SONHAR É ABRIR PORTAS: O Festival Nós Pela Cultura e a Força Transformadora dos Jovens Criadores | MEU OLHAR

Na Sala Itaú Cultural, sonhos se tornaram matéria de cena, formação virou horizonte e a fruição reafirmou seu poder de mudar destinos

Em parceria com a Fundação CASA, Itaú Cultural realiza mais uma edição do Festival Nós Pela Cultura e transforma o palco da Paulista em um campo lúdico onde sonhos, arte e educação redesenham futuros possíveis | ILUSTRAÇÃO: Beto Cavalcante / divulgação

Por tOn Miranda

Festival Nós Pela Cultura 2025

Quando os sonhos ganham palco, a realidade aprende a se transformar

O Festival Nós Pela Cultura, realizado ontem, dia 02 de dezembro de 2025, nasceu — mais uma vez — do encontro luminoso entre o Itaú Cultural da Fundação Itaú e a Fundação CASA. Nesta edição, guiada pelo tema SONHOS, a Sala Itaú Cultural se transformou em um campo lúdico, sensível e profundamente simbólico: um território onde imaginar é um verbo ativo, político e capaz de deslocar destinos.

Ali, onde diariamente se produz arte, cultura e educação, o palco virou portal. Uma grande porta aberta para novos imaginários, novas existências possíveis e novos caminhos que começam quando alguém acredita — e quando alguém oferece as condições para que acreditar não seja um risco, mas uma potência.

Sonhos são portas abertas

E cada jovem atravessou a sua

Durante toda a tarde, cerca de 80 adolescentes de 10 centros socioeducativos apresentaram performances que atravessaram linguagens como teatro, dança, música, maculelê, coral, percussão e criação visual. Cada gesto, cada som e cada palavra carregavam um sopro de possibilidade: aquilo que um sonho é capaz de instaurar quando encontra espaço para respirar.

Essas apresentações não foram apenas espetáculos. Foram afirmações de existência, reafirmações de futuro e testemunhos de como a arte, quando acessível e partilhada, é capaz de reorganizar a paisagem interna de quem cria e de quem assiste.

Formação, acolhimento e horizonte

A força transformadora do programa Jovens Produtores

Nos bastidores — e também no coração do festival — pulsou uma das iniciativas mais significativas do Itaú Cultural: a formação Jovens Produtores, completamente conduzida pelas equipes do IC.

Entre setembro e novembro, 13 adolescentes mergulharam no universo da Produção Cultural e de Eventos, conhecendo na prática áreas essenciais como:

  • iluminação
  • sonorização
  • cenografia
  • projeção
  • transmissão
  • processos de montagem
  • visitas técnicas às áreas operacionais do IC

Esses jovens não apenas aprenderam: experimentaram. Tornaram-se parte efetiva da engrenagem que constrói um espetáculo. E, ao ocupar esse lugar, inauguraram um outro dentro de si mesmos: o de quem sabe que pode criar, decidir, coordenar, projetar. O de quem descobre uma profissão, um afeto, um novo ponto de vista para o próprio futuro.

O resultado aparece no brilho dos olhos durante a execução das tarefas, nas conversas de bastidores, na postura que se transforma. Produzir cultura, nesses corpos jovens, ganhou o sentido mais amplo possível: o de produzir vida.

A estética do encontro

Painéis, cenários, vozes e corporeidades

Os painéis produzidos por 18 adolescentes dos centros Rio Tâmisa e Itaquera preencheram o espaço com cor, textura e identidade, tornando-os parte essencial da criação do festival.

O evento se tornou, assim, uma grande obra coletiva: cada apresentação, uma porta; cada painel, uma janela; cada jovem, um eixo de criação. O palco se abriu e, com ele, abriu-se também uma ética de cuidado, respeito e autoria compartilhada.

Matheus Paz, um dos produtores executivos do Itaú Cultural que produziu o festival Nós Pela Cultura junto com Victor Soriano, Rafael Desimone (Cabelo) e tOn Miranda – Cenário SONHOS | FOTO: Iago Germano / divulgação

Fruição: o elo invisível que transforma quem faz e quem assiste

Se há um ponto que este festival provoca — e qualifica — com profundidade, é o conceito de fruição cultural.

Fruição é mais do que assistir.
É vivenciar.
É sentir por dentro.
É permitir que a obra se torne espelho, ponte, travessia.

Na cadeia produtiva da cultura, a fruição é elemento estruturante: ela conecta quem cria, quem produz e quem consome. Sem fruição, não há impacto; sem impacto, não há continuidade.

Para os Jovens Produtores, compreender fruição é compreender que a experiência do público é tão importante quanto a técnica impecável de bastidores. Para os jovens artistas, é entender que o gesto artístico só se completa quando encontra um olhar capaz de acolhê-lo. E para o público, é esse momento-semente em que algo se move internamente — e, ao se mover, muda o curso de uma história.

O Nós Pela Cultura 2025 evidencia que a fruição é, simultaneamente, pedagógica, social e poética. É ela que torna o festival um organismo vivo.

Quando cultura, educação e afeto caminham juntas

O festival não é apenas um evento anual. É um gesto político de cuidado, construído a muitas mãos, com sensibilidade e compromisso. É prova viva de que a arte, quando aliada à educação e à responsabilidade social, pode ser ponte entre mundos que raramente se encontram.

Aqui ecoa o pensamento de Paulo Freire, quando afirma que “educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. E ecoa também a lucidez de Fernanda Montenegro, que tantas vezes nos lembra que a arte é um direito humano, uma forma de dignidade, memória e futuro.

A parceria entre a Fundação CASA e o Itaú Cultural revela que produzir cultura é também produzir cidadania — ampliar acesso, promover autonomia e transformar trajetórias a partir de uma perspectiva que reconhece nos jovens sujeitos criativos, inteligentes, sensíveis e capazes de imaginar novos futuros.

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