CARTA ABERTA À TODOS OS GÊNEROS 2025

Quando o amor se encena – uma mostra que acolhe, provoca e transforma

Elenco do espetáculo SEBASTIÃO do grupo Ateliê 23 de Manaus (AM) que se apresentou na mostra Todos Os Gêneros 2025 do Itaú Cultural | FOTO: Agência Ophelia / divulgação

Por tOn Miranda

Há acontecimentos artísticos que não apenas ocupam uma agenda cultural, mas atravessam a alma. A 12ª edição da Todos os Gêneros – Mostra de Artes e Pluralidades, realizada pelo Itaú Cultural, foi exatamente isso: uma travessia de afetos, dores e alegrias que se fez presença real, entre corpos, palavras, sons e olhares.

Com o tema “Qual o peso (da falta) do amor?”, a mostra deste ano reafirmou sua importância singular no circuito das artes no Brasil. Não apenas por ser um dos raros espaços institucionais que dão visibilidade à produção LGBTQIAPN+ em sua diversidade geográfica, estética e política, mas sobretudo porque o faz com rigor curatorial, escuta verdadeira e cuidado afetivo — atributos cada vez mais raros no campo das artes.

E esse cuidado tem nome e sobrenome: Galiana Brasil e Carlos Gomes, os responsáveis pela curadoria da mostra junto com sua equipe, que mais uma vez entregaram ao público um gesto artístico corajoso, plural e profundamente necessário. Galiana e Carlos conduzem essa programação como quem tece uma colcha de retalhos com histórias e vozes que há séculos vêm sendo silenciadas. O que eles constroem junto com as equipes do Itaú Cultural, com artistas e parceiros, é mais que uma programação. É um manifesto. É um abraço. É uma declaração de que o amor, sim, pode transformar o mundo. Vale aqui destacar a produção afetuosa de duas produtoras que sublinharam toda a mostra: Regina Medeiros e Roberta Roque

Sebastião: quando a memória vira canto, quando a dor se faz dança

Cena do espetáculo SEBASTIÃO do grupo Ateliê 23 no palco da Sala Itaú Cutural na Todos Os Gêneros – Mostra de Artes e Pluralidades 2025 | FOTO: Agência Ophelia / divulgação

Entre tantas obras tocantes, o espetáculo “Sebastião”, do grupo Ateliê 23 de Manaus, foi, para mim, uma das experiências mais arrebatadoras que já testemunhei no palco da Sala Itaú Cultural. E não apenas porque tive o privilégio de atuar como produtor interno dessa obra, mas porque presenciei algo raro: a materialização de uma poética de resistência que emociona, educa e provoca — tudo ao mesmo tempo.

“Sebastião” não é apenas um espetáculo. É um ato de fé. Fé na arte, na memória, na existência dissidente e na capacidade do corpo de contar histórias que os livros escolares insistem em apagar. Inspirado no livro Um Bar Chamado Patrícia, de Bosco Fonseca, o espetáculo resgata o primeiro reduto gay de Manaus, um bar clandestino que funcionou durante a ditadura militar, abrigando afetos proibidos, desejos silenciados e resistências cotidianas.

No palco, sete drag queens — artistas que são corpos-vivos de suas histórias — encarnam o mito de São Sebastião como metáfora de resistência. Um santo cuja imagem atravessou séculos entre o martírio e a devoção, e que aqui, é ressignificado como símbolo de amor insurgente e fé profana. Cada gesto, cada canção, cada olhar lançado à plateia reconstrói o Bar Patrícia como um lugar mítico, íntimo e político.

Mas a força de “Sebastião” está também na maneira como o espetáculo funde linguagens: teatro, performance, dança e música se entrelaçam em uma composição estética vibrante, colorida, dolorida e, acima de tudo, pulsante. A trilha sonora — composta especialmente por Eric Lima e executada ao vivo por artistas como Bruno Rodriguez, Luana Aranha, Mady e Guilherme Bonates — é um capítulo à parte. Uma tapeçaria sonora de bregas, lambadas, sons amazônicos e eletrônicos que conduzem o público por memórias coletivas, exaltações de gênero e confissões travestidas de festa.

Não há cena em “Sebastião” que não carregue múltiplas camadas. A dança — ora provocante, ora ritualística — costura a narrativa como quem risca o chão sagrado do bar para demarcar territórios de existência. A iluminação de Paulo Martins e a cenografia de Eric Lima e Taciano Soares ampliam a experiência estética, transportando o público para dentro de uma ambiência que é ao mesmo tempo real e simbólica.

E é preciso dizer: há muita dor no espetáculo. Mas também há muita vida. Há humor, há beleza, há escracho e há orgulho. “Sebastião” não romantiza o passado. Ele o reivindica. Ele o escancara. Ele o oferece como um espelho político do presente — nos lembrando que os corpos dissidentes ainda são alvos, ainda resistem, ainda existem. E, sobretudo, ainda amam.

