“A fome que se sente com a alma: o teatro como travessia e recomeço” | MEU OLHAR

No espetáculo A Boca que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas), a Companhia de Teatro Heliópolis convoca o público a mergulhar nas águas profundas do desencarceramento, conduzido pela dramaturgia potente de Dione Carlos, direção precisa de Miguel Rocha e uma experiência estética arrebatadora

Elenco da Companhia de Teatro Heliópolis com o espetáculo A Boca Que Tudo Come Tem Fome: da frente para trás – Jucimara Canteiro, Walmir Bess, Klavy Costa , Davi Guimarães, Dalma Régia e Cristiano Belarmino | FOTO: José de Holanda / divulgação

Por tOn Miranda 

Há espetáculos que não se assistem apenas com os olhos. A Boca que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas) é daqueles que atravessam o corpo, o coração e a consciência. A nova montagem da Companhia de Teatro Heliópolis, em cartaz no Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis, transforma a experiência artística em ritual de escuta, acolhimento e denúncia. Com texto de Dione Carlos e encenação de Miguel Rocha, o espetáculo é um mergulho estético, ético e poético nas tramas invisibilizadas daqueles que deixam o cárcere, mas continuam aprisionados pelo estigma social.

A peça se estrutura a partir do cruzamento de seis histórias de pessoas egressas do sistema prisional brasileiro. Mais do que relatar, o espetáculo encarna os obstáculos que essas trajetórias enfrentam no cotidiano: a dificuldade de acesso a documentos, o peso da multa prisional, o preconceito social, as armadilhas da liberdade vigiada. Mas o texto não se deixa aprisionar na denúncia pura e simples. Há poesia. Há ritmo. Há Exu, orixá das encruzilhadas, presente como força provocadora que sacode as personagens e o público. Afinal, como bem nos provoca o espetáculo: o que significa, de fato, ser livre?

A encenação de Miguel Rocha é uma aula de plasticidade e potência simbólica. O palco transforma-se num espelho d’água — cenografia assinada por Telumi Hellen — onde a fluidez e o reflexo evocam os traumas, memórias e a constante ameaça do passado. A água, que limpa e destrói, traduz as tensões de quem tenta se reerguer diante de uma sociedade que insiste em excluir.

Elenco da Companhia de Teatro Heliópolis com o espetáculo A Boca Que Tudo Come Tem Fome: da esquerda para direita – Davi Guimarães, Klavy Costa , Walmir Bess, Jucimara Canteiro, Cristiano Belarmino e Dalma Régia | FOTO: José de Holanda / divulgação

A direção de movimento, cuidadosamente conduzida por Erika Moura, em parceria com o próprio Miguel Rocha, encontra um equilíbrio entre gesto e pulsação. Os corpos dos atores Cristiano Belarmino, Dalma Régia, Davi Guimarães, Jucimara Canteiro, Klavy Costa e Walmir Bess. — atentos, precisos, vívidos — dizem tanto quanto as palavras. Há musicalidade nas pausas, nos olhares, no silêncio.

E que música! A direção musical de Alisson Amador nos entrega não apenas uma trilha sonora, mas uma experiência sensorial. Uma mini orquestra em cena — com Amanda Abá, Denise Oliveira e Nicoli Martins — costura a dramaturgia com cordas, sopros e tambores que reverberam ancestralidade e contemporaneidade. As canções, originais ou reinterpretadas, amplificam a emoção das cenas e resgatam o papel do canto como sopro de resistência e resiliência.

O figurino de Samara Costa é outro acerto notável. Longe de ilustrar, os trajes vestem histórias. Cada peça de roupa parece carregar consigo o peso da memória, os afetos interrompidos, a esperança relutante. O tecido é pele, é passado e é futuro.

A montagem é resultado do projeto Do Cárcere às Ruas: O Estigma da Vida Depois das Grades e traz em sua gênese um compromisso genuíno com a escuta e a construção coletiva. A pesquisa, que contou com entrevistas com egressos e rodas de conversa com nomes como o rapper Dexter, a militante Tempestade e o professor Vicente Concílio, revela-se na densidade do espetáculo e em sua recusa ao lugar comum.

A Boca que Tudo Come Tem Fome é, portanto, uma obra urgente e necessária. Um grito poético contra o apagamento. Uma ode à sobrevivência. Um espelho de água onde, quem sabe, possamos enfim nos enxergar.

Uma dramaturgia que nasce da escuta e pulsa como denúncia poética

A dramaturga Dione Carlos | FOTO: Karen Lima / divulgação

A Boca que Tudo Come Tem Fome marca a segunda e frutífera parceria entre a dramaturga Dione Carlos e a Companhia de Teatro Heliópolis — um reencontro criativo que mais uma vez comprova a potência do diálogo entre palavra e território, entre escuta e denúncia, entre estética e urgência social. A primeira colaboração, Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos (2022), foi um marco não só na trajetória da companhia, como também no teatro político contemporâneo brasileiro. A peça, que rendeu a Dione o Prêmio Shell de Dramaturgia e o Prêmio APCA na mesma categoria, trouxe à cena os atravessamentos do encarceramento feminino com rara sensibilidade e contundência.

