A montagem da Companhia Ensaio Aberto reafirma a potência ética e poética do texto de João Cabral de Melo Neto, provando que algumas obras seguem vivas porque insistem em dizer o que o mundo prefere calar.

Assisti ontem, 10 de janeiro, à montagem de Morte e Vida Severina em cartaz no Sesc Pinheiros, que se despede do público no próximo 18 de janeiro. Saí do teatro com a sensação clara de que algumas obras não envelhecem: elas atravessam o tempo, deslocam-se de contexto e continuam nos convocando a olhar para o mundo com mais rigor e humanidade.
O texto de João Cabral de Melo Neto nunca foi apenas literatura dramática. Ele é matéria ética. Um texto que exige escuta atenta, que não se rende ao ornamento e que encontra sua força justamente na secura, no ritmo interno e na recusa à catarse fácil. Severino não pede empatia; ele exige reconhecimento.
Nesta montagem, dirigida por Luiz Fernando Lobo, com direção musical de Itamar Assiere, a obra se apresenta com uma excelência técnica inegável. A cenografia de J. C. Serroni, a iluminação de Cesar de Ramires e os figurinos de Beth Filipecki e Renaldo Machado constroem uma cena de alto rigor estético, coerente, precisa e absolutamente digna de prêmios. Tudo está ali com clareza de linguagem e respeito à obra.

Com uma trajetória marcada pela investigação estética aliada ao compromisso político e social do teatro, a Companhia Ensaio Aberto, sediada no Rio de Janeiro, construiu, ao longo dos anos, um repertório que dialoga diretamente com obras que exigem densidade, rigor e responsabilidade ética. Seu trabalho parte sempre do entendimento profundo do texto e da cena como espaço de pensamento, onde forma e conteúdo caminham juntos. Nesta montagem, a Ensaio Aberto reafirma sua maturidade artística, sua coerência de linguagem e sua capacidade de atualizar clássicos sem esvaziá-los, mantendo viva a potência crítica e humana da obra de João Cabral de Melo Neto.
Sobre Morte e Vida Severina, escrevo também a partir de um lugar pessoal. Em 1994, fiz parte, como atriz, da montagem dirigida por Silnei Siqueira. Tivemos, à época, o privilégio raro de realizar apresentações especiais no Memorial da América Latina ao lado do elenco histórico da montagem de 1964, também dirigida por Silnei. Foi nesse processo que ouvi dele uma história que nunca esqueci: na primeira montagem, a ideia inicial era que Chico Buarque musicasse as falas de Severino. Chico voltou com praticamente toda a obra musicada — exceto o texto de Severino. Disse que aquele texto não poderia ser musicado. Ele precisava ser dito.
Essa decisão revela uma compreensão profunda do material. O percurso de Severino exige palavra nua, sem mediações, sem proteção. E é justamente por isso que afirmo: a montagem que vi ontem é, em sua concepção artística, quase impecável. Ela entende a importância do texto, respeita sua densidade e constrói um espetáculo de grande impacto.
Faço aqui, no entanto, uma reflexão que não se pretende sentença, mas diálogo. Como produtora cultural e jornalista, aprendi que a crítica não deve ser um exercício de vaidade. Criticar não é apontar defeitos; é assumir responsabilidade. A crítica tem enorme valor, mas precisa ser sustentada por conhecimento, escuta e compromisso com o processo artístico.
Nesse sentido, o único estranhamento que senti está relacionado ao uso do microfone sobre vozes densamente projetadas. A sensação é de que a montagem foi concebida para a voz sem amplificação e que o microfone entrou posteriormente (essa é uma sensação pessoal, não tenho informação sobre o processo). Em alguns momentos, o volume excessivo distancia a palavra do afeto, transformando a dor que o acompanha em um elemento de fora para dentro, quando ela me parece essencialmente o contrário: é uma dor de dentro para fora, o que me faz pensar que ele acaba por não permitir as variações de arco que o próprio texto propõe.
Fiquei com um desejo muito claro: ver essa mesma montagem em um teatro menor, onde o silêncio possa existir, onde as expressões sejam mais próximas e onde a voz humana, sem mediação técnica, recupere a sua potência.
Antes de se despedir, o espetáculo ainda oferece sessões com acessibilidade em Libras nos dias 15, 16, 17 e 18 de janeiro, um gesto coerente com a dimensão ética da obra e com a urgência de ampliar o acesso às grandes narrativas da nossa dramaturgia.
Morte e Vida Severina segue sendo um espelho incômodo. E talvez seja exatamente por isso que, mais de meio século depois, ele continue absolutamente necessário.
Assistam. É belíssimo!