É nesse amor radical que “Sebastião” se firma como um dos espetáculos mais necessários da cena brasileira contemporânea. E que orgulho de ver um espetáculo manauara com tamanha entrega e qualidade de um Brasil que a gente conhece pouco. 

Uma mostra que é travessia

Seis dias. Seis maneiras de sentir o amor em ação. Do espetáculo “Meu Corpo Está Aqui”, que abriu a programação com relatos de atores e atrizes PCDs, ao encerramento explosivo e performático de Getúlio Abelha com seu “Autópsia – Parte 1”, passando pelo debate potente entre Angélica Freitas, floresta e Febraro de Oliveira, o Manifesto Transpofágico de Renata Carvalho, o Slam Dengoso, a roda vibrante com Gêde Lima, e a mesa “Amar é…” com Ave Terrena, Daniel Veiga, Geni Núñez, Marina Vergueiro e mediação de Adriana Ferreira Silva – artistas e pensadores que emocionaram pela delicadeza e firmeza de suas vozes.

Gêde Lima e seu show Sambas do Gêde na mostra Todos Os Gêneros 2025 | FOTO: Agência Ophelia / divulgação

E como esquecer da segunda Festa Todos os Gêneros, realizada na Casa Farofa? Uma noite inesquecível onde a pista virou templo de afeto. Com a apresentação radiante da drag Thelores, os sets envolventes da DJ Obá, Jéssica Caitano e DJ Txalira, e a produção da querida Gabi Gonçalves e equipe Corpo Rastreado, a festa selou com alegria o que já estava dito em cena: amar é acontecer.

Algumas das programações da Todos Os Gêneros – Mostra de Artes e Pluralidades do IC: Angélica Freitas e Frebraro Oliveira, floresta, Ave Terrena, Daniel Veiga, Geni Núñez, Marina Vergueiro, Adriana Ferreira Silva e o elenco do espetáculo Meu Corpo Está Aqui | FOTOS: Agência Ophelia / divulgação

Meu agradecimento com afeto e orgulho

Este ano, minha presença em Todos os Gêneros foi ainda mais especial. Além de atuar como uma dos produtores dos eventos, tive o imenso prazer de assinar a cenografia ambiente do Espaço Multiúso, onde aconteceram as mesas de reflexão, e também a cenografia da Festa Todos os Gêneros na Casa Farofa — criando ambientes onde o amor pudesse habitar em forma, cor e presença.

Alguns registro da cenografia Pulsações, Dengos e Afetos pensada para ambientar o Espaço Multiuso do Itaú Cultural para receber as mesas de reflexões da mostra Todos Os Gêneros 2025 | FOTOS: Agência Ophelia/ Jessica Mangaba / divulgação

Fico com o coração cheio ao saber que, de alguma forma, ajudei a construir esse espaço de troca, beleza e acolhimento. Um espaço que é tão necessário. Um espaço onde o amor é tratado com a delicadeza e a urgência que merece.

E a gente não faz nada sozinho, por isso em forma de agradecimento nomeio aqui a equipe que esteve comigo construindo e fazendo desta entrega mais um gesto de AMOR: 

Desenhos e Execução do Projeto | Roseane Arbex 

Assistência Arquitetônica | Rodrigo Auba 

Supervisão Técnica | Wanderley Bispo (Badeco) 

Equipe Entre – cenotecnia | Thiago Vendramini, Anderson (Pê), Ademir e Nelson

Equipe Entre – marcenaria, pintura e montagem | Johnny e Alex 

Equipe Maxi Luz | Edu Soares, Vitória Oliveira e Beto Silva 

Equipe Máxi Áudio e Vídeo | Diogo Aguilar, Venâncio Pinheiro, Marcus Vinícius e Kaíque Santos

Lettering | Victor Soriano

Idealização e Projeto Cenográfico e Ambientação | tOn Miranda 

Agradecimentos Especiais | Galiana Brasil, Carlos Gomes, Natália Souza, Regina Medeiros, Roberta Roque, Gilberto Labor, Januário Santis (Nuno), Isadora Disero, Rafael Desimone (Cabelo), Eduardo Maffeis, Fabrício Amaral, Ester Nunes, Duda Macedo, Rafaella Job, Matiê Gouveia, Daiane Botinhão, Carlos Eduardo Ferreira, Nycole Bernardino de Souza, Rodrigo Vargas, Equipe Souza Lima, Equipe Veman e Equipe GPS. 

Vida longa à Todos os Gêneros. Que essa mostra siga sendo farol, afeto e festa. E que a cada edição, sigamos inventando novas maneiras de amar — e de existir — com coragem, arte e liberdade.

Abreijos com afeto,
tOn Miranda

One thought on “CARTA ABERTA À TODOS OS GÊNEROS 2025

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *