Em apresentação no Festival de Inverno de Visconde de Mauá, banda transforma repertório, imagens e território em um grande bordado musical
Por Bia Ramsthaler | @biaramsthaler
Assisti à banda Os Trutas pela primeira vez no encerramento do Festival de Inverno de Visconde de Mauá, realizado entre os dias 24 de julho e 1º de agosto de 2026.

Formada em Visconde de Mauá por Pedro Gracindo, voz e guitarra, Leandro Souto Maior, guitarra, Fabiano Soares, baixo, e Keila Gomes, bateria, o grupo se apresentou no dia 1º de agosto, na mesma noite de Flávio Venturini.
Costumo dizer, quando escrevo sobre teatro, área em que mais circulo, que muitos diretores parecem desconsiderar a experiência do público. Criam como se a presença de quem assiste fosse um elemento secundário ou como se a arte devesse atender somente aos desejos de quem a produz. O trabalho de Os Trutas caminha em outra direção.
O show é pensado para o público. Isso não significa fazer concessões ou simplificar escolhas artísticas para produzir uma resposta fácil. Significa reconhecer que existe alguém do outro lado e construir uma experiência que integre o outro. Em Os Trutas, cada elemento parece ocupar um lugar dentro de uma composição maior.
As projeções utilizadas durante a apresentação são um exemplo disso. Não se trata de uma estrutura tecnológica complexa, mas de um uso inteligente da tecnologia disponível. As imagens não aparecem como ilustração literal das músicas nem como recurso destinado apenas a preencher o espaço do palco. Elas dialogam com o repertório e ajudam a estabelecer o ambiente de cada momento do show. Traduzem atmosferas, ampliam sensações e participam da narrativa que a banda propõe.
Há uma compreensão de que o espetáculo não é formado apenas pelas músicas executadas. Ele nasce da relação entre som, imagem, sequência, presença cênica e público. Esses elementos vão sendo entrelaçados como os fios de um grande bordado. Cada ponto tem sua função, mas é somente quando observamos o conjunto que percebemos o desenho.
Esse bordado também está presente na maneira como Os Trutas organizam o repertório. A banda intercala composições autorais e clássicos do rock, do blues e da música popular brasileira. A escolha cria uma ponte imediata com quem ainda não conhece seu trabalho.

Quando uma música conhecida começa, o público canta junto e estabelece uma relação de familiaridade com o palco. Essa aproximação modifica a disposição para ouvir a canção seguinte, mesmo que ela seja desconhecida. A banda acolhe o espectador por meio de uma memória musical compartilhada e, a partir dela, apresenta seu próprio universo.
Não se trata, entretanto, de recorrer aos clássicos apenas para conquistar a plateia. Os arranjos revelam uma relação mais profunda com essas obras. Os Trutas não reproduzem as gravações originais nem procuram imitá-las. As músicas passam por uma reinterpretação e são conduzidas para dentro da identidade sonora do grupo.
É possível reconhecer o clássico e, ao mesmo tempo, escutá-lo de outra maneira. A forma como a banda toca e canta essas músicas não será encontrada em qualquer outra apresentação. Cada releitura recebe uma assinatura que a aproxima de uma criação autoral. Os Trutas demonstram que interpretar também pode ser um gesto de criação.
O que se vê no palco é um trabalho com solidez, identidade e consciência de suas escolhas. Nada parece resultar de um encontro casual ou de uma sucessão de oportunidades aproveitadas sem direção. Existe um pensamento artístico sustentando o caminho da banda.
Parte desse pensamento está na escolha pela margem. Os Trutas estão à margem da cidade e do circuito predominante da indústria musical, mas não ocupam esse lugar por ausência de alternativas ou porque foram empurrados até ali. A margem, nesse caso, parece ser uma posição escolhida e construída conscientemente.
É a partir dela que o grupo estabelece sua linguagem, organiza sua trajetória e mantém uma relação direta com o território. Há força nessa escolha porque ela não representa imobilidade ou isolamento. Os Trutas estão em um movimento crescente, seguindo um caminho coerente com o lugar que decidiram ocupar.
Assistir à banda em Visconde de Mauá acrescentou outra dimensão à experiência. Não era apenas um show realizado no lugar onde o grupo foi formado. Era o encontro da banda com um público que conhece seu trabalho, acompanha sua trajetória e reconhece as músicas, os gestos e os códigos construídos ao longo desse percurso.
A relação entre palco e plateia mostrava que existe uma história compartilhada. Os Trutas não estavam simplesmente se apresentando em seu território. Eles faziam parte dele.

Talvez seja justamente essa combinação entre consciência artística, vínculo territorial e atenção ao público que torne a apresentação ainda mais consistente. O cuidado está nas projeções, nos arranjos, na organização do repertório, na maneira de apresentar as composições autorais e na liberdade com que a banda se apropria de suas referências.
Tudo está entrelaçado. Como em um bordado, alguns fios vêm de uma memória musical coletiva, outros nascem das composições do grupo, outros pertencem à paisagem, ao público e à história construída em Visconde de Mauá. Separadamente, eles já possuem força. Juntos, revelam o desenho de uma banda que sabe onde está, de onde veio e como deseja ser escutada.
Os Trutas compreendem algo que muitos artistas parecem esquecer: o público não está diante da obra apenas para testemunhá-la. Ele participa da experiência. Quando essa presença é considerada desde a criação, o espetáculo deixa de ser uma sequência de músicas e se transforma em encontro.
Conheça-os e junte-se a eles: https://www.instagram.com/ostrutasmaua/
