
Cena do espetáculo TDezesseis que esteve em cartaz na Mostra Solos do Espaço Cia do Pássaro em maio de 2026 | FOTO: divulgação
Idealizada por Dawton Abranches e Alessandro Marba, iniciativa reuniu artistas de diferentes trajetórias para provar que, quando o teatro acontece a poucos metros do público, a experiência ganha outra escala: a da escuta, da partilha e do afeto.
Por tOn Miranda
“A memória vive porque encontra quem a conte.” –Inspirado no pensamento de Abdias do Nascimento, para quem arte e presença são formas de permanência e resistência.
E é com este pensamento que esboço aqui que existe uma coragem silenciosa no espetáculo solo. Sem o amparo de um grande elenco, o artista entra em cena praticamente acompanhado apenas de sua história, do seu corpo e do olhar de quem está sentado logo ali, a poucos passos de distância. É justamente nesse território de vulnerabilidade que nasceu uma das experiências mais interessantes do teatro paulistano em 2026.
Realizada durante o mês de maio no Espaço Cia do Pássaro, a Mostra de Solos idealizada pelos atores, diretores e curadores Dawton Abranches e Alessandro Marba fez mais do que apresentar quatro trabalhos. Ela reafirmou uma visão de cultura em que o espaço independente não é apenas um endereço para espetáculos, mas um organismo vivo, capaz de aproximar artistas, comunidades e ideias.

Alessandro Marba e Dawton Abranches – atores, diretores e curadores do Espaço Cia do Pássaro e da Mostra Solos | FOTO: divulgação
Quem atravessou a porta da Cia do Pássaro encontrou um teatro onde a proximidade altera completamente a experiência estética. Não há distância confortável entre palco e plateia. O público percebe o tremor da voz, acompanha o movimento dos olhos, respira junto com quem está em cena. O teatro deixa de ser contemplação e volta a ser encontro.
Essa escolha curatorial aparece desde a seleção dos espetáculos. Entre 152 inscrições vindas da cidade e do estado de São Paulo, foram escolhidas montagens que dialogassem com a arquitetura afetiva do espaço e com a potência das narrativas pessoais.
Cada obra trouxe uma camada distinta do Brasil contemporâneo.
“Gabri[ELAS]”, protagonizado por Fernanda Viacava, recupera a trajetória de Gabriela Leite e transforma sua história em uma reflexão sobre autonomia, direitos e identidade feminina. “Joãozinha Desviada, uma Peça para Meu Pai”, de João Ricken, investiga masculinidades e vivências LGBTQIAPN+, costurando memórias íntimas com questões universais. “TDEZESSEIS” aproxima a trajetória da atriz Monalisa Silva da intelectual Ângela Davis para discutir raça, pertencimento e representação. Já “Esboço”, com Rafael Costa e a 3C – Plataforma de Pesquisa, Criação e Produção Cultural Antimanicomial, encontra na escrita de Hilda Hilst uma delicada fronteira entre lucidez e delírio.
Mais do que uma programação, a mostra revelou afinidades.
Monalisa Silva sintetizou esse espírito ao comentar que ficou feliz por integrar uma sequência de espetáculos unidos por “esse mesmo desejo de pesquisa”. João Ricken destacou o prazer de atuar “pertinho do público”, ressaltando como o acolhimento do espaço potencializa a experiência artística. Fernanda Viacava e Malu Bazan celebraram o fato de apresentar seu trabalho dentro de uma companhia que há quinze anos insiste em manter um lugar permanente para criação, pesquisa e troca artística.
Do outro lado da cena, o público também percebeu essa quebra de barreiras. Paulina Klein observou que quem assiste “está presente na peça o tempo todo”, enquanto Cuca Bolaffi definiu a experiência como a oportunidade de apreciar de perto o trabalho do ator em “um lugar muito especial”. Talvez a imagem que melhor represente a mostra tenha vindo de Rafael Costa, ao dizer que cada espetáculo transforma a Cia do Pássaro “como se fosse um novo ninho, um novo palco”.


Os curadores Alessandro Marba e Dawton Abranches com alguns dos artistas convidados dos espetáculo GabriELAS e Joãozinha que se apresentaram na Mostra Solos do Espaço Cia do Pássaro | FOTOS: divulgação
A metáfora é precisa. Em uma cidade onde tantos espaços culturais enfrentam desafios para permanecer abertos, ver um teatro independente investir em manutenção, programação gratuita, pesquisa e diálogo com outros artistas é assistir à construção paciente de um ecossistema criativo. Não se trata apenas de manter paredes de pé, mas de sustentar possibilidades de encontro.
Talvez seja esse o maior legado da Mostra de Solos. Em vez de apostar no espetáculo como produto, ela aposta na experiência como relação. Em vez de buscar a grandiosidade, encontra força na delicadeza. Em vez de ampliar o palco, diminui a distância entre quem cria e quem assiste.
Mais do que uma mostra de espetáculos, a Mostra de Solos da Cia do Pássaro afirma a curadoria como um gesto de construção de comunidade. A pesquisa conduzida por Dawton Abranches e Alessandro Marba revela um olhar atento não apenas para a qualidade artística das obras, mas para o diálogo que elas estabelecem entre si, com o espaço e, principalmente, com o público. Ao reunir diferentes poéticas, estéticas e urgências em um mesmo percurso, a mostra amplia o repertório de quem assiste, fortalece o repertório curatorial da própria companhia e alimenta uma cena teatral que se faz pela troca, pela escuta e pela diversidade de narrativas. Em um país onde formar público ainda é um dos maiores desafios da cultura, iniciativas como essa demonstram que a formação de plateia acontece menos pelo tamanho do palco e muito mais pela intensidade da experiência. Quando artistas e espectadores compartilham o mesmo espaço, quase sem fronteiras físicas, nasce uma relação de pertencimento que transforma o ato de assistir em um exercício de sensibilidade, pensamento e cidadania. E é justamente nesse encontro íntimo, generoso e profundamente humano que a Cia do Pássaro reafirma sua importância como um dos espaços mais inquietos e necessários da cena cultural paulistana.
No fim das contas, a Cia do Pássaro nos lembra que o voo mais bonito do teatro brasileiro continua sendo aquele que acontece quando uma história encontra alguém disposto a escutá-la de perto.

O ator Rafael Costa que esteve em cartaz com o espetáculo ESBOÇO na Mostra Solos do Espaço Cia do Pássaro | FOTO: divulgação
