
Fachada do novo Itaú Cultural da Avenida Paulista, o novo IC | FOTO: Estúdio Módulo / divulgação
Itaú Cultural anuncia nova sede na Avenida Paulista e projeta para 2031 um dos mais importantes equipamentos culturais do Brasil
Por tOn Miranda
Existem obras que ampliam uma cidade. Existem obras que transformam uma cidade. E existem aquelas raras iniciativas capazes de redefinir a forma como uma cidade se encontra com a cultura. O anúncio da nova sede do Itaú Cultural, feito há um pouco mais de uma semana pela Fundação Itaú, pertence a essa última categoria.
Com previsão de inauguração em 2031, o futuro edifício ocupará um dos últimos terrenos disponíveis da Avenida Paulista, no número 1267, entre o Centro Cultural Fiesp e uma unidade Itaú Personnalité, diante da estação Trianon-MASP do metrô. Mais do que um novo endereço, trata-se da construção de um novo capítulo para a história cultural de São Paulo.
Serão mais de 12 mil metros quadrados de área construída, distribuídos em um centro cultural vertical concebido para responder às demandas da arte, da educação, da memória e da convivência no século XXI. Um equipamento gratuito, aberto ao público e financiado integralmente com recursos próprios da Fundação Itaú, sem utilização de leis de incentivo à cultura.
Ao apresentar o projeto, Alfredo Setúbal, presidente do Conselho Curador da Fundação Itaú, sintetizou o significado da iniciativa em uma frase que já nasce histórica:
“Esta nova sede do Itaú Cultural é um presente para a cidade de São Paulo.”

Eduardo Saron, Presidente da Fundação Itaú e Alfredo Setúbal, Presidente do Conselho Curador da Fundação Itaú diante da maquete do novo centro cultural vertical do Itaú Cultural que ocupará o coração da Avenida Paulista em 2031 | FOTO: divulgação
E talvez seja mesmo. Porque não se trata apenas da construção de um prédio. Trata-se da ampliação de uma vocação.
Quando Alfredo Setúbal afirmou isto, não parecia estar falando apenas de um edifício. Parecia falar de uma escolha. Uma escolha rara nos tempos atuais. A escolha de investir em cultura. De acreditar na arte. De ampliar espaços de convivência. De criar um lugar onde milhares de pessoas poderão entrar gratuitamente para aprender, descobrir, refletir, sonhar e simplesmente estar.
Há quase quatro décadas, o Itaú Cultural ocupa um papel fundamental na valorização da arte brasileira, no incentivo à pesquisa, na preservação da memória, na formação de públicos e na democratização do acesso à cultura. Agora, essa trajetória ganha uma nova escala.
Um centro cultural para o futuro

Os arquitetos e sócios do Estúdio Módulo: Marcus Vinicius Damon, Guilherme Bravin e Erica Tomasoni que irão desenvolver o novo centro cultural vertical do Itaú Cultural | FOTO: Alessandra Figueiredo / divulgação
O projeto vencedor foi desenvolvido pelo Estúdio Módulo, escritório brasileiro comandado pelos arquitetos Marcus Vinicius Damon, Guilherme Bravin e Erica Tomasoni, escolhido após uma concorrência que reuniu alguns dos mais relevantes escritórios de arquitetura do país.
A proposta impressiona não apenas pela dimensão física, mas pela inteligência do conceito. O edifício foi pensado como uma espécie de organismo cultural vertical, onde diferentes experiências podem acontecer simultaneamente sem interferências.
O visitante atravessará um grande portal urbano que conecta a calçada da Paulista ao interior do centro cultural, numa transição simbólica entre cidade e cultura. A partir daí, os percursos se desdobram por exposições permanentes, mostras temporárias, espaços de convivência, ambientes educativos, estúdios, áreas de formação e apresentações artísticas.
O novo complexo contará com:

Teatro com mais de 400 lugares e múltiplas configurações cênicas

Auditório para aproximadamente 100 pessoas


Dois estúdios multimídia




Andar exclusivo para a série Ocupação Itaú Cultural



Grandes áreas expositivas para mostras temporárias e permanentes



Espaços dedicados à formação e educação



Loja cultural e Restaurante-café



Ambientes de convivência distribuídos ao longo do edifício
Mais do que uma ampliação física, o projeto busca ampliar possibilidades.
A cidade como protagonista
Se o prédio atual do Itaú Cultural foi um marco da década de 1990, a nova sede nasce em um contexto diferente. A Avenida Paulista deixou de ser apenas um centro financeiro para se consolidar como o principal corredor cultural da América Latina. MASP, IMS, Sesc Paulista, Japan House, Casa das Rosas, Fiesp, Itaú Cultural e tantos outros equipamentos transformaram a avenida em um território de encontro, pensamento e criação.
Nesse cenário, a nova sede do IC não chega para competir com seus vizinhos. Chega para fortalecer um ecossistema cultural já consolidado. A escolha do terreno, praticamente em frente ao metrô e no coração da Paulista, reforça essa visão de acesso público, mobilidade urbana e convivência democrática. É arquitetura pensada para ser utilizada por milhares de pessoas todos os dias.
Eduardo Saron e a continuidade de uma visão

Da esquerda pra direita: Jader Rosa (Superintendente do Itaú Cultural), Eduardo Saron (Presidente da Fundação Itaú), Marcus Vinicius Damon (arquiteto e sódio do Estúdio Módulo), Alfredo Setúbal (Presidente do Conselho Curador da Fundação Itaú), Erica Tomasoni (arquiteta e sócia do Estúdio Módulo) e Guilherme Bravin (arquiteto e sócio do Estúdio Módulo) | FOTO: divulgação
Ao longo dos últimos anos, a gestão de Eduardo Saron à frente da Fundação Itaú consolidou uma compreensão ampliada do papel das instituições culturais.
Não basta apresentar exposições ou espetáculos. É preciso produzir conhecimento, formar públicos, preservar memórias, criar experiências educativas e ocupar os espaços digitais.
Ao anunciar o novo edifício, Saron destacou que a iniciativa representa um desdobramento natural da trajetória do Itaú Cultural e reforça a vocação da Avenida Paulista como espaço de cidadania, criatividade e produção de conhecimento. A nova sede materializa essa visão. É um projeto que olha para as próximas décadas e compreende os museus e centros culturais como plataformas ativas de aprendizagem, participação social e transformação coletiva.
Jader Rosa e a cultura em movimento
Também merece destaque a atuação de Jader Rosa, superintendente do Itaú Cultural. Sua fala durante o anúncio revela um aspecto fundamental do projeto: a compreensão de que cultura não é algo estático. Ao afirmar que a vocação do Itaú Cultural é acolher públicos diversos e promover encontros entre criação artística, reflexão e vida cotidiana, Jader aponta para um modelo de instituição cultural capaz de acompanhar as transformações da sociedade contemporânea sem perder sua essência. O novo prédio nasce justamente dessa ideia. Um espaço para diferentes linguagens, diferentes gerações, diferentes territórios e diferentes formas de viver a cultura.
Os bastidores de uma construção histórica
Grandes projetos costumam ser lembrados pelos arquitetos que os desenham ou pelos dirigentes que os anunciam. Mas existem profissionais que atuam longe dos holofotes e cuja contribuição é determinante para que tudo aconteça.
No caso da nova sede do Itaú Cultural, é impossível não reconhecer o trabalho conduzido por Gilberto Labor, gerente de Infraestrutura e Produção, e por Roseane Arbex, engenheira especialista em Infraestrutura do IC. Foram eles que ajudaram a transformar quase quatro décadas de experiência operacional em inteligência para o futuro. Ao longo do processo de concorrência, participaram da construção dos parâmetros técnicos, das necessidades funcionais e dos desafios cotidianos que um centro cultural enfrenta.
Traduziram para os escritórios concorrentes as dores, os aprendizados, os fluxos, os desejos e as ambições de uma instituição que realiza milhares de atividades culturais, educativas e formativas. É o tipo de trabalho que raramente aparece nas manchetes, mas que está presente em cada solução arquitetônica bem resolvida. Quando o público ocupar esse novo edifício daqui a alguns anos, encontrará muito mais do que concreto, aço e vidro. Encontrará uma arquitetura construída a partir da experiência acumulada por quem vive diariamente os bastidores da cultura.


Espaço Acolhimento com e sem Cinema do novo centro cultural vertical do IC | FOTOS: Estúdio Módulo / divulgação
Um novo capítulo para São Paulo
Quando o atual prédio do Itaú Cultural foi inaugurado em 1995, Olavo Setúbal definiu aquele gesto como uma forma de retribuição à sociedade. Trinta e seis anos depois, a história parece se repetir. A nova sede surge em um momento em que São Paulo discute mobilidade, convivência, espaços públicos e qualidade de vida. Nesse contexto, investir em cultura continua sendo uma das formas mais potentes de investir na cidade. Porque centros culturais não produzem apenas programação. Produzem encontros. Produzem repertório. Produzem pertencimento. Produzem futuro.
E é exatamente essa sensação que fica ao olhar para o futuro novo Itaú Cultural. A sensação de que não estamos diante de um edifício. Estamos diante de uma ideia. Uma ideia que começou com Olavo Setubal em 1987. Que ganhou novas dimensões com Milú Villela. Que segue se transformando com Eduardo Saron, Jader Rosa e tantas equipes que passaram e passam diariamente pelos corredores do IC. Uma ideia que entende que cultura não é gasto. É investimento. Não é entretenimento apenas. É cidadania. É educação. É memória. É desenvolvimento. É futuro. Em 2031, quando as portas finalmente se abrirem, São Paulo ganhará um novo prédio. Mas acredito que ganhará algo ainda maior. Ganhará um lugar onde milhares de histórias poderão começar. E toda cidade precisa de lugares assim. Lugares que nos lembrem quem somos. E, principalmente, quem ainda podemos nos tornar. Mas, acima de tudo, ganhará algo ainda mais importante: um lugar onde arte, memória, educação, tecnologia, diversidade e cidadania poderão continuar se encontrando diariamente. E isso, de fato, é um presente para São Paulo.

Fachada do novo IC, prometido para 2031 | FOTO: Estúdio Módulo / divulgação
