Entre a engrenagem perfeita e o risco do improviso: meu olhar sobre a estreia teatral de Chay Suede | MEU OLHAR

Um espetáculo visualmente sedutor, intelectualmente provocador, mas que ainda busca o território da surpresa que o ator tantas vezes nos ensinou a esperar

Chay Suede em seu debute no teatro no palco do Teatro Cultura Artística | FOTO: Mayra Azzi / divulgação

Por tOn Miranda

Por vezes, o teatro nos convida a assistir não apenas a um espetáculo, mas a um gesto. E a estreia de Chay Suede nos palcos, em Peça Infantil (Para Adultos) –  A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay, parece justamente isso: um gesto artístico cercado de inteligência criativa, boas intenções e um desejo claro de construir um objeto cênico sofisticado. Um objeto bonito, bem pensado, mas que, paradoxalmente, parece proteger demais o ator do risco que o teatro costuma exigir.

Dirigido por Felipe Hirsch e com dramaturgia assinada por Caetano W. Galindo em parceria com o próprio Hirsch, o espetáculo se apresenta como um pseudodocumentário cênico que mistura memória, autoficção e reflexão sobre fama, identidade e construção de imagem.

E talvez seja justamente aí que mora sua maior força: no texto.

O texto de Galindo é, sem dúvida, um dos grandes trunfos da montagem. Inteligente, bem articulado e cheio de provocações contemporâneas sobre narcisismo, consumo da imagem e a fragilidade da autenticidade num mundo hiperexposto, ele cria um terreno fértil para o jogo do ator. São ideias que poderiam render uma partitura emocional muito rica, cheia de contrastes e zonas de instabilidade.

Mas o que senti, como espectador atento ao ofício do ator, é que a encenação extremamente marcada acaba, em alguns momentos, domesticando esse potencial.

Uma engrenagem cênica bonita de ver

Chay Suede em cena no espetáculo Peça Infantil (Para Adultos) – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Robertchay | FOTO: Flavia Canavarro / divulgação

É impossível não reconhecer a qualidade plástica do espetáculo. A cenografia de Daniela Thomas (em parceria com Felipe Tassara) cria um espaço elegante, conceitual e visualmente sedutor. Existe um pensamento imagético muito claro ali. Nada parece estar por acaso.

A paisagem sonora criada por Os Fita (Abel Duarte e Cainã Bomilcar) também merece destaque especial. Ela funciona quase como uma respiração invisível do espetáculo, ajudando a conduzir o espectador por esse território híbrido entre memória, ficção e ironia.

Tudo é muito bem resolvido tecnicamente. Luz, vídeo, figurino, movimento. É uma engrenagem precisa. Mas talvez justamente por ser tão precisa, por vezes falta o tropeço. E o teatro também vive do tropeço.

O Robertchay que ainda quer se soltar

Chay Suede no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, em carta com o espetáculo Peça Infantil (Para Adultos) – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Robertchay | FOTO: Mayra Azzi / divulgação

Chay Suede chega ao teatro com uma carreira consolidada de mais de 15 anos no audiovisual. Quem acompanha sua trajetória na televisão e no cinema sabe da sua capacidade de surpreender, de quebrar expectativas, de encontrar nuances inesperadas dentro de personagens aparentemente simples.

Talvez por isso minha expectativa não fosse apenas ver Chay em cena, mas ver o ator Chay em risco.

O que encontrei foi um Cavalheiro Robertchay minimalista, muito correto, muito consciente da proposta, mas ainda pouco atravessado pela imprevisibilidade da arte do ator que tantas vezes já vimos nele. Existe presença. Existe carisma. Existe domínio. Mas senti falta das fissuras.

Em vários momentos tive a sensação de assistir mais a um personagem narrando um documentário sobre si mesmo do que um ator sendo atravessado por um acontecimento teatral vivo. Como se a proposta do pseudodocumentário, assumida pela criação, tivesse vencido a pulsação mais orgânica do jogo teatral.

E talvez isso seja mesmo uma escolha estética.

Mas como espectador, senti falta de ser arrebatado pelas viradas inesperadas que Chay tantas vezes entrega no audiovisual.

Quando a plateia também vira cena

Um dos momentos mais bonitos da experiência, curiosamente, não estava no palco.

Estava na plateia. Assistir às reações cúmplices de Laura Neiva, atriz, esposa e companheira de Chay, foi quase um espetáculo paralelo. O riso que chega antes de algumas situações, o olhar de quem claramente reconhece referências íntimas, a alegria compartilhada. Existe algo muito bonito ali. Mais do que as possíveis piadas internas, o que se vê é cumplicidade. É afeto. É torcida. E isso também é teatro. Porque o teatro não acontece só no palco. Ele também acontece nos olhos de quem assiste.

Um primeiro passo que ainda promete muito

Chay Suede em cena do espetáculo Peça Infantil (Para Adultos) – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Robertchay | FOTO: Mayra Azzi / divulgação

É importante dizer: este é um espetáculo relevante. Inteligente. Bem cuidado. Artisticamente sério. E também é importante dizer: é uma estreia. E estreias são territórios de descoberta.

Chay Suede demonstra respeito pelo teatro. Demonstra estudo. Demonstra desejo de construir um caminho. E isso já é muito.

Mas fica a sensação — e digo isso com admiração sincera — de que quando ele permitir que a estrutura o proteja um pouco menos e que o risco apareça um pouco mais, algo ainda mais potente pode nascer desse encontro dele com o palco. Porque talento ele tem. Presença ele tem. História ele tem.

Porque no fim, mais do que assistir a estreia de um ator no teatro, tive a sensação de testemunhar o começo de um diálogo. Um diálogo entre um artista experiente e uma linguagem que ainda vai exigir dele novas camadas, novos riscos e talvez um pouco mais de descontrole. E é justamente aí que mora a beleza: quando um ator do tamanho de Chay Suede decide começar de novo, o que a gente vê não é um ponto de chegada. É um primeiro capítulo. E primeiros capítulos, quando são honestos, sempre prometem boas histórias.

Chay Suede | FOTO: Mayra Azzi / divulgação

Serviço

Peça Infantil (Para Adultos) – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay
com Chay Suede

Temporada: até 3 de maio
Local: Teatro Cultura Artística
Endereço: Rua Nestor Pestana, 196 – Consolação – São Paulo
Dias e horários:
Sábados às 19h e 21h30
Domingos às 17h e 19h30

Duração: 90 minutos
Classificação etária: 14 anos
Capacidade: 700 lugares

Ingressos: a partir de R$ 80
Vendas: Ticketmaster

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