Do sambalanço ao afeto | BARULHINHO BOM

Zé Manoel transforma o samba em território de memória, pertencimento e generosidade

Zé Manoel que fez um show afetuoso e muito samba! | FOTO: divulgação

Por tOn Miranda

A estreia do show “Do Sambalanço ao Pagode 90” no SESC Pinheiros neste último domingo, 01 de fevereiro de 2026,marca um daqueles momentos raros em que um artista decide sair completamente do lugar esperado e, justamente por isso, revela ainda mais quem ele é. Em cena, Zé Manoel faz algo inédito em sua trajetória: apresenta um espetáculo inteiro sem nenhuma canção autoral. Ainda assim, tudo ali carrega sua assinatura. Está no jeito de cantar, na condução musical, na escuta atenta da banda e, principalmente, na forma como o repertório é tratado como matéria viva, pulsante, cheia de história.

O que se constrói no palco não é um passeio cronológico pelo samba apenas por décadas. É uma travessia emocional. O sambalanço dos anos 60, o samba-rock dos 70, os ecos populares que atravessam os 80 e desembocam no pagode dos anos 90 surgem como capítulos de uma mesma narrativa afetiva. Não há hierarquia entre estilos, nem juízo de valor. Tudo é colocado no mesmo plano de importância, como parte de uma herança cultural que moldou corpos, festas, linguagens e modos de existir.

Zé Manoel em divulgação do show “Do Sambalanço ao Pagode 90” | FOTO: Kelvin Andrad / divulgação

A força do espetáculo está justamente na pesquisa cuidadosa que sustenta cada escolha: Jorge Benjor, Alcione, Benito di Paula, Raça Negra, Grupo Molejo e tantos e tantos outros, nada soa gratuito. Zé Manoel demonstra profundo respeito pela história do samba e por suas transformações, entendendo o gênero não como algo fixo, mas como um organismo em constante movimento. Ao revisitar essas canções, ele não tenta modernizá-las artificialmente, tampouco reproduzi-las de forma engessada. O que se vê é um artista que escuta o passado com atenção e devolve ao presente com afeto e inteligência musical.

Outro aspecto que chama atenção é a generosidade em cena. Zé Manoel não ocupa o palco como centro absoluto. Ele compartilha. Entrega números inteiros para convidados e para músicos da própria banda, criando momentos em que sua presença se desloca para o gesto de escuta. É um tipo de liderança artística rara, que entende o show como espaço coletivo, onde cada voz e cada instrumento têm direito ao protagonismo. Essa escolha muda completamente a dinâmica do espetáculo e reforça a sensação de comunidade.

Mais do que um show de canções, “Do Sambalanço ao Pagode 90” é um espetáculo de memórias. As músicas acionam lembranças pessoais e coletivas: a casa da avó, o rádio ligado no fim da tarde, o baile, a roda, o amor que ficou, o que chegou depois. Existe ali um reconhecimento silencioso entre palco e plateia, como se todos compartilhassem uma mesma história, ainda que vivida de formas diferentes.

Zé Manoel | FOTO: Kelvin Andrad / divulgação

Esse diálogo ganha ainda mais potência quando pensado a partir das discussões contemporâneas do movimento negro. Muito se fala, com razão, sobre lugar de fala e lugar de escuta. Zé Manoel propõe um terceiro território, menos teórico e profundamente sensível: o lugar de pertencimento e o lugar de afeto. Ao cantar esse repertório, ele reafirma que essas músicas não são apenas sucessos de uma época, mas marcas de uma experiência negra no Brasil, atravessada por alegria, resistência, celebração e sobrevivência.

Há algo de político nisso tudo, mas nunca panfletário. A política está no gesto, na escolha, no cuidado. Está em reconhecer o samba como espaço de construção de identidade, de memória e de futuro. Está em colocar o afeto no centro, como linguagem possível e necessária.

“Do Sambalanço ao Pagode 90” é, no fim das contas, um espetáculo que abraça. Um show que não grita, não disputa, não se impõe. Ele convida. Convida o público a lembrar, a se reconhecer e a celebrar aquilo que nos atravessa há décadas e segue vivo. Zé Manoel sai do palco maior não por cantar suas próprias canções, mas por nos lembrar que também somos feitos das músicas que nos formaram.

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