
Breno da Matta e Alessandro Marba em cena do espetáculo Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário de volta em cartaz na reinauguração do Espaço Cia do Pássaro | FOTO: Noelia Nájera / divulgação
Após meses de reforma, a Cia do Pássaro reabre seu espaço com a nova temporada do espetáculo “Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário”, evocando o poder da memória negra e do encontro com o público
Por tOn Miranda
O coração cultural de São Paulo voltou a bater mais forte. Localizada na Rua Álvaro de Carvalho, entre vizinhos como o Instituto Capobianco, o Grupo Redimunho e a Ocupação Nove de Julho, a sede da Cia do Pássaro – Voo e Teatro reabre suas portas ao público após meses de remoledação viabilizada pelo Fomento CULTSP e pela Política Nacional Aldir Blanc, com um espetáculo que simboliza a alma da companhia: “Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário”.
A peça, que integra a Trilogia do Resgate e é inspirada na autobiografia real de Mahommah Gardo Baquaqua – o único africano escravizado no Brasil que deixou registros escritos de sua trajetória –, retorna ao palco como rito de reinauguração e reafirmação artística de um coletivo que há 14 anos atua contra o apagamento histórico das populações negras.
Se o espaço físico foi revitalizado, a essência do grupo permanece firme: arte como travessia e memória como resistência. “A máxima da vida que imita a arte, né? Se as paredes do Espaço Cia do Pássaro pudessem falar, elas contariam histórias que certamente estarão em algum espetáculo em um próximo estágio do nosso trabalho. Tem riso, tem choro, tem perrengue, tem comemoração… mas, acima de tudo, são histórias de resistência”, afirma Dawton Abranches, ator, diretor e cofundador da companhia ao lado de Alessandro Marba.

Dawton Abranches – ator, diretor, dramaturgo e cofundador da Cia do Pássaro – Voo e Teatro ao lado de Alessandro Marba | FOTO: Dinho Santoz / divulgação
A nova temporada de Baquaqua acontece de 02 a 24 de agosto, com sessões gratuitas aos sábados (20h) e domingos (19h), acessíveis em LIBRAS. No palco, Alessandro Marba e Breno da Matta conduzem o público por uma travessia física, histórica e espiritual que conecta os horrores do passado com as urgências do presente.
A dramaturgia – assinada por Dione Carlos e Dawton Abranches – é renovada a cada temporada com referências contemporâneas, como os casos de George Floyd e Genivaldo de Jesus Santos, para refletir o racismo estrutural que persiste. Como destaca Dawton: “Cada movimento é uma travessia e nunca há a garantia de chegar ao outro lado. Por isso, a transformação é constante. Além de saber nadar, nós também fomos atrás das asas”.
Na encenação, alegorias potentes materializam essa travessia: o palco evoca um navio negreiro; manequins simbolizam figuras como a Justiça, a Religião e a Polícia; e a trilha sonora de LP Daniel mistura sons clássicos com elementos tribais africanos. Tudo se costura com sensibilidade e vigor em uma encenação que emociona e convoca.
A peça é também reconhecida internacionalmente: recebeu o selo da York University (Canadá) como fonte oficial de pesquisa e teve trechos incluídos em um livro didático do MEC voltado a estudantes do ensino fundamental, ampliando seu impacto além das fronteiras do palco.
Mais do que um espetáculo, Baquaqua representa o espírito da Cia do Pássaro: arte comprometida com a escuta e o encontro. “Não fazemos espetáculos para a academia ou para a crítica. Queremos o encontro. Se o público levar a grandeza do encontro que o Teatro proporciona, já teremos um bom início de caminho”, resume Dawton.
A reinauguração não se limita à temporada da peça: ela marca o início de um novo ciclo de atividades. Entre os destaques estão os núcleos de pesquisa com inscrições abertas até 10 de agosto: Políticas Públicas para Cultura e Arte (com Judson Cabral) e Estudos em Produção Cultural e Elaboração de Projetos (com Fernando Gimenes). Haverá ainda uma mostra de trabalhos em pequenos formatos, temporada do espetáculo Jacinta – Você só Morre Quando Dizem seu Nome Pela Última Vez e um festival musical.
Reabrir as portas, neste caso, é um gesto de coragem e de compromisso com a cidade. Manter uma companhia independente no centro de São Paulo é um ato radical de permanência e sonho, como reflete Dawton: “A grande transformação foi aprender a não deixar que nessa ilha façam das nossas asas um fardo maior do que podemos carregar”.
E é isso que o público encontrará no Espaço da Cia do Pássaro: asas abertas para voos compartilhados, que resgatam o passado, enfrentam o presente e reinventam futuros. Que o reencontro com Baquaqua seja também um reencontro com aquilo que mais precisamos: verdade, afeto e escuta.
SERVIÇO
Espetáculo: Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário
Data: 02 a 24 de agosto de 2025
Horários: Sábados às 20h | Domingos às 19h
Local: Sede da Cia do Pássaro – Rua Álvaro de Carvalho, 177 – Centro – São Paulo – SP
Ingressos: Gratuitos (retirada uma hora antes do espetáculo)
Classificação: Livre
Duração: 60 minutos
Capacidade: 40 pessoas
Acessibilidade: Intérprete de LIBRAS em todas as sessões e espaço acessível a cadeirantes

Breno da Matta e Alessandro Marba vivem Baquaqua na reinauguração do Espaço Cia do Pássaro – Voo e Teatro | FOTO: Noelia Nájera / divulgação
