
Eduardo Mossri — o ator que transforma fronteiras em poesia | FOTO: Jorge Bispo / divulgação
Por tOn Miranda
Há corpos que contam histórias antes mesmo de dizer uma palavra. O de Eduardo Mossri é assim — feito de deslocamentos, memórias e silêncios que dançam entre o aqui e o lá, o ontem e o agora. Sua arte é território movente, um espaço de travessias onde a ancestralidade encontra o futuro e o afeto se torna um idioma universal.
Bacharel em Interpretação pela ECA/USP, Mossri construiu ao longo de mais de vinte anos uma trajetória que une sensibilidade e propósito. No teatro, ele nos oferece experiências quase rituais em monólogos como Ivan e os Cachorros, Cartas Libanesas — indicado aos prêmios Shell e APCA — e Boa Noite Boa Vista, de sua autoria. Em cada um, um gesto de escuta e de reinvenção: o ator que mergulha em suas origens libanesas para falar de pertencimento, de humanidade e da força dos que atravessam fronteiras.
No audiovisual, ele habita com naturalidade tanto o popular quanto o poético. Esteve nas quatro temporadas da série Escola de Gênios (Gloob) e na novela Órfãos da Terra (Globo) de Duca Rachid e Thelma Guedes, reconhecida mundialmente com prêmios como o Emmy Awards, o Rose d’Or Awards e o Seoul International Drama Awards. Mas é na coerência entre o artista e o homem que reside seu maior prêmio: Mossri é também idealizador de projetos que dialogam com temas da migração e da ancestralidade, sempre movido pela crença de que a arte é um espaço de encontro e resistência.
Eduardo Mossri é o corpo que carrega travessias — e cada travessia que ele faz amplia a nossa capacidade de sentir o outro, de sermos também estrangeiros em nós mesmos, e de transformarmos o deslocamento em potência poética.
Vamos conhecer mais um pouquinho deste ator e idealizador na nossa coluna PERFIL?

Eduardo Mossri – O corpo em travessia que transforma memória em cena | FOTO: Helton Nóbrega / divulgação
tOn Miranda: Qual a lembrança marcante você tem da sua infância?
Eduardo Mossri: Risos, família, viagens, doente muito doente, mais risos, fantasias, bonequinhos, apresentações na escola, afeto, comida afetiva, mão de vó, apoio muito apoio, algumas magoas e risos, muitos mais risos.
tOn: Quem é uma inspiração para você?
EM: Acho que me inspiro em todo mundo que atravessa minha vida e que um pouco comigo fica. O poder do encontro e da manutenção dos afetos.
tOn: Em que momento decidiu fazer do seu talento uma profissão?
EM: Uma escolha sem precisar parar para escolher. Foi uma consequência natural de como me manifestava na escola somado ao muito apoio e afeto que tive de família e amigos.
tOn: Qual artista faz a trilha sonora da sua vida?
EM: Um seria difícil, até porque a vida vai mudando e a trilha muda junto. Infância lembro muito de Luiz Gonzaga, Tim Maia e Nelson Gonçalves. Adolescência Marisa Monte, Cazuza e Legião Urbana. Adulto aí mistura tudo que veio antes e somo um Zeca Baleiro, Bethânia, Beatles, The Smiths e outros tantos mais.
tOn: O que você ensinaria a você mesmo quando criança?
EM: Que não se afobe não que nada é para já, mas também não se perca no tempo. Experimente tudo que puder, mas saiba que nem tudo terá ou saberá fazer, e tá tudo bem. Vá atrás do que sente que quer, vai sem medo, vai com medo, mas vai. E não perca a chance dos encontros sem nunca perder o tempo da delicadeza.



O ator Eduardo Mossri – Entre o palco, a tela e a travessia: ele segue criando pontes | FOTO: Helton Nóbrega / divulgação
tOn: Uma música…
EM: ultimamente estou preso nos versos do “Tempo Perdido” do Legião Urbana. “Todos os dias quando acordo. Não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo”.
tOn: Um lugar…
EM: qualquer um desde que seja cercado de gente que gosto ou um que possa estar bem sozinho.
tOn: Um livro..
EM: Brimos de Diogo Bercito
tOn: Um prazer…
EM: estar em cena
tOn: Uma saudade…
EM: de um ânimo criativo, de uma crença num futuro, num país. Mas já já volta.

Eduardo Mossri – A ancestralidade que habita o gesto | FOTO: Jorge Bispo / divulgação
