Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão: 30 anos de um Brasil que pulsa e resiste em música, poesia e alma | VALE A PENA OUVIR DE NOVO

“Um Brasil que pulsa em cada nota: Marisa Monte e os 30 anos de um álbum que traduz a alma, a luta e as cores de uma nação”

Marisa Monte nos bastidores da turnê Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão | FOTO: divulgação

Por tOn Miranda

Em 1994, Marisa Monte lançou ao mundo uma obra-prima que se tornaria um símbolo atemporal da identidade brasileira: Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão*. Este álbum, que comemora três décadas, é uma viagem sensorial e espiritual pelo Brasil, retratando suas cores, ritmos, paisagens e desafios. Inspirado em versos da inédita “Seo Zé”, a parceria de Marisa com Nando Reis e Carlinhos Brown, o título do disco evoca as camadas invisíveis e as nuances do país: um Brasil que não se limita às suas cores vibrantes, mas carrega em si o carvão de suas dores e as esperanças de um povo que resiste. É uma ode poética e poderosa ao Brasil profundo, onde a simplicidade e a complexidade coexistem, assim como a tradição e a modernidade.

Três décadas após seu lançamento, este álbum permanece tão atual quanto em seu ano de estreia, refletindo os movimentos sociais e as lutas por justiça que ainda marcam a trajetória do país. O Brasil dos anos 90, em busca de estabilização econômica e sob uma crescente abertura política, é o mesmo Brasil que, hoje, reivindica uma sociedade mais igualitária, sustentável e inclusiva. Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão transcende fronteiras musicais e temporais, reverberando questões de identidade, ancestralidade, ecologia e esperança.

Marisa Monte em 1994 | FOTO: Márcia Ramalho / divulgação

Faixa a Faixa: Um Brasil Multicolorido e Profundo

1. Maria de Verdade (1992)Carlinhos Brown inaugura o álbum com um tributo à mulher brasileira. “Maria de Verdade” é um retrato das Marias do Brasil, fortes, resilientes e invisíveis em sua grandeza cotidiana. Em 1994, exaltava-se a luta feminina por visibilidade e respeito; hoje, essa busca ecoa nas lutas contra a violência de gênero e na valorização da mulher como pilar essencial da sociedade. A faixa conta com a percussão orgânica de Carlinhos Brown e os violões de Nando Reis.

2. Na Estrada (1993) – Essa colaboração entre Marisa, Nando Reis e Carlinhos Brown simboliza a jornada da vida e seus caminhos imprevisíveis. A estrada aqui é uma metáfora tanto para o Brasil em transição quanto para as esperanças de cada indivíduo. Em um país que ainda enfrenta desigualdades regionais, a música lembra que cada passo rumo ao futuro deve ser dado com responsabilidade e visão de coletividade. Os violões de Nando e percussão de Brown também estão presentes nesta canção.

3. Ao Meu Redor (1992) – A composição de Nando Reis convida o ouvinte a observar seu entorno com um olhar atento e crítico. No contexto de 1994, a canção reflete o desejo por uma consciência social; hoje, ela reverbera nas questões ambientais e no desafio de criar uma sociedade mais sustentável e inclusiva. A dupla, Nando Reis e Carlinhos Brown também fazem parte do seleto naipe de músicos nesta canção.

Marisa Monte em 1994 | FOTOS: Márcia Ramalho / divulgação

4. Segue o Seco (1993) – Uma das faixas mais marcantes do álbum, “Segue o Seco” é um lamento sobre a seca do sertão e o descaso com o Nordeste. Brown traz a realidade de um povo que segue, mesmo diante da aridez. Em tempos de aquecimento global e crise hídrica, a canção é um grito de alerta que permanece urgente, lembrando que a seca não é apenas uma condição climática, mas um reflexo de desigualdades históricas. Óbvio que a presença do autor Carlinhos Brown se materializa na percussão, assim como a presença de Nando Reis e do coprodutor Arto Lindsay.

5. Pale Blue Eyes (1968) – Nesta versão da obra de Lou Reed, Marisa conecta o Brasil com o mundo. Em tempos de globalização, “Pale Blue Eyes” sugere que, embora façamos parte de um cenário global, nossa identidade é marcada pelas trocas culturais e pelas influências que absorvemos ao longo do tempo. Em 2024, o diálogo entre o Brasil e o mundo é ainda mais intenso e essencial para a construção de uma identidade aberta e diversa. O mestre Naná Vasconcelos empresta sua magia percussiva nesta canção, parceiro de Marisa desde o álbum anterior, Mais.

6. Dança da Solidão (1972) – A interpretação da icônica “Dança da Solidão” de Paulinho da Viola exalta o samba e a alma do Rio de Janeiro. A solidão, presente na vida do brasileiro, torna-se parte de uma dança. Este clássico reafirma o samba como um símbolo de resistência, tradição e identidade nacional, especialmente em um momento em que precisamos resgatar e valorizar nossas raízes culturais. Outro grande ídolo de Marisa, está presente nesta canção com seu luxuoso violão e vocais inconfundíveis: Gilberto Gil.

Capa do álbum Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão de 1994 | FOTO: divulgação

7. De Mais Ninguém (1993) – Parceria com Arnaldo Antunes, “De Mais Ninguém” é uma delicada reflexão sobre o amor. A exclusividade de sentimentos é aqui uma metáfora para a autenticidade e a profundidade do afeto. Em um mundo cada vez mais digital e superficial, a canção lembra a importância de laços genuínos, uma chamada para o cuidado e a conexão humana. Destaque para a participação instrumental do Conjunto Época de Ouro.

8. Alta Noite (1992) – Gravada anteriormente por Arnaldo Antunes, é uma faixa que mergulha nas profundezas da solidão e do anseio. A temática da solitude, ainda mais evidente na sociedade de hoje, toca em questões de saúde mental e na busca por significado, um tema atemporal que se mostra cada vez mais relevante.

9. O Céu (1994)Nando Reis e Marisa Monte trazem uma contemplação sobre a busca pela paz e pelo sentido maior. O céu é uma metáfora para o desejo de transcendência e liberdade, uma necessidade tanto em 1994 quanto em 2024, em um mundo que busca esperança em tempos difíceis. Aqui Marisa, dentre outros, contou com os violões de Gilberto Gil e Nando Reis.

10. Bem Leve – Essa parceria com Arnaldo Antunes é uma faixa que explora a leveza e a importância de momentos de paz. Em tempos de estresse e pressão, “Bem Leve” surge como um alívio, uma pausa necessária para se conectar com a simplicidade. Gil mais uma vez atacou nos violões nesta canção.

Marisa Monte na turnê do Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão | FOTO: divulgação

11. Balança Pema Jorge Benjor é homenageado com essa faixa que celebra a alegria e a leveza da cultura brasileira. Em um país onde a festa e a música têm papel fundamental, essa canção lembra que mesmo nas adversidades, o brasileiro encontra força e alegria na música e na celebração da vida. Mais uma vez a presença magnética de Gilberto Gil se faz através dos violões e seus vocais arrebatadores.

12. Enquanto Isso – Composta por Marisa e Nando Reis, traz uma reflexão sobre o cotidiano, repleto de dilemas e contradições. A música é um espelho da vida de cada brasileiro, que segue adiante apesar dos desafios, lembrando a capacidade de resiliência que ainda é necessária para enfrentar os tempos atuais. Versão e participação especial em inglês de Laurie Anderson.

13. Esta Melodia – Fechando o álbum, “Esta Melodia” de Jamelão e Bubu da Portela é uma celebração do samba e da tradição carioca. A faixa é uma reverência à ancestralidade e à música como herança cultural, resgatando a importância da memória afetiva e das tradições. Um dos grandes luxos desta gravação é a presença dos tesouros azul e branco da Portela – Paulinho da Viola e a Velha Guarda da Portela em peso e águia.

Marisa Monte | FOTO: divulgação

A Relevância de “Seo Zé” e a Alma do Brasil

Embora “Seo Zé” não esteja no álbum, seu espírito permeia cada faixa. A figura de Seo Zé representa o brasileiro invisível, que resiste, luta e sonha. A música, mesmo ausente, sugere um Brasil além do óbvio, um país de contrastes e camadas. Ao incluir essa referência, Marisa Monte presta uma homenagem aos que sustentam o país com sua luta e trabalho, mas que muitas vezes ficam esquecidos.

“Seo Zé” nos lembra que o Brasil não se limita às suas paisagens tropicais, mas inclui o suor e a garra dos seus habitantes. Cada faixa do álbum é um fragmento dessa brasilidade, um pedaço da alma de um povo que encontra força e beleza em sua própria diversidade.

Trinta Anos Depois: O Brasil Que Resiste e Se Reinventa

No lançamento do álbum em 1994, o Brasil passava por transformações, com uma nova Constituição e o Plano Real emergindo. Hoje, continuamos em busca de mudanças e justiça social, e as mensagens deste disco se mantêm poderosas. A valorização da cultura e da natureza brasileira, presente em cada faixa, continua uma necessidade urgente, que ecoa em tempos de desmatamento e perda de identidade cultural.

Hoje, as questões de identidade, ecologia, desigualdade e diversidade permanecem no centro do debate nacional. Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão é um lembrete de que o Brasil é multifacetado, feito de cores e sons que refletem tanto a beleza quanto as complexidades de um país que ainda luta para se reconhecer e ser respeitado.

Marisa Monte nos deu uma obra-prima, um lembrete de que o Brasil é feito de diversidade, resiliência e, acima de tudo, de beleza inigualável. Celebrar os 30 anos deste álbum é celebrar um Brasil que pulsa, que cria, que resiste. Marisa Monte capturou em suas músicas o espírito de um povo que encontra na música, na dança, e na poesia, a força para seguir em frente. Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão continua sendo um espelho das nossas alegrias e desafios, um hino à autenticidade brasileira. Marisa Monte nos oferece uma obra para se ouvir e sentir, uma obra para se olhar e se reconhecer.

Marisa Monte em 1994 | FOTOS: Márcia Ramalho / divulgação

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