Oscar 2025: A Força do Cinema Nacional e a Vitória de “Ainda Estou Aqui”

“Uma Noite para a História: O Brasil Celebra seu Primeiro Oscar com Walter Salles, Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e a vida de Eunice Paiva”

Por Dinho Santoz, Bia Ramsthaler e tOn Miranda

Walter Salles com o Oscar de melhor filme internacional por ‘Ainda estou aqui’ — Foto: Frederic J. Brown / AFP

O Oscar 2025 foi um marco para o cinema brasileiro, com o filme Ainda Estou Aqui conquistando o prêmio de Melhor Filme Internacional, consolidando a força e a relevância da produção nacional no cenário global. Além dessa vitória histórica, o longa também foi indicado nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz, reforçando o talento e a capacidade do cinema brasileiro de dialogar com temas universais a partir de uma perspectiva local.

A Campanha e a Vitória de “Ainda Estou Aqui”

A campanha pelo Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano foi intensa, com Emilia Perez sendo considerado o favorito por grande parte da crítica, levando a impressionantes 13 indicações ao Oscar. No entanto, as polêmicas em torno do filme fizeram com que os membros da Academia o avaliassem com mais cuidado, expondo suas deficiências e abrindo espaço para que Ainda Estou Aqui ganhasse destaque. O filme brasileiro, dirigido por Walter Salles, foi amplamente elogiado por sua abordagem visceral de temas como perda, resiliência e conexões humanas, baseado no romance de Marcelo Rubens Paiva. A vitória na categoria de Melhor Filme Internacional não só validou as qualidades do longa, mas também reafirmou o potencial do cinema nacional em competir em um dos maiores palcos do mundo.

Demi Moore. (Angela Weiss/AFP via Getty Images)

As Surpresas nas Categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz

Enquanto Ainda Estou Aqui brilhava na categoria internacional, as surpresas vieram nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz, ambas conquistadas por Anora. O filme, que ganhou destaque apenas no final da corrida pelo Oscar, foi considerado por muitos como uma escolha inesperada. A sensação que ficou foi a de que a Academia validou temas como o etarismo, presente em A Substância, filme que tinha Demi Moore como forte concorrente na categoria de Melhor Atriz.

Demi Moore, que entregou uma performance poderosa em A Substância, era apontada por muitos como merecedora do prêmio, não apenas por sua atuação no filme, mas também pelo conjunto de sua obra e pela relevância do tema abordado. No entanto, foi Mikey Madison, de Anora, quem levou a estatueta. Em seu discurso, Madison citou o trabalho com as prostitutas e o reconhecimento da função, um tema que, embora importante, destoou do que poderiam ser os discursos de Fernanda Torres, com sua interpretação magistral em Ainda Estou Aqui, ou de Demi Moore, que poderia ter falado sobre o etarismo e a luta contra os padrões de beleza e idade.

Fernanda Torres e Walter Salles no tapete vermelho do Oscar 2025 — Foto: Robyn Beck / AFP

Fernanda Torres e o Legado do Cinema Nacional

Fernanda Torres, protagonista de Ainda Estou Aqui, entregou uma das performances mais impactantes do ano, interpretando uma mulher que enfrenta a ditadura e a luta das famílias por justiça e memória. Sua atuação foi amplamente elogiada e, embora não tenha levado o prêmio de Melhor Atriz, ela deixou uma marca indelével no imaginário do público e da crítica. Como ela mesma afirmou em entrevista, o filme é “um convite à reflexão sobre nossas próprias histórias e sobre a maneira como lidamos com as dores e esperanças”.

A indicação de Torres ao Oscar reafirma a importância das mulheres no cinema brasileiro, um legado que já havia sido construído por sua mãe, Fernanda Montenegro, indicada ao prêmio em 1999 por Central do Brasil. A presença feminina no cinema nacional continua a crescer, trazendo narrativas potentes e emocionantes que ressoam não apenas no Brasil, mas em todo o mundo.

Divulgação / filme ‘Ainda Estou Aqui’

Ainda Estou Aqui: Memória, Resistência e Reflexão Através do Cinema e da Música

A história recente do Brasil carrega cicatrizes profundas, muitas das quais ainda não foram completamente elaboradas ou sequer reconhecidas por parte da sociedade. O filme Ainda Estou Aqui emerge como uma obra essencial para a compreensão desse passado, trazendo à tona os horrores da Ditadura Militar (1964-1985) e suas marcas indissociáveis do presente. O cinema, como ferramenta de memória e reflexão, assume um papel fundamental na construção da consciência coletiva, e esse filme reafirma a necessidade de contarmos e eternizarmos essas histórias.

A Ditadura Militar representou um período de repressão brutal, censura e violência institucionalizada. Milhares de brasileiros foram perseguidos, presos, torturados e assassinados pelo regime autoritário. Ainda que vivamos sob um regime democrático, o Brasil nunca realizou um acerto de contas profundo com seu passado ditatorial, diferente de países como Argentina e Chile, que estabeleceram processos mais efetivos de justiça e reparação. Essa lacuna na memória oficial tem consequências diretas, refletindo-se em um contexto onde discursos autoritários e negacionistas encontram espaço para prosperar.

Nesse cenário, Ainda Estou Aqui se apresenta como uma obra urgente e necessária. O filme reconstrói vivências e relatos de um tempo em que a liberdade de expressão era sufocada pelo medo, e onde a dissidência política era punida com brutalidade. Mais do que um retrato histórico, a narrativa do longa permite que os espectadores se conectem emocionalmente com as dores e perdas de um passado não tão distante, ressaltando a importância de nunca esquecermos aqueles que foram silenciados pelo Estado.

Além da força narrativa e do impacto visual, a trilha sonora de Ainda Estou Aqui desempenha um papel crucial na construção da atmosfera do filme. Com músicas de ícones da música brasileira como Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Tom Zé, Tim Maia, Gal Costa, Roberto Carlos, entre outros, a sonoridade do filme cria um elo poderoso entre memória e emoção. Esses artistas, muitos dos quais foram perseguidos ou censurados durante a ditadura, ajudaram a construir uma identidade musical de resistência e contestação. As canções, em meio às cenas impactantes, evocam sentimentos profundos de luta, saudade e esperança, ampliando o alcance da mensagem do filme e reforçando a importância da arte como registro histórico e ferramenta de resistência.

Celebrando o Cinema Nacional

A vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar de Melhor Filme Internacional é um momento de celebração para o cinema brasileiro. O filme, que aborda temas universais a partir de uma perspectiva local, mostra que o Brasil tem histórias poderosas a contar e que, quando investimos em nossa produção cinematográfica, podemos competir em pé de igualdade com os melhores do mundo.

Walter Salles, um dos grandes nomes do cinema nacional, já havia colocado o Brasil no mapa do Oscar com Central do Brasil em 1998. Agora, Ainda Estou Aqui segue esse legado, mostrando que o cinema brasileiro continua a evoluir e a conquistar seu espaço no cenário internacional.

O Oscar 2025 foi um ano de reconhecimento e celebração para o cinema nacional. A vitória de Ainda Estou Aqui na categoria de Melhor Filme Internacional, somada às indicações de Melhor Filme e Melhor Atriz, reforça a importância de valorizarmos e investirmos em nossa produção cinematográfica. Fernanda Torres, com sua atuação magistral, e o filme como um todo, mostram que o Brasil tem muito a oferecer ao mundo do cinema.

Vamos sorrir, celebrar e dar vivas ao cinema nacional, que continua a nos orgulhar e a emocionar o mundo com suas histórias. Parabéns a todos os envolvidos em Ainda Estou Aqui e que venham muitos outros prêmios e reconhecimentos para o cinema brasileiro!

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