O Tempo Não Para: Clássicos da MPB que Completam 30, 40 e 50 Anos em 2026 | VALE A PENA OUVIR DE NOVO

De Cartola a Marisa Monte, uma viagem pela repercussão original e o legado eterno de discos que moldaram a identidade musical brasileira

Elis Regina, Zé Ramalho, Sandra Sá e Chico Buarque, são alguns dos artistas que em 2026 tem álbuns de suas discografias que estão completando 30, 40 ou 50 anos neste ano | FOTOS: divulgação

Por tOn Miranda

O tempo passa. A música insiste.
Ela atravessa governos, modas, formatos, suportes. Troca o vinil pelo streaming, o rádio pelo fone de ouvido, mas permanece ali, firme, dizendo coisas que a gente ainda não conseguiu dizer melhor.

O ano de 2026 marca um alinhamento planetário raro na música brasileira. Ao olharmos para o retrovisor, encontramos três safras excepcionais separadas por décadas exatas. Em 1976, a MPB vivia um auge de sofisticação em meio à ditadura; em 1986, o Rock Brasil amadurecia e o Soul nacional ganhava as paradas; e em 1996, a mistura de ritmos regionais com o pop dominava as rádios. Há algo de muito simbólico nesse encontro de décadas. Em 1976, artistas criavam beleza em meio à repressão, lapidando canções como quem esconde bilhetes dentro de metáforas. Em 1986, o país reaprendia a respirar, e a juventude transformava dúvidas, paixões e conflitos em música cantada em coro. Em 1996, com o Brasil tentando se reorganizar, a canção popular virava laboratório: misturava tradição e tecnologia, regionalismo e pop, raiz e futuro.

Esta não é uma matéria para lembrar “como era bom antigamente”. É uma escuta guiada para entender por que essas obras ainda dizem tanto sobre quem somos hoje. São álbuns que não ficaram presos às suas épocas. Eles continuam nos olhando nos olhos, pedindo atenção, pedindo tempo. E talvez seja isso que a boa música sempre pede: presença. Nesta matéria especial, revisitamos 10 álbuns fundamentais que celebram, respectivamente, suas bodas de Ouro (50 anos), Rubi (40 anos) e Pérola (30 anos).

50 Anos: A Safra de Ouro de 1976

Em 1976, a música brasileira atingiu um nível de produção artística que ecoa até hoje como sinônimo de excelência.

Falso Brilhante – Elis Regina

A Repercussão: Originado de um espetáculo teatral e musical homônimo que ficou mais de um ano em cartaz, o álbum foi um sucesso estrondoso. Na época, Elis já era uma estrela, mas este disco consolidou sua imagem não apenas como intérprete técnica, mas como uma voz política e visceral. A crítica aclamou a forma como ela “descobriu” Belchior para o grande público.

Elis Regina | FOTO: divulgação

O Destaque: A versão definitiva de “Como Nossos Pais”. A interpretação rasgada e dolorosa de Elis transformou a canção em um hino de uma geração frustrada com a repressão política.

O Legado: Hoje, é considerado um dos maiores álbuns da história da música nacional. É a referência máxima de interpretação feminina na MPB, ensinando como transformar técnica em pura emoção.

Cartola – Cartola (2º Álbum)

A Repercussão: Lançado quando o mestre já beirava os 70 anos, o disco foi recebido com reverência, embora Cartola ainda fosse mais um “tesouro escondido” dos sambistas do que um ídolo pop de massas. A crítica o tratou como uma joia rara de autenticidade.

Cartola | FOTO: divulgação

O Destaque: A quantidade de clássicos em um único vinil é assustadora: “O Mundo é um Moinho”, “As Rosas não Falam” e “Preciso Me Encontrar”.

O Legado: O álbum provou que o samba de raiz é atemporal. Em 2026, suas letras continuam sendo regravadas por artistas de todos os gêneros, do rap ao sertanejo, reafirmando Cartola como o maior poeta do morro.

Meus Caros Amigos – Chico Buarque

A Repercussão: Chico era o alvo preferido da censura. O lançamento foi marcado pela astúcia do compositor em driblar os generais. A faixa-título, enviada em fita cassete para Augusto Boal no exílio, gerou comoção nacional.

Chico Buarque | FOTO: divulgação

O Destaque: A faixa “O Que Será? (À Flor da Pele)”, tema do filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. A complexidade lírica misturada ao apelo popular foi o grande trunfo.

O Legado: O disco é um documento histórico de resistência. Musicalmente, mostra um Chico Buarque dominando a construção de melodias complexas, sendo estudado em universidades e conservatórios até hoje.

A Voz, O Violão, A Música de Djavan – Djavan

A Repercussão: Foi o cartão de visitas. O Brasil conheceu um alagoano que misturava samba com uma divisão rítmica “ajeitada” e influências de jazz. A crítica se surpreendeu com a originalidade das harmonias.

Djavan | FOTO: divulgação

O Destaque: “Flor de Lis”. Um samba tecnicamente perfeito que estourou nas rádios, algo raro para uma canção com tamanha complexidade harmônica.

O Legado: Este álbum lançou as bases do “estilo Djavan”. Cinquenta anos depois, ele é visto como o nascimento de um dos maiores hitmakers e compositores do país.

40 Anos: A Maturação de 1986

Uma década depois, o Brasil respirava os ares da redemocratização e a música jovem tomava conta das paradas.

Dois – Legião Urbana

A Repercussão: Se o primeiro álbum foi a revolta punk, o “Dois” foi a consagração lírica. Vendeu muito e tocou exaustivamente nas rádios. Renato Russo foi elevado ao status de “messias” da juventude, rótulo que ele rejeitava.

