REENCONTRAR ADERBAL

A leitura ainda em curso de Teatro aberto revela o pensamento inquieto, a intimidade e a humanidade de um diretor que, três anos depois de sua morte, continua a fazer perguntas ao teatro brasileiro.

Por Bia Ramsthaler | @biaramsthaler

Neste 9 de agosto, completam-se três anos da morte de Aderbal Freire-Filho. A data coincide com um movimento importante de reencontro com sua obra. Neste início de agosto, o Festival de Teatro do Rio dedicou uma noite à sua trajetória. Poucos meses antes, em abril, a Editora Cobogó havia publicado Teatro aberto: escritos de um diretor, reunião de textos produzidos por Aderbal ao longo de mais de três décadas, organizada pelo filósofo, dramaturgo e crítico teatral Patrick Pessoa.

É nesse contexto que volto a Aderbal. Não exatamente para falar de sua ausência, mas para tentar compreender a permanência de seu pensamento e, principalmente, da inquietação que movia seu trabalho.

Em 2019, tive o privilégio de entrevistá-lo na SP Escola de Teatro. Eu já conhecia sua obra muito antes daquele encontro. Como espectadora sempre considerei Aderbal um dos diretores mais instigantes do teatro brasileiro. Havia algo em seus espetáculos que me fascinava profundamente: nunca saíamos da plateia da mesma maneira como havíamos entrado. Cada montagem parecia deslocar nosso olhar sobre o teatro, sobre a literatura e, muitas vezes, sobre nós mesmos.

A conversa confirmou uma impressão que eu já tinha. Por trás do diretor reconhecido por sucessivas gerações havia um homem de enorme delicadeza. Lembro-me do sorriso acolhedor, do olhar atento e da maneira generosa como falava sobre criação. Não havia distância entre o intelectual respeitado e a pessoa que estava diante de mim. Havia curiosidade, escuta e uma rara disponibilidade para continuar pensando o teatro.

Foi essa presença que comecei a reencontrar em Teatro aberto.

Digo “comecei” porque minha leitura ainda está em curso. Este texto não pretende, portanto, oferecer uma análise conclusiva do livro. São primeiras impressões, atravessadas pela importância de Aderbal na minha própria maneira de compreender o teatro e, especialmente, a direção teatral.

O volume reúne ensaios, artigos, conferências, traduções e intervenções críticas escritos em diferentes momentos da vida de Aderbal. Dividido em cinco capítulos, percorre suas memórias pessoais, a influência de Bertolt Brecht, a formulação do romance-em-cena, as reflexões sobre a linguagem teatral e a dimensão política de sua atuação. Também recupera experiências como o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e o Teatro Poeira, criado ao lado de Marieta Severo e Andréa Beltrão.

A organização do livro parece confirmar algo que sempre me impressionou em Aderbal: a impossibilidade de separar criação e pensamento. Dirigir, escrever, ensinar, traduzir, ler e discutir políticas culturais eram expressões de uma mesma relação com o teatro. Sua reflexão não surgia depois da criação, como uma explicação sobre algo já realizado. Ela integrava o processo artístico. Da mesma forma, o trabalho no palco não era a simples aplicação de uma teoria formulada anteriormente. Pensamento e prática se provocavam continuamente.

Imagino o quanto essa dinâmica devia desafiar os atores dirigidos por ele. Nunca conversei com eles a esse respeito e, portanto, não posso afirmar como viviam esses processos. Ainda assim, ao acompanhar o movimento de suas ideias, é difícil não pensar na complexidade de uma sala de ensaio conduzida por alguém que nunca deixou de interrogar o próprio ofício. Como minha leitura ainda está em curso, interessa-me menos tentar explicar cada uma de suas contribuições e mais me aproximar desse pensamento em permanente elaboração.

Teatro aberto se abre com uma carta escrita por Aderbal para Marieta Severo. O texto foi encontrado por ela no computador dele. Estava assinado e endereçado a Marieta, mas nunca havia sido entregue.

A carta imediatamente estabelece uma proximidade entre Aderbal e o leitor. Antes que encontremos o diretor, o teórico, o homem de teatro e o intelectual, encontramos alguém escrevendo para a mulher com quem dividiu parte de sua vida. Aos 76 anos, ele fala do tempo, dos projetos que ainda gostaria de realizar, dos trabalhos interrompidos, da vontade de continuar escrevendo e criando. Em uma das passagens mais fortes, afirma: “Criar espetáculos de teatro é o que me resta de juventude.”

Em algum momento, quase todo artista se pergunta se ainda há tempo. Tempo para realizar os projetos adiados, experimentar outra linguagem, escrever aquele livro, montar aquela peça ou encontrar uma forma diferente de dizer o que ainda não conseguiu formular. Ler essas inquietações em alguém da dimensão de Aderbal produz um curioso efeito de aproximação. Percebemos que a maturidade não elimina as perguntas. Talvez apenas as torne mais profundas.

Mas a carta também me colocou diante de uma pergunta incômoda e delicada. Se Aderbal a escreveu e não a entregou, ele gostaria que ela tivesse sido encontrada? Gostaria que fosse lida por Marieta? E, sobretudo, gostaria que chegasse até nós?

Não faço essa pergunta como uma acusação à escolha editorial. Tampouco ignoro que o próprio texto contém uma espécie de orientação deixada por Aderbal: o desejo de que alguém reunisse os muitos escritos que havia produzido e que estavam dispersos. Em depoimento a Marcella Franco, na matéria publicada pela Folha de S.Paulo em 11 de junho, Marieta conta que inicialmente guardou a carta e não teve coragem de mostrá-la. Mais tarde, compreendeu aquele desejo registrado por Aderbal como uma direção a ser seguida. Foi assim que o projeto do livro começou.

Ainda assim, a pergunta permanece em mim. Talvez porque a publicação de um escrito tão íntimo altere a posição do leitor. Já não estamos apenas diante da obra pública de um artista. Somos admitidos em uma região da vida que não havia sido inteiramente oferecida nem mesmo à sua destinatária.

Essa hesitação não diminui a força da carta. Ao contrário, torna a leitura mais complexa. Ela exige cuidado. Há alguma coisa de profundamente comovente e, ao mesmo tempo, de quase indiscreto nessa aproximação. A carta nos permite chegar muito perto, mas é justamente essa proximidade que nos obriga a perguntar qual é o nosso lugar diante dela.

Ao avançar pelas primeiras páginas, senti também vontade de conhecer melhor o homem que existe sob o nome consagrado do diretor. Não para procurar na biografia uma explicação simples para sua obra, como se cada escolha artística pudesse ser reduzida a um episódio pessoal. O que me interessa é compreender de que maneira as experiências, os afetos, as contradições e as relações de Aderbal participaram da formação daquele olhar tão singular.

A carta revela um homem em um momento de elaboração sobre a vida, o amor, o tempo e a continuidade do trabalho. Mas ela já o encontra aos 76 anos. Fiquei querendo saber mais sobre o caminho que o levou até ali. Quem foi o ser humano que se construiu antes de se tornar a referência que conhecemos? Que experiências formaram sua maneira de escutar os atores, de ler a literatura, de tensionar as convenções da cena e de compreender o teatro como espaço de criação e participação pública?

Também comecei a pensar nas pessoas que fizeram parte desse percurso. Quem esteve próximo de Aderbal nos momentos de descoberta, de dúvida, de criação e de reconhecimento? Que relações afetivas, profissionais e artísticas contribuíram para sustentar o homem público que conhecemos? Um artista se constitui a partir de suas escolhas e de sua visão de mundo, mas também das conversas, dos encontros, das parcerias e das pessoas que permanecem ao seu lado enquanto uma obra ganha forma. Talvez compreender melhor esses vínculos seja também uma maneira de nos aproximarmos do ser humano que existia sob o nome consagrado do diretor.

Talvez essas respostas apareçam à medida que a leitura avançar. Talvez estejam espalhadas, como seus escritos estiveram, e precisem ser procuradas nas memórias da infância em Fortaleza, na relação com Brecht, nas experiências coletivas, nos debates políticos, nas cartas e nas sucessivas tentativas de formular o sentido do próprio trabalho. Por enquanto, essa falta não me parece uma falha do livro. É uma expectativa produzida por ele e que só me foi provocada porque a obra parte de um relato tão íntimo.

A reportagem de Marcella Franco recupera uma definição especialmente reveladora de Marieta: a fé de Aderbal estava no diálogo. Não em um diálogo submetido a regras previamente estabelecidas, mas na possibilidade concreta de pensar com o outro. A afirmação ajuda a nomear algo que eu havia percebido naquele encontro de 2019 e que também reconhecia em seus espetáculos. Aderbal não parecia criar para encerrar uma discussão. Criava para abri-la.

Talvez por isso seu teatro produzisse tamanho deslocamento. O espectador não era convocado apenas a acompanhar uma narrativa ou admirar uma solução cênica. Era chamado a participar de um pensamento em movimento. Mesmo diante de uma obra rigorosamente construída, havia espaço para a dúvida, para a inteligência do público e para aquilo que poderia surgir do encontro.

Patrick Pessoa, ouvido por Marcella Franco, define Aderbal como um “mestre da admiração”. A formulação é bonita porque retira o diretor do lugar isolado do gênio e o devolve à relação com os outros. Admirar, nesse caso, não significa observar passivamente. Significa reconhecer a criação alheia, deixar-se afetar por ela e desejar compartilhá-la. Essa abertura também explica sua atuação na formação de artistas e na construção de espaços e políticas para o teatro.

Em uma passagem do livro, Aderbal escreve que precisava “reencontrar o sentido do teatro”. Quem lê a frase fora de contexto talvez imagine um jovem diretor ainda procurando seu caminho. Mas estamos diante de um dos grandes nomes da direção teatral brasileira, responsável por espetáculos que transformaram nossa cena, criador de uma linguagem própria e referência para diferentes gerações. Essa inquietação talvez explique justamente a potência de sua obra.

Nunca saíamos de um espetáculo de Aderbal da mesma maneira como havíamos entrado porque ele próprio não parecia entrar em um processo criativo do mesmo modo que no anterior. Havia uma busca permanente e uma recusa em se acomodar às próprias conquistas. Mesmo depois de uma trajetória extensa e reconhecida, ele ainda precisava perguntar qual era o sentido do teatro.

O título Teatro aberto começa, então, a ganhar outras dimensões. Não se trata apenas de um teatro aberto à literatura, às transformações da linguagem ou às tensões da vida política. A expressão parece descrever o próprio modo de Aderbal estar no mundo: aberto à dúvida, ao pensamento, à criação dos outros, ao público e à possibilidade de recomeçar.

Três anos depois de sua morte, voltar a Aderbal não significa apenas preservar seu legado. Significa manter em circulação as perguntas que ele dirigiu ao teatro brasileiro.

Continuo lendo o livro. Talvez, nas próximas páginas, eu encontre mais respostas sobre o homem que procuro sob o diretor. Talvez encontre sobretudo outras perguntas. Com Aderbal, isso não seria pouco. Seria uma forma bastante coerente de reencontrá-lo.

Referências:

FRANCO, Marcella. “A fé de Aderbal Freire-Filho era um diálogo sem regras ou leis, diz Marieta Severo”. Folha de S.Paulo, 11 jun. 2026.

FREIRE-FILHO, Aderbal. Teatro aberto: escritos de um diretor. Organização de Patrick Pessoa. Rio de Janeiro: Cobogó, 2026.


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