
Laila Garin e sua Édith Piaf em PIAF – EU NÃO ME ARREPENDO | FOTO: divulgação
Em PIAF – Eu Não Me Arrependo, Laila Garin atravessa infância, amores, perdas, música e abismos de Édith Piaf. Para quem acompanha a atriz desde muito antes de Elis, vê-la chegar até aqui é também testemunhar uma espécie de encontro marcado entre duas artistas.
Por tOn Miranda
Há papéis que um ator interpreta. E há papéis que parecem ter ficado anos esperando por ele.
Saí de PIAF – Eu Não Me Arrependo com a sensação de que Laila Garin talvez tenha se preparado durante boa parte da vida para viver Édith Piaf. Não porque exista qualquer obviedade entre as duas, muito menos porque Laila simplesmente reproduza a cantora francesa no palco. É justamente o contrário. O que impressiona é perceber quantas camadas da artista que Laila construiu ao longo dos anos parecem encontrar abrigo nessa mulher pequena de corpo, gigantesca de voz, contraditória, apaixonada, ferida e absolutamente devotada à música.
O espetáculo, que encerra sua temporada paulistana neste domingo, 27 de setembro, no Teatro Bradesco, percorre a trajetória de Piaf desde uma infância marcada pela pobreza até sua consagração como uma das grandes vozes do cancioneiro mundial. Com dramaturgia de Newton Moreno e Alessandro Toller e direção de Sergio Módena, a montagem segue em outubro para o Rio de Janeiro, onde estreia no dia 10, no Teatro Riachuelo Rio. Mas minha relação com essa experiência começa muito antes.

Laila Garin, atriz e cantora | FOTO: divulgação
Antes de Piaf, eu já tinha encontrado Laila
Conheci Laila Garin no início da minha própria trajetória profissional como produtor cultural. Trabalhava no musical Cabaret Luxúria, protagonizado por Rachel Ripani, Rosi Campos e Bruno Perillo. Laila era stand-in de Rachel. E eu me lembro dela. Talvez seja importante dizer assim, simplesmente: eu me lembro dela. Porque havia alguma coisa naquela artista que fazia com que a gente se lembrasse.
Em determinado momento do espetáculo, Laila protagonizava um número que ficou guardado em algum lugar muito particular da minha memória. Em cena, num diálogo musical com a personagem de Rosi Campos, papel que também vi ser lindamente defendido por Paula Flaiban em diversas apresentações, surgia um encontro improvável e arrebatador entre “Atrás da Porta”, de Chico Buarque e Francis Hime, e “Ne Me Quitte Pas”, de Jacques Brel. Duas canções atravessadas pelo abandono, pela súplica, pelo desejo de permanecer quando alguma coisa já está escapando pelas mãos. Era absurdo. Era bonito. Era doloroso. E Laila já estava inteira ali.
Curiosamente, “Ne Me Quitte Pas” é uma música que, ao longo do tempo, acabou sendo popularmente associada a Édith Piaf, embora Piaf nunca a tenha gravado. A canção é de Jacques Brel. Hoje, olhando retrospectivamente para aquela jovem Laila cantando Brel diante de mim e para a artista que encontro tantos anos depois vestindo a vida de Piaf, a memória quase inventa uma premonição. Não era. Mas gosto de pensar na poesia desse acaso.

Laila Garin como Elis Regina no espetáculo Elis, A Musical | FOTO: divulgação
Uma artista que não chega sozinha
Depois vieram tantos outros trabalhos. E veio Elis. Quem viu Laila Garin vivendo Elis Regina nos palcos sabe do tamanho da artista a que estou me referindo. E quem teve a oportunidade de ouvi-la cantar Elis também fora daquela dramaturgia talvez tenha percebido uma coisa importante: Laila nunca parece interessada em simplesmente imitar grandes cantoras. Ela procura alguma coisa por baixo da voz. Talvez o lugar onde aquela voz nasceu. É por isso que sua Piaf me toca tanto.
Em PIAF – Eu Não Me Arrependo, acompanhamos uma mulher desde os primeiros anos de vida até os momentos finais de uma existência consumida em intensidade. A menina, a jovem cantora descoberta nas ruas, a mulher apaixonada, a estrela internacional, a artista atravessada pela guerra, pelos amores, pelas perdas, pela doença e por uma relação cada vez mais visceral com o próprio ofício. E Laila percorre essas idades sem transformar Piaf numa coleção de caricaturas. Seu corpo vai contando o tempo. A postura muda. Os gestos mudam. A voz encontra outras texturas. O peso daquele corpo no mundo parece mudar. A maneira como aquela mulher ocupa o espaço vai sendo transformada diante dos nossos olhos. Existe minúcia nessa construção. Mas existe, sobretudo, entrega. E então existe a voz. Não apenas a potência vocal, que em Laila nunca foi exatamente uma novidade, mas aquilo que ela decide fazer com essa potência. Porque cantar Piaf não deveria significar vencer Piaf vocalmente. Seria uma batalha inútil. Piaf já existiu.
O desafio é outro: encontrar uma maneira de fazer aquelas canções existirem novamente diante de nós. E Laila consegue. “La Vie en Rose”, “Hymne à l’Amour”, “Padam, Padam”, “Milord”, “Non, Je Ne Regrette Rien” deixam por alguns instantes de pertencer apenas à memória de Édith Piaf e passam pelo corpo, pela voz e pela história de outra artista. Não para substituir Piaf. Mas para encontrá-la.

Laila Garin vive Édith Piaf em PIAF – Eu Não Me Arrependo | FOTO: divulgação
A filha da Bahia e da França encontra Piaf
Talvez exista ainda outra camada particularmente bonita nesse encontro. Laila Garin é filha de mãe baiana e pai francês. Bahia e França não são, portanto, apenas geografias na sua biografia. São territórios afetivos e culturais que atravessam sua formação, sua escuta e a artista que ela se tornou. E Piaf já estava ali. Anos antes de viver integralmente a cantora nos palcos, Laila escolheu “L’Accordéoniste”, do repertório de Édith Piaf, para seu primeiro disco justamente como uma homenagem às suas origens. E, em 2020, chegou a interpretar a própria Piaf na série Hebe.
Por isso, talvez seja pouco dizer que Laila agora “encontra” Édith Piaf. Esse encontro começou muito antes. Piaf já habitava sua memória musical, sua ascendência, sua escuta e, de alguma maneira, sua própria construção como cantora. O que acontece agora em PIAF – Eu Não Me Arrependo parece ser outra coisa: Laila ganha tempo, corpo e palco para atravessar uma existência inteira. E talvez seja por isso que exista algo tão profundamente orgânico em vê-la nesse papel.
Não parece uma atriz que simplesmente recebeu a missão de interpretar uma das maiores cantoras do século XX. Parece uma artista revisitando uma referência que ajudou a formá-la. Existe quase uma linha invisível atravessando tudo isso. A Bahia. A França. Jacques Brel naquele Cabaret Luxúria que ainda guardo na memória. Elis Regina. Édith Piaf. E Laila. Como se todas essas referências, encontros e experiências tivessem deixado pequenas marcas pelo caminho e agora algumas delas se encontrassem naquele palco.
A arte como comida, oxigênio e vício
Mas talvez seja justamente aqui que PIAF – Eu Não Me Arrependo ultrapasse, para mim, os limites de um musical biográfico. Porque estamos diante da história de uma mulher que fez da arte sua comida. Da música, seu oxigênio. Do palco, sua existência. E, em determinados momentos, quase seu vício. Piaf parece incapaz de separar a mulher da cantora porque cantar não é exatamente aquilo que ela faz. É a maneira pela qual ela existe.
Amores, abandonos, encontros, perdas, excessos, dores físicas, dependências e aplausos parecem alimentar uma mesma engrenagem. Tudo passa pela vida para, em algum momento, voltar como música. Talvez seja essa dimensão que torne Piaf tão fascinante e também tão dolorosa. Há uma armadilha frequente nos musicais biográficos: transformar uma vida numa sucessão de acontecimentos e uma obra num catálogo de sucessos. Aqui, o que mais me interessa está em outro lugar. Está no encontro. Entre a menina e a mulher. Entre a fragilidade e a potência. Entre a dependência e a liberdade. Entre amar alguém e precisar desesperadamente ser amado. Entre destruir o próprio corpo e descobrir que é justamente daquele corpo que precisa sair a próxima canção. E, sobretudo, entre duas artistas separadas pelo tempo.

Édith Piaf de Laila Garin em PIAF – Não Me Arrependo | FOTO: divulgação
Quando uma artista encontra outra
Édith Piaf morreu em 1963, aos 47 anos. Sua voz, entretanto, continuou atravessando décadas, idiomas, países, gerações e artistas. Laila Garin é uma dessas artistas alcançadas por ela. Agora acontece o movimento inverso. Laila empresta seu corpo, sua voz, sua memória e tudo aquilo que acumulou como intérprete para que Piaf possa novamente atravessar uma plateia. Talvez por isso eu tenha pensado tanto naquela Laila que conheci no começo da minha carreira. Naquela artista que entrava em cena em Cabaret Luxúria e transformava duas canções sobre abandono em alguma coisa que eu continuaria carregando comigo tantos anos depois. Eu ainda não sabia que veria Laila ser Elis. Muito menos que um dia me sentaria numa plateia para vê-la atravessar a vida de Piaf. E talvez ela própria ainda não soubesse. Mas alguma coisa daquela artista já estava ali.
Hoje, quando Laila Garin chega a “Non, Je Ne Regrette Rien”, é difícil ouvir apenas uma das canções mais conhecidas de Édith Piaf. Eu escuto também uma trajetória. A de Piaf, certamente. Mas um pouco da de Laila. E, inevitavelmente, alguma coisa da minha também. Porque