IGBA AWO – O Mistério da Cabaça: Arte negra, reinvenção e resistência desde o sul do Brasil | MEU OLHAR

Mais que um espetáculo, projeto apoiado pelo Rumos Itaú Cultural 2023-2024 transforma o processo criativo em ato político, poético e ancestral, trazendo à tona a potente cena cultural preta do Rio Grande do Sul

Nina Fola em performance musical do projeto IGBA AWO apoiado pelo Rumos Itaú Cultural 2023-2024 | FOTO: Ricardo Ara / divulgação

Por tOn Miranda

Há segredos que se guardam como joias em objetos aparentemente simples. A cabaça, ancestral ventre do mundo nas cosmologias africanas, é um deles. É também o centro simbólico do projeto IGBA AWO, criação da multiartista Nina Fola e do diretor e pesquisador Thiago Pirajira, que nos últimos seis meses transformaram o gesto criativo em travessia coletiva. A experiência teve sua síntese revelada ao público no último dia 4 de julho, no Espaço Marcelina, em Porto Alegre. E o que se viu ali não foi apenas uma amostra cênica – foi um chamado à escuta, à memória e à reinvenção da presença negra no sul do Brasil.

A importância da pesquisa como palco

IGBA AWO, apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2023-2024, é daqueles projetos que subvertem a lógica tradicional dos editais e coloca a pesquisa como centro e potência criadora. Um gesto raro — e necessário — num cenário em que, historicamente, os editais culturais (públicos e privados) priorizam o resultado final, e não o caminho. Ao contrário, aqui, a obra é o próprio processo: ensaios abertos, ativações com o público, trocas horizontais entre artistas, gravações múltiplas, experimentações técnicas. Tudo foi corpo e documento, escuta e invenção. O que se viu foi o nascimento de uma obra em tempo real — com todas as suas incertezas, fragilidades, forças e encantamentos.

Como bem afirma Pirajira, “a luz está sobre a criação”. E isso se deu a partir de um conceito que ele denomina Afrotempo, uma temporalidade ancestral, intuitiva, que respeita os ciclos e os ritos — uma pedagogia do tempo negro.

O segredo da cabaça

No idioma iorubá, “Igba” significa cabaça. E “Awo”, segredo. O título do projeto, portanto, é em si uma chave simbólica. A cabaça como objeto sagrado, fonte de alimento, recipiente de água, tambor do som e do silêncio. Um elemento que guarda saberes, histórias e afetos, e que neste projeto se transforma em metáfora da cena negra que pulsa e resiste no Rio Grande do Sul.

IGBA AWO com Nina Fola e direção de Thiago Pirajira | FOTO: Ricardo Ara / divulgação

A presença negra no Sul do Brasil: desmistificar o mito da ausência

Durante muito tempo, o imaginário que se construiu sobre o Rio Grande do Sul foi o de uma terra branca, europeia, sem povo negro. Essa mentira histórica teve efeitos nefastos: apagamento, silenciamento e marginalização de culturas riquíssimas que sempre estiveram presentes ali. O IGBA AWO surge, portanto, como ato de denúncia e celebração: uma insurgência poética que afirma a existência negra sulista com orgulho, beleza e complexidade.

E que potência há nessa afirmação, especialmente em um tempo de reconstrução. O projeto aconteceu um ano após as enchentes devastadoras que atingiram o estado e seus artistas — e foi, para muitos, um espaço de cura e reerguimento coletivo. A arte como território de respiro e recomeço.

Os corpos que criam: um perfil dos artistas do IGBA AWO

O projeto é uma constelação de criadores negros que, juntos, constroem um território de encruzilhada entre tradição, contemporaneidade, experimentação e ancestralidade:

Nina Fola | FOTO: divulgação

Nina Fola é a força motriz do projeto. Mulher preta, de terreiro, cantora, compositora, percussionista, atriz, socióloga e doutora, é também curadora, consultora em pedagogias antirracistas e referência na articulação entre arte e política. Em IGBA AWO, ela assume seu primeiro projeto autoral, refletindo sobre autoestima, liberdade de criação e os atravessamentos do racismo estrutural. É um corpo de voz, tambor e pensamento.

Thiago Pirajira | FOTO: divulgação

Thiago Pirajira, diretor da obra, é ator, doutor em Artes Cênicas e professor na UFPEL. Integra os coletivos Pretagô e Usina do Trabalho do Ator, e dirige a CURA – Mostra de Artes Cênicas Negras. Seu olhar afiado e generoso transformou a pesquisa em experiência estética e pedagógica, conduzindo o coletivo com escuta e visão crítica.

Wagner Menezes | FOTO: divulgação

Wagner Menezes, músico e produtor musical, cria paisagens sonoras entre o digital e o analógico, com toques de experimentação e afrofuturismo. Seu trabalho em IGBA AWO é de conexão sensorial, criando atmosferas que rompem com a linearidade narrativa e amplificam o mistério.

Sol Machado | FOTO: divulgação

Sol Machado, artista visual, cenógrafa e mestranda em Design, traz a experiência de ser mulher negra, periférica e lésbica para a materialidade da cena. Sua cenografia ativa espaços simbólicos que dialogam com a religiosidade afro-brasileira e com os territórios urbanos.

Flávia Nascimento | FOTO: divulgação

Flávia Nascimento, figurinista e arteira, trabalha com moda afro-brasileira, reaproveitamento têxtil e ancestralidade costurada à mão. Suas criações vestem os corpos do projeto com histórias, memórias e identidades reinventadas.

Uma produção que valoriza o coletivo

A realização do projeto envolve ainda nomes fundamentais como a Juba Cultural, na produção das produtoras Sofia Antognoli Lerrer e Alice Castiel, e as parcerias com a Cavalo de Ideias e o grupo de pesquisa NupraUFPEL (Núcleo de Estudos em Arte, Gênero e Relações Étnico-Raciais). Uma rede de apoio que afirma a importância de políticas sustentáveis para a cultura negra, especialmente no Sul do país.

Visibilizar para transformar

IGBA AWO não apenas criou uma obra, mas também registrou o processo: cada encontro foi gravado, filmado, debatido e compartilhado com o público em ensaios abertos. Uma ação política e educativa que gera documentação, memória e legado.

A cabaça foi aberta. O segredo agora é partilhado. E ele diz: a arte preta do Sul existe, resiste e reluz.

Em tempos de emergência climática e reconstrução coletiva, projetos como IGBA AWO mostram que a cultura é o solo fértil onde nascem outras possibilidades de vida, de cura e de futuro. E que investir na pesquisa, no processo e na criação coletiva é investir na dignidade dos artistas e nas narrativas que eles têm a nos contar — e transformar.

Conheça mais sobre o projeto nas redes sociais: 

@igbaawo
Rumos Itaú Cultural 2023-2024
Realização: Cavalo de Ideias + NupraUFPEL
Produção: Juba Cultural

Equipe IGBA AWO com o produtor e jornalista cultural tOn Miranda, no Espaço Marcelina, local da realização da última Síntese do projeto apoiado pelo Rumos Itaú Cultural 2023-2024 | FOTO: divulgação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *