O Sol Que Renasce em Cássia: o clássico que reinventou 1999 | VALE A PENA OUVIR DE NOVO – ESPECIAL

Um mergulho íntimo, político e afetivo nas 12 faixas de Com Você… O Meu Mundo Ficaria Completo (1999) — e por que vale (muito) a pena ouvir de novo

Detalhe do rosto de Cássia em fotografia de Flávio Colker, revelando nuances de sua personalidade artística | FOTO: Flávio Colker / divulgação

Por tOn Miranda

Quando Cássia Eller lançou Com Você… O Meu Mundo Ficaria Completo, em 1999, o Brasil atravessava um fim de século intenso: reformas econômicas, desigualdade crescente, privatizações, múltiplas crises de confiança e uma juventude que buscava novas linguagens para traduzir seus afetos e inquietações. A MTV moldava estéticas e comportamentos; a MPB se misturava com rock, samba, manguebeat; e a cena alternativa crescia com força. Cássia, com sua verdade bruta e sua ternura feroz, era a artista perfeita para traduzir esse tempo.

Produzido por Nando Reis, o disco é um marco. É político sem proclamar, íntimo sem se esconder, moderno sem perder raízes. É um álbum que reorganiza sentidos — como o “segundo sol” que anuncia começo e desordem. É também o retrato emocional de uma artista que viveu sem filtros e que, justamente por isso, nos atravessa até hoje.

A seguir, um mergulho faixa a faixa, seguido da ficha técnica comentada, para entender por que este álbum não envelhece — ele se aprofunda.

Capa – Com Você… O Meu Mundo Ficaria Completo, álbum de Cássia Eller de 1999 e capa de Gringo Cardia com foto de Flávio Colker | FOTO: Flávio Colker / reprodução / divulgação

FAIXA A FAIXA — COMO CÁSSIA REORGANIZA O MUNDO

1. O Segundo Sol — Nando Reis

(O espanto cósmico como metáfora de um país em mutação)

Em um Brasil instável, Nando vê no céu um sinal de reconfiguração: “Quando o segundo Sol chegar / Para realinhar as órbitas dos planetas”.  É metáfora, é revolução íntima, é anúncio. Cássia não canta: ela vibra. Sua interpretação tem a força de um país que precisava se reinventar.

2. Mapa do Meu Nada — Carlinhos Brown

(Desejo, cidade e caos como cartografia afetiva)

Brown une corpo e geografia num poema que é suor, rua e assombro: “Só você é o meio-fio de luz / Contramão sinalizada”. É a canção do desejo que atravessa becos e invisibilidades do Brasil urbano dos 90. Cássia cria um erotismo contido, quase falado, que vira poesia tátil.

3. Gatas Extraordinárias — Caetano Veloso

(A liberdade lésbica dançando na pista, sem pedir licença)

O desejo entre mulheres é nítido, vivo, orgulhoso. Cássia transforma a pista de dança num manifesto queer: “Tenho que pegar essa criatura” ecoa com humor e verdade. Em 1999, isso era mais que música — era gesto político.

4. Um Branco, Um Xis, Um Zero — Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Pepeu Gomes

(Apagamentos emocionais e um Brasil tentando “passar pano”)

A letra fala de memórias que se apagam e de dores que insistem: “Já passei um pano, um branco, um zero, um xis”. Cássia canta a limpeza impossível — porque o cheiro, a marca, o trauma permanecem. É a canção da tentativa (falha) de esquecer.

Registro de Flávio Colker que capta a intensidade e a presença singular de Cássia no período do álbum | FOTO: Flávio Colker / divulgação

5. O Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você) — Nando Reis

(O amor absoluto contrastando com as tragédias brasileiras)

Essa é uma das maiores declarações de amor da nossa música, mas também um retrato social doloroso: “A fome que devora alguns milhões de brasileiros / Perto disso já não tem importância”. O amor como fuga? Como força? Como suspensão do real? A letra é hipérbole, mas também espelho de um país que falhou em cuidar dos seus. Cássia humaniza cada detalhe — até o trânsito, a prova de geometria, o dedo cortado.

6. Palavras ao Vento — Marisa Monte / Moraes Moreira

(A teimosia da esperança)

Em tempos de descrença política, Cássia afirma: “Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar”. É a canção que acredita apesar de tudo. É suave e firme — como quem reconhece que otimismo também é luta.