Nesta nova montagem, Dione volta a emprestar sua escrita precisa, embebida de escuta ativa e afeto crítico, às vozes de quem sobrevive ao sistema prisional, mas continua sendo aprisionado pelo olhar da sociedade. Sua dramaturgia é, ao mesmo tempo, documento e poesia. Não há espaço para a romantização da dor, tampouco para a estigmatização da experiência do cárcere. Há, sim, uma proposta de reconexão humana, de reconstrução de narrativas plurais que resistem ao apagamento e se tornam potência de transformação. Junto à Heliópolis, Dione costura um teatro que se propõe a ser espaço de escuta radical, de construção coletiva e de reexistência. Uma dramaturgia que, mais do que contar histórias, convoca o público a repensar sua posição no mundo.

Carta aberta a Cristiano Belarmino

Cristiano Belarmino em cena do espetáculo A Boca Que Tudo Come Tem Fome | FOTO: Duda Viana / divulgação

Cris,

Te vi novamente em cena ontem e, por um instante, tudo se iluminou no teatro. Me lembrei da primeira vez que nossos caminhos se cruzaram: naquele ninho chamado Cia do Pássaro – Voo e Teatro, onde, ainda em processo, você já transbordava entrega na oficina de canto para atores com o Dan Nakagawa. Depois, fomos colegas em Frida y Diego, espetáculo de Maria Adelaide Amaral, no qual você assumia uma função delicada como contrarregra cênico, mas com uma presença tão viva que preenchia o palco. Ali já era nítido: o seu corpo e sua voz sabiam contar histórias.

Cristiano Belarmino em diversos momentos da sua jornada artística | FOTOS: Cecília Gidali / divulgação

Hoje, você retorna ao mesmo palco — agora no Sesc 14 Bis — mas no lugar que sempre foi seu por direito: o centro da cena. E que presença, Cristiano! Sua atuação em A Boca que Tudo Come Tem Fome é de uma entrega visceral, mas também de uma imensa escuta. Você canta, dança, respira, pulsa com o espetáculo. Sua atuação não é sobre se mostrar, é sobre revelar, sobre oferecer ao público uma travessia sensível entre o silêncio e o grito.

É emocionante testemunhar sua trajetória, construída com delicadeza, compromisso e verdade. Você é um artista que honra a arte e, mais do que isso, a coloca a serviço de algo maior: da escuta, da transformação, da beleza que há no real.

Obrigado por nos lembrar, com seu corpo e sua voz, que o teatro é também um lugar de cura. Que sua caminhada siga sendo luminosa — e faminta de cena.

Abreijos com admiração e afeto,
tOn Miranda
São Paulo, 11 de julho de 2025.

SERVIÇO

Espetáculo: A Boca que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas)

Com Companhia de Teatro Heliópolis

Temporada: 10 de julho a 3 de agosto – Quinta a sábado, às 20h, e domingo, ás 18h

Ingressos: R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia) | R$ 18 (Credencial Sesc)

Vendas online: A partir de 1/7 pelo site sescsp.org.br/14bis e 2/7 presencialmente nas bilheterias das unidades do Sesc São Paulo

Classificação: 14 anos. Duração: 135 minutos. Gênero: Experimental.

Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez

Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista. São Paulo/SP.

Capacidade: 523 lugares. Acessibilidade: Sim.

Ficha Técnica 

Concepção geral e encenação: Miguel Rocha. Dramaturgia: Dione Carlos. Elenco: Cristiano Belarmino, Dalma Régia, Davi Guimarães, Jucimara Canteiro, Klavy Costa e Walmir Bess. Música original e direção musical: Alisson Amador. Música “A Benção”: Júlia Tizumba. Música em cena: Alisson Amador, Amanda Abá, Denise Oliveira e Nicoli Martins. Cenografia: Telumi Hellen. Assistente de cenografia: Nicole Kouts. Figurino: Samara Costa. Assistência de figurino: Clara Njambela. Iluminação: Miguel Rocha. Provocação vocal: Alisson Amador, Edileuza Ribeiro e Isabel Setti. Direção de movimento: Erika Moura e Miguel Rocha. Provocação corporal: Erika Moura. Oficinas de dança: Ana Flor de Carvalho, Diogo Granato, Janette Santiago e Marina Caron. Criações coreográficas: O coletivo, Erika Moura, Diogo Granato e Janette Santiago. Provocação teórico-cênica e mediação do ciclo de debates: Maria Fernanda Vomero. Estudos em teatro épico, performance e dança: Alexandre Mate, Murilo Gaulês e Sayonara Pereira. Operação de luz: Gabriel Rodrigues. Operação de som: Lucas Bressanin. Microfonação: Katheleen Costa. Cenotécnia: César Renzi. Convidados do ciclo de debates: Fábio Pereira, Dexter, Tempestade e Vicente Concílio. Comentadores: Bruno Paes Manso e Salloma Salomão. Assessoria de imprensa: Eliane Verbena. Coordenação de comunicação: Luiz Fernando Ferreira. Assistência de comunicação: João Teodoro Junior. Fotografia: José de Holanda. Registros do processo de criação: João Guimarães. Edição de textos para o programa da peça: Maria Fernanda Vomero. Direção de produção: Dalma Régia. Produção executiva: Álex Mendes e Miguel Rocha. Idealização: Companhia de Teatro Heliópolis. Realização: Sesc São Paulo.

Cena do espetáculo A Boca Que Tudo Come Tem Fome da Cia de Teatro Heliópolis em cartaz no SESC 14 Bis em São Paulo | FOTO: Duda Viana / divulgação

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