Inspirada pela obra de Bell Hooks, a cantora baiana transformou a Sala Itaú Cultural em um espaço de cura e empoderamento através da música.

Por tOn Miranda
Será que já falamos ou já vivemos tudo que o AMOR pode nos proporcionar? Eu confesso que meu primeiro encontro com a voz da baiana Xênia França me trouxe esse questionamento.
Com certeza, as noites de 07 e 08 de setembro de 2024 foram indelevelmente marcadas por um raro encontro entre arte e ativismo. Xênia França, com sua voz aveludada poderosa e presença magnética, levou ao público da Sala Itaú Cultural o show Tudo Sobre o Amor, inspirado na obra da teórica feminista Bell Hooks. Acompanhada apenas pelo magnífico maestro Fabio Leandro ao piano, Xênia entregou uma experiência intimista, mas repleta de significados profundos, trazendo à tona a visão de Hooks sobre o amor como uma ação revolucionária, capaz de transformar e libertar.
Assim como Bell Hooks defendia o amor como prática consciente e instrumento de mudança social, Xênia teceu uma narrativa musical que explorou as várias facetas desse sentimento. Cada canção do repertório foi cuidadosamente escolhida para dialogar com o tema central do show: o poder do amor como força transformadora, tanto em nível pessoal quanto coletivo.



foto: Breno Rotatori
Faixa a Faixa: Tudo Sobre o Amor
1. Luz do Sol
O show começa com Caetano Veloso e uma ode à vida e à renovação, remetendo à ideia de Hooks de que o amor é uma força que ilumina e guia, mesmo nos momentos mais sombrios.
Eu amo que o show começa apresentando a potência da voz de Xênia numa canção que é um dos grandes sucessos do repertório do mestre Caetano. A ansiedade de logo querer emplacar uma música autoral não passa pelo roteiro cuidadoso que Xênia pensou para este show. Ao contrário, cada música tem um porque de estar sendo cantada ali e isso você entende de cara quando o espetáculo se apresenta através do seu sopro poético.
2. As Rosas Não Falam
Ao cantar este clássico de Cartola, Xênia celebra a simplicidade do amor e seus gestos não verbais, ecoando o que Bell Hooks descreve como os pequenos atos que constroem uma ética amorosa.
3. Quase um Segundo
Xênia traz uma interpretação emotiva da canção de Herbert Vianna sobre tempo e distância, conectando-se com a reflexão de Hooks sobre a vulnerabilidade que o amor exige e os desafios de mantê-lo vivo.
4. In a Sentimental Mood
A elegância do jazz de Duke Ellington encontra uma nova dimensão com a voz de Xênia, criando um momento de contemplação e introspecção, como o amor maduro que Bell Hooks tanto defendia.
5. Carinhoso
Xênia revive e reverencia Pixinguinha com uma entrega cheia de afeto, lembrando a necessidade de expressar o amor diariamente, tal como Hooks propõe em suas obras.
6. Miragem
Nesta faixa autoral, Xênia aborda as ilusões do amor e seu poder curativo, trazendo à tona o ensinamento de Bell Hooks sobre a importância de desmantelar expectativas para um amor autêntico.
7. Renascer
A música celebra a renovação pessoal e o renascimento que o amor proporciona, reforçando a ideia de Hooks de que o amor é também resistência e resiliência.
8. Animus x Anima
Xênia explora a dualidade entre o masculino e o feminino, dialogando com a visão de Hooks sobre o amor que acolhe todas as expressões de identidade, livre de imposições de gênero.
9. Nuvem Negra
Aqui, Xênia enfrenta as sombras do amor, as dores e os medos que ele traz, em consonância com o pensamento de Bell Hooks sobre a necessidade de coragem para enfrentar o lado mais difícil do amor.
10. A Paixão / Loving You
Neste medley, a cantora passeia pelo amor intenso e a ternura, revelando a complexidade e as contradições do amor, como defendido por Hooks. E com uma plateia totalmente rendida aos seus encantos, Xênia faz dela um grande coral corajoso que se entrega aos famosos agudos que a canção eternizada na voz de Minnie Riperton.
BIS: Berimbau / Consolação
O bis celebra as raízes afro-brasileiras de Xênia, conectando o amor com a ancestralidade e a cultura, elementos que Bell Hooks sempre acreditou serem fundamentais para nossa identidade e prática amorosa.
O show ainda conta com a luz incrível de Aldrey Hibbeln e a engenharia de som de Gustavo Lagarto. A cuidadosa produção executiva é do espetacular Surabhi Dasa.
Com uma performance emocionante, Xênia França transformou essas duas noites em uma experiência que foi além da música, ecoando as palavras de Bell Hooks e convidando o público a refletir sobre o amor como um ato de resistência e transformação.