7. Aprendiz de Feiticeiro — Itamar Assumpção

(A filosofia marginal e a lucidez crua do Brasil real)

Itamar lista aprendizados duros sobre desigualdade, corrupção, ganância: “A ignorância, a sordidez e a ganância / São lavas desse vulcão”. É a crônica do Brasil que cansa e insiste. Na boca de Cássia, vira rito — quase um mantra urbano.

8. Pedra Gigante — Gilberto Gil / Bene Fonteles

(Mitologia, natureza e o sagrado brasileiro)

Dessa pedra gigante vaza um sol” é imagem que sintetiza força ancestral. O Brasil de Gil é espiritual, híbrido, mestiço. Cássia canta com reverência: ela respeita o mito e se deixa atravessar por ele.

Cena de bastidores captada por Flávio Colker, revelando a naturalidade e a descontração de Cássia fora do palco | FOTO: Flávio Colker / divulgação

9. Infernal — Nando Reis

(Quando o amor vira terremoto)

O mundo que era o meu criado-mudo… enxergo curvo”. Nando traduz a mudança radical no olhar. Cássia transforma em espanto amoroso. Tudo se desloca — por dentro e por fora.

10. Maluca — Luiz Capucho

(A sensibilidade queer no cotidiano)

A imagem do caminhão de botões de rosa vira êxtase doméstico: “Eu fiquei maluca / Por flor tenho loucura”. Capucho escreve com delicadeza queer; Cássia interpreta com alegria e liberdade. É um hino à sensibilidade que não se desculpa por sentir demais.

11. As Coisas Tão Mais Lindas — Nando Reis

(A revelação do amor como epifania visual)

Só reconheci suas cores belas quando eu te vi”. Aqui, o mundo muda de cor.
É a faixa mais solar, mais aberta, mais luminosa do álbum. Cássia canta como quem sorri com a voz.

12. Esse Filme Eu Já Vi — Luiz Melodia / Renato Piau

(Violência urbana, repetição e resistência)

Anoiteceu na minha tela… Esse filme eu já vi”.  O país que fracassava em políticas públicas está ali: violência, vício, desamparo, morte. Mas no final… “Esse filme eu não vi” abre uma janela — talvez para um amanhã mais justo.

Retrato de Cássia Eller por Flávio Colker, evidenciando a força expressiva e a naturalidade que marcaram sua trajetória | FOTO: Flávio Colker / divulgação

FICHA TÉCNICA COMENTADA — O ECOSSISTEMA CRIATIVO QUE FEZ ESTE DISCO EXISTIR

Uma obra-prima não nasce sozinha. Ela nasce de uma colmeia de inteligências, de decisões precisas, de encontros afetivos e de uma equipe que sabe exatamente o que fazer para amplificar a verdade de uma artista. Aqui está a ficha técnica correta e comentada, agora ajustada com base na sua atualização.

Produção, direção e arquitetura da criação

Produção: Universal Music

O suporte institucional que garantiu que a ousadia de Cássia tivesse casa, recursos e autonomia. A Universal foi a moldura industrial para um disco que soa profundamente artístico e livre.

Direção de produção: Nando Reis (diretor) & Luiz Brasil (co-diretor)

A dupla que equilibra emoção e técnica:

  • Nando, afetivo, íntimo, intuitivo, criador da atmosfera emocional;
  • Luiz Brasil, técnico, sofisticado, cirúrgico, organizado, profundo no detalhe.

O encontro dos dois produz o raro: um disco ao mesmo tempo cru e elaborado.

VP A&R Nacional: Max Pierre

Um dos grandes articuladores do olhar comercial e artístico da música brasileira nos anos 90. Sua presença assegura que Cássia chegue ao grande público sem perder essência.

Gerência Artística: Ricardo Moreira

Zela pelo conceito e pela integridade artística.
É quem garante que o álbum tenha unidade estética do início ao fim.

Coordenação Geral: Leonardo Netto

A espinha dorsal operacional.
É quem faz o disco existir no mundo real — datas, prazos, equipes, aprovações.

Assistente de Coordenação Geral: Suely Aguiar

O cuidado, a precisão e a sustentação cotidiana de toda a operação.