Legião Urbana | FOTO: divulgação

O Destaque: O “Lado 2” do vinil, que emendava “Tempo Perdido”, “Metrópole” e “Índios”. A faixa “Eduardo e Mônica” provou que uma música de quase 5 minutos, sem refrão óbvio, podia ser hit.

O Legado: É o álbum definitivo do Rock Brasília. Quarenta anos depois, suas letras sobre amor, política e inadequação social continuam sendo cantadas por adolescentes, provando a universalidade da poesia de Renato Russo.

Sandra Sá – Sandra Sá

A Repercussão: Em 1986, Sandra Sá (que nesta época assinava sem o “de” e recentemente voltou a assinar sem o “de”) já era a rainha do soul brasileiro. O álbum foi um sucesso comercial, impulsionado por trilhas de novelas e pela voz potente e inconfundível da cantora.

Sandra Sá | FOTO: divulgação

O Destaque: “Retratos e Canções” e “Joga Fora no Lixo”. O álbum equilibrava baladas românticas avassaladoras com um funk/soul dançante que lotava as pistas.

O Legado: Consolidou a Black Music brasileira no mainstream. A performance vocal de Sandra neste disco influenciou toda uma geração de cantoras de pop e R&B que viriam nos anos 2000, como Iza e Ludmilla.

30 Anos: O Caldeirão de 1996

Em 1996, o Brasil vivia a estabilidade do Real e a música refletia um otimismo colorido, misturando o regionalismo com tecnologia e pop.

Barulhinho Bom : Uma Viagem Musical – Marisa Monte

A Repercussão: Marisa já era gigante, mas “Barulhinho Bom” causou polêmica e fascínio. A capa, com um desenho erótico do artista Carlos Zéfiro, foi censurada em alguns locais (vendida em saco preto). Musicalmente, a mistura de faixas ao vivo e estúdio foi elogiada pela audácia estética.

Marisa Monte | FOTO: Jorge Rosenberg / divulgação

O Destaque: A aproximação com os Novos Baianos (regravando “A Menina Dança”) e o hit “Segue o Seco”, que trouxe uma estética árida e moderna para a MPB.

O Legado: O álbum serviu de ponte entre a MPB clássica e a geração MTV. Visualmente icônico, ele preparou o terreno para os Tribalistas e reafirmou Marisa como uma produtora visual e sonora completa.

Alfagamabetizado – Carlinhos Brown

A Repercussão: Aguardadíssimo. Brown era o “midas” por trás dos sucessos de Marisa Monte e Sepultura. A crítica internacional (especialmente na Europa) amou o disco, vendo nele uma revolução percussiva. No Brasil, causou estranhamento inicial pela complexidade, mas gerou hits instantâneos.

Carlinhos Brown | FOTO: divulgação

O Destaque: “A Namorada”. A batida eletrônica misturada com percussão orgânica definiu o som do verão de 96/97.

O Legado: Mostrou que a música baiana ia muito além do Axé comercial de trio elétrico. É um disco vanguardista que misturou ancestralidade africana com pop global.

O Grande Encontro – Alceu, Elba, Geraldo e Zé

A Repercussão: O que era para ser apenas um show acústico virou um fenômeno de vendas. O Brasil redescobriu a força do cancioneiro nordestino em formato “unplugged”. Foi onipresente em todas as casas brasileiras.

Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo | FOTO: divulgação

O Destaque: A química entre as quatro vozes. Canções como “Chão de Giz” e “Frevo Mulher” ganharam versões que se tornaram definitivas para o público.

O Legado: O projeto revitalizou a carreira dos quatro artistas e provou a força comercial da música regional nordestina sem a necessidade de batidas eletrônicas. Três décadas depois, a marca “O Grande Encontro” segue forte em turnês.

Mineral – Timbalada

A Repercussão: A Timbalada era a febre do momento. O álbum “Mineral” explodiu nas rádios com uma percussão inovadora que pintava corpos e arrastava multidões.

Timbalada | FOTO: divulgação

O Destaque: A faixa-título “Água Mineral”. A letra simples e o ritmo contagiante tornaram-se sinônimo de Carnaval e saúde.

O Legado: O álbum eternizou a estética do Candeal para o mundo. A batida do timbal criada por Brown e executada pela banda neste disco influenciou arranjos de pop music no mundo inteiro.

O que fica quando o disco acaba

Quando o disco acaba, algo continua tocando dentro da gente.
É assim com os grandes álbuns. Eles não se encerram na última faixa. Viram referência, abrigo, provocação. Passam de mão em mão, de geração em geração, como se carregassem uma pergunta permanente: o que você faz com isso que ouviu?

Celebrar esses 30, 40 e 50 anos não é um gesto saudosista. É reconhecer que essas obras ajudaram a formar nosso jeito de sentir, pensar e existir no mundo. Elas ensinaram que cantar também é resistir, que dançar também é discurso, que beleza e crítica podem caminhar juntas sem pedir licença.

Reouvir esses discos em 2026 é quase um ato de coragem num tempo apressado. É parar. Escutar. Perceber que muita coisa mudou, mas nem tanto assim. Porque enquanto houver alguém disposto a se emocionar com uma interpretação rasgada, um verso bem escrito ou uma batida que reorganiza o corpo, a música brasileira seguirá fazendo o que sempre fez de melhor: nos lembrar que o tempo passa, mas a arte fica.

Ao celebrarmos os aniversários destes álbuns em 2026, estamos revisitando documentos sonoros que explicam quem somos. Seja na dor de Elis, na poesia urbana da Legião ou na batida do timbal, esses discos provam que a arte brasileira não tem prazo de validade.

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