Por Bia Ramsthaler
Há artistas que permanecem tanto tempo diante de nós que passamos a acreditar que os conhecemos.
Durante décadas, José Mayer esteve presente na casa dos brasileiros. Seus personagens ocuparam o horário nobre, atravessaram gerações e ajudaram a construir parte do imaginário da televisão brasileira. O público acompanhou romances, dramas, conflitos familiares, heróis, anti-heróis e galãs que pareciam fazer parte da própria memória afetiva do país. Talvez por isso tenhamos criado a ilusão de conhecê-lo.

Mas a televisão, ao mesmo tempo em que aproxima, também cria uma curiosa distância. Ela nos apresenta personagens, imagens, gestos e vozes. Raramente revela o caminho percorrido até que um artista seja capaz de construir tudo isso.
Nos últimos anos, tive a oportunidade de caminhar por algumas veredas da história de José Mayer. Não me refiro apenas ao percurso de um ator cuja carreira atravessa mais de cinco décadas, mas ao encontro com uma trajetória que antecede a fama e ajuda a compreender a dimensão do artista que o público aprendeu a admirar.
Há uma história que vem antes da televisão. Uma história feita de teatro, de leituras, de formação, de encontros, de escolhas, de inquietações e de uma permanente curiosidade sobre a natureza humana. Uma história que não aparece nos créditos de uma novela, mas que sustenta silenciosamente cada personagem construído ao longo da carreira.

Foi percorrendo essas memórias que compreendi algo que nunca havia me ocorrido. Não conhecemos José Mayer apenas porque assistimos às suas novelas durante quarenta anos. Na verdade, conhecemos apenas uma parte de sua obra. E talvez essa seja uma das grandes transformações do nosso tempo.
Durante muito tempo, a trajetória de um ator obedecia à lógica do calendário. O público conhecia o jovem intérprete, acompanhava sua maturidade e envelhecia junto com ele. A memória era construída em linha reta. Hoje, essa lógica foi profundamente alterada.
O streaming transformou nossa relação com o tempo. As décadas deixaram de ser sucessivas para se tornarem simultâneas.
Uma jovem que nasceu muito depois do auge de Tieta pode descobrir hoje aquele José Mayer, assistir em seguida a História de Amor, avançar para Laços de Família, chegar a Império e, em poucos dias, atravessar quase quarenta anos de carreira. Ela não acompanha uma trajetória em ordem cronológica. Ela percorre diferentes tempos de uma mesma obra.
O jovem ator, o galã que mobilizou milhões de espectadores e o intérprete maduro coexistem diante dela. Todos habitam o presente.
Talvez essa seja uma das mudanças mais fascinantes produzidas pelas plataformas de streaming. Elas não apenas preservam uma obra. Elas modificam a forma como nos relacionamos com ela. O tempo deixa de ser uma sucessão de acontecimentos para se tornar um território onde diferentes épocas convivem simultaneamente.
Talvez seja por isso que tantos fã-clubes dedicados a José Mayer sejam hoje administrados por pessoas que sequer viveram a exibição original de suas novelas. Elas não estão revisitando uma lembrança. Estão construindo uma experiência inédita. Descobrem um artista cuja obra continua encontrando novos espectadores e produzindo novos afetos.
Enquanto caminhava por essas veredas, percebia algo semelhante acontecer comigo. As conversas sobre teatro iluminavam personagens que eu havia visto décadas atrás. Recordações da juventude dialogavam com interpretações maduras. Experiências vividas muito antes da televisão explicavam escolhas que, durante anos, eu havia atribuído apenas ao talento.
Foi então que compreendi que o tempo também deixava de ser linear para mim.
O menino do interior de Minas Gerais.
O jovem ator apaixonado pelo teatro.
O intérprete que conquistaria milhões de espectadores.
O homem que continua refletindo sobre sua própria trajetória.
Nenhuma dessas imagens substitui a outra. Todas coexistem. E talvez seja justamente isso que chamamos de memória: não um arquivo organizado por datas, mas um território onde diferentes tempos continuam dialogando entre si, atribuindo novos sentidos ao presente.
Vivemos uma época em que somos constantemente estimulados a reduzir pessoas a personagens, opiniões ou episódios específicos. A convivência produz o efeito contrário. Ela restitui complexidade. Humaniza aquilo que o olhar apressado costuma simplificar.
Aprendi que admirar um artista não significa apenas reconhecer seu talento. Significa compreender a consistência de um percurso, a integridade de uma construção e a profundidade de uma vida dedicada ao ofício. Talvez esse seja o maior presente que uma história possa oferecer. Ela amplia nosso olhar não apenas sobre um artista, mas sobre o próprio tempo.
Há obras que pertencem à época em que foram criadas. Outras conseguem atravessar épocas.
A obra de José Mayer parece pertencer a essa segunda categoria. Ela continua sendo descoberta, reinterpretada e apropriada por novas gerações, que chegam até ela por caminhos completamente diferentes, mas encontram a mesma força artística.
Quanto mais caminho por essas veredas, mais compreendo que uma trajetória não permanece viva apenas porque foi importante em seu tempo. Ela permanece porque continua produzindo encontros.
Talvez esse seja o verdadeiro legado de alguns artistas: Não resistir ao tempo, mas aprender a habitá-lo.