Identidade visual — A atmosfera que veste o disco

Capa: Gringo Cardia

Um dos maiores designers brasileiros.
Sua capa sintetiza o que o álbum é: intensidade, contraste, energia e luz.

Fotos: Flávio Colker

Registra Cássia com força, sem artifícios — como ela era.

Make-up e cabelo: Duda Molinos

Lenda da beleza brasileira.
Assina a estética que revela Cássia sem mascará-la.

Produção das fotos: Gringo Cardia

Coerência estética do início ao fim.
Nada é gratuito; tudo é intencional.

Momento espontâneo registrado por Flávio Colker, evidenciando a autenticidade que marcou a artista | FOTO: Flávio Colker / divulgação

MÚSICOS — As mãos e sopros que constroem o som

Bateria — Renato Massa

Segurança, precisão e pulsação.
O groove de Massa é firme, moderno e respeitoso à voz.

Baixo — Fernando Nunes

Chão afetivo e melódico do disco.
Um dos maiores baixistas do país, entregando alma a cada faixa.

Violão, tamborim e pandeiro árabe — Luiz Brasil

O artesão do som.
Suas cordas e percussões criam texturas que tecem o álbum.

Hammond & piano acústico — Paulo Calasans

O toque fino que dá profundidade emocional e atmosfera cinematográfica.

Percussões — Lanlan & Thamyma Brasil

  • Lanlan: tamborim solo e ganzá — sensualidade, movimento e energia.
  • Thamyma Brasil: tamborim — detalhes que brilham sem excesso.

Sopros — Arranjo de metais: Luiz Brasil

Os metais trazem grandeza e cor ao álbum.

Trompetes

Jessé Sadoc
Flávio de Melo

Flugel

Nelson de Oliveira

Sax alto

Zé Canuto

Sax tenor

Marcelo Martins

Trombones

Vittor Santos
Sérgio de Jesus

Tuba

Eliezer Rodrigues

Trompas

Philip Dayle
Ismael de Oliveira

Flautas em sol

Verônica Alde
Andreia Ernest Dias

Cada sopro é pincel de cor.
Cada entrada marca presença.
Tudo na medida exata.

 Autores — Os mundos que Cássia atravessou

  • Nando Reis — afetos desmedidos, realidades expostas.
  • Caetano Veloso — desejo, pista, liberdade.
  • Marisa Monte & Moraes Moreira — esperança resistente.
  • Gilberto Gil — mito e ancestralidade.
  • Itamar Assumpção — crítica marginal.
  • Luiz Melodia — noite, perigo e poesia.
  • Luiz Capucho — delicadeza queer.
  • Carlinhos Brown — ritmo e sensualidade.
  • Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Pepeu Gomes — memórias e apagamentos.

Cada autor trouxe um universo.
Cássia uniu todos em um cosmos só.

Voz — Cássia Eller

Impossível comentar, apenas constatar:
Cássia não interpretava — vivia.
Sua voz é corpo, gesto, ferida, gargalhada, beijo, queda, cura.

É por isso que o álbum ainda pulsa.
Ele não é apenas ouvido — é sentido.

O centro gravitacional do álbum.
A voz que canta, grita, ri, confessa, questiona e arde.
Cássia não interpreta — ela encarna.

POR QUE OUVI-LO DE NOVO?

Porque este disco é espelho e mapa. É o retrato de um Brasil que tentava se entender, e de uma mulher que se entendia como poucas. É afeto, política, pista de dança, rua, cotidiano, poesia, fúria, calmaria. É um segundo sol — aquele que chega para “realinhar órbitas” e iluminar de novo o que parecia apagado.

Ouvir este álbum hoje é uma forma de lembrar que, apesar de tudo, ainda é possível reorganizar o mundo — seja com amor, com coragem ou com uma voz que arde sem explicação.

A iluminação concebida por Colker revela contrastes que dialogam com o caráter emocional do álbum | FOTO: Flávio Colker / divulgação

Playlist com as músicas do álbum na versão original e algumas versões ao vivo por tOn Miranda

Foto da contracapa do álbum na versão colorida e ao lado a escolha pelo PB, na lente de Colker, destaca nuances emocionais e reforça a atemporalidade da imagem | FOTOS: Flávio Colker / divulgação

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