Quando a palavra vira carne em cena | MEU OLHAR

Em “O Segredo de Brokeback Mountain”, a química entre Júlio Oliveira e Marcéu Pierrotti reafirma a força essencial do teatro: a arte do ator

Os atores Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira, protagonizam o espetáculo do filme homônimo O Segredo de Brokeback Mountain | FOTO: Terci Melo / divulgação

Por tOn Miranda

Há espetáculos que se sustentam na cenografia. Outros na tecnologia. Alguns na força da música. Mas há aqueles que se apoiam, antes de tudo, no encontro humano que acontece no palco. “O Segredo de Brokeback Mountain”, em cartaz no Teatro Itália, pertence a essa última categoria. É um espetáculo que encontra sua verdadeira potência naquilo que o teatro tem de mais antigo e essencial: a arte do ator.

Assisti à estreia da temporada paulista e voltei ao teatro no último 5 de março de 2026. O que vi na segunda vez foi algo raro e bonito de perceber: uma energia em crescimento. Mais maturidade, mais escuta entre os atores, mais entrega. Como se cada apresentação fosse cavando um pouco mais fundo no coração da história.

No centro de tudo estão Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira, que constroem uma dupla cênica de enorme intensidade. Existe entre eles uma química palpável, dessas que não se fabricam. Ela nasce da escuta, da confiança e da consciência profunda do ofício.

Os dois atores parecem saborear cada palavra do texto, explorando a suculência da dramaturgia com precisão e generosidade. Não há pressa. Há respiração. Há pausa. Há silêncio. E nesses espaços entre uma frase e outra o público entra junto.

Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira | FOTO: Terci Melo / divulgação

Júlio Oliveira cria um Jack Twist luminoso, impulsivo, um homem que insiste em viver o amor apesar das limitações do mundo ao redor. Já Marcéu Pierrotti constrói um Ennis del Mar marcado pela repressão emocional, um homem que sente muito, mas que aprendeu desde cedo que sentir pode ser perigoso. Essa tensão entre desejo e contenção é o motor da encenação.

Quando os dois dividem o palco, o espetáculo encontra sua temperatura ideal. Há momentos em que o teatro parece suspenso. O público respira junto.

A história, adaptada para o teatro por Ashley Robinson a partir do conto de Annie Proulx e que ganhou projeção mundial com o filme O Segredo de Brokeback Mountain, continua sendo uma das narrativas mais delicadas e dolorosas sobre amor, masculinidade e repressão. Ambientada nos Estados Unidos dos anos 60, acompanha o encontro de dois jovens cowboys que, isolados nas montanhas cuidando de ovelhas, descobrem um sentimento que não cabia no mundo em que viviam.  A força dessa história está justamente no conflito entre o amor vivido e o amor negado. Entre o desejo de existir e o medo de pagar o preço por isso.

O ator Marcéu Pierrotti que dá vida a Ennis del Mar | FOTO: Terci Melo / divulgação

Apesar de algumas ressalvas pessoais que tenho em relação a determinadas escolhas de encenação e soluções visuais — sobretudo pela presença constante de elementos que por vezes interferem na intimidade entre os personagens — o espetáculo encontra sua grande força na palavra e na atuação. E isso não é pouca coisa. Porque quando o teatro confia nos atores, algo muito poderoso acontece.

E é isso que se vê em cena. Um grupo de intérpretes totalmente comprometidos com a narrativa. Além de Júlio e Marcéu, o elenco cria uma composição sensível que sustenta a história com generosidade e precisão. O resultado aparece também do outro lado da ribalta.

Júlio Oliveira que encarna Jack Twist e ainda entrega uma direção de produção impecável na temporada paulista | FOTO: Terci Melo / divulgação

É bonito observar a plateia: cheia, diversa e atenta. Desde quem está sentado na primeira fileira até quem ocupa a última cadeira do Teatro Itália. O público é fisgado pouco a pouco. Riem em alguns momentos, enxugam lágrimas em outros, prendem a respiração em certos silêncios. Mas, sobretudo, permanecem entregues. Há algo de muito especial quando um espetáculo consegue atravessar tantas pessoas diferentes ao mesmo tempo.

“O Segredo de Brokeback Mountain” fala de amor, de medo, de silêncio e de coragem. Mas também fala sobre algo que o teatro sabe fazer como poucos lugares no mundo: criar encontros verdadeiros entre quem está no palco e quem está na plateia. E quando isso acontece, a experiência deixa de ser apenas um espetáculo. Vira memória.

Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira são Ennis del Mar e Jack Twist de O Segredo de Brokeback Mountain em cartaz até 26 de março de 2026 no Teatro Itália em São Paulo | FOTO: Terci Melo / divulgação

Serviço

O Segredo de Brokeback Mountain

Teatro Itália – Av. Ipiranga, 344 – República – São Paulo
Temporada: até 26 de março de 2026
Quartas e quintas
20h
Duração: 90 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama

Ingressos: R$ 100 (inteira) | R$ 50 (meia)

Direção: Moacyr Góes
Texto: Ashley Robinson
Tradução: Miguel Góes

Elenco: Marcéu Pierrotti, Júlio Oliveira, Daniel Tonsig, Marcelo Brou, Arlete Heringer, Francis Helena Cozta e Eduardo Rieche

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *