números quanto de narrativas.
Mas é quando se aproxima das culturas de tradição e dos saberes populares que sua essência se revela: um misto de curiosidade, respeito e encantamento. Thays é movida por essa força arrebatadora de quem sabe que o verdadeiro desenvolvimento cultural acontece quando o olhar institucional se abre para o invisível, para o simbólico, para o que pulsa nas margens e nos quintais.
Na coluna PERFIL, conheça a trajetória dessa mulher que costura pensamento, afeto e ação — e que, com sua presença luminosa, nos lembra que a cultura é, antes de tudo, uma forma de estar no mundo.
Há uma doçura firme no olhar de Thays — uma espécie de sabedoria que entende o tempo da semente e o silêncio do barro. Sua força não é de quem impõe, mas de quem sustenta. De quem cultiva, com paciência e ternura, o terreno onde o novo floresce.

Thays Ishikawa – Entre Girona e São Paulo, Thays aprendeu que o saber não se mede apenas em diplomas, mas em escutas. | FOTO: arquivo pessoal / divulgação
tOn Miranda: Qual a lembrança marcante você tem da sua infância?
Thays Ishikawa: Eu sempre gostei muito de água, sou daquelas pessoas que ficam até os dedos enrugarem. Quando criança, sempre que podia, estava na água. Era sair um sol que eu descia para a piscina do prédio. Em uma dessas tardes, fui eu e meus dois irmãos para a piscina, passamos horas brincando. Tinha um escorregador pequeno, mas até que alto, subia uns 5 ou 6 degraus. Lembro bem das cenas da gente descendo pelo escorregador e caindo na água de vários jeitos. A graça naquela tarde foi ficar inventando formas diferentes de escorregar: de cabeça, sentada, deitada pra cima, deitada pra baixo e assim por diante. Também ficou em mim a lembrança da música, acho que levamos uma caixinha de som, não me lembro o que estava tocando especificamente, mas tinha uma música de fundo.
tOn: Quem é uma inspiração para você?
TI: Minha vó, uma mulher forte que passou por tanta coisa na vida, muito espirituosa, aprendeu a lidar com muitas situações difíceis e seguir com o sorriso no rosto e sempre cuidando das suas plantinhas, acho que herdei isso dela. É minha segunda mãe.
tOn: Em que momento decidiu fazer do seu talento uma profissão?
TI: A profissão que tenho hoje foi um grande acaso da vida e a vida é assim né? A gente vai trilhando passo a passo e quando vê tem uma trilha atrás da gente e um caminho pela frente. Comecei a trabalhar cedo, ainda na época do ensino médio e já trabalhando escolhi o curso da faculdade ainda sem saber muito bem o que seria, daí em diante fui construindo e descobrindo meus talentos junto com as descobertas da vida. A cada novo projeto que me envolvia, compreendia um pedaço a mais desses diversos Brasis e cada encontro, com pessoas, realidades e movimentos me fez ser a Thays de hoje e que vai seguir em constante envolvimento para compor o que está por vir.
tOn: Qual artista faz a trilha sonora da sua vida?
TI: Pra mim é difícil indicar uma única artista, sempre ouvi de tudo, e quando digo tudo, é tudo mesmo. Se dou play na minha playlist de músicas favoritas fica difícil saber que Thays que tem ali de tanta coisa misturada. Uma música que tenho escutado há muitos anos como um mantra é Graças a la vida de Mercedes Sosa. Gosto de ouvir pela manhã, como a primeira coisa a se fazer: agradecer.



Thays Ishikawa – Serenidade não é ausência de força — é a força que aprendeu a ouvir antes de agir.| FOTO: arquivo pessoal / divulgação
tOn: O que você ensinaria a você mesmo quando criança?
TI: Na vida as coisas mudam o tempo todo: dias bons passam e dias ruins também.
tOn: Uma música…
TI: vênus, orquestra nômade
tOn: Um lugar…
TI: A praia, o mar, as ondas, mergulhar
tOn: Um livro…
TI: Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves
tOn: Um prazer…
TI: coisas manuais, crochê, cuidar das plantas, tocar pandeiro
tOn: Uma saudade…
TI: o cafuné da minha mãe

Essência quântica: Thays se expande, reflete, reverbera — e faz da cultura um estado de presença. | FOTO: arquivo pessoal / divulgação
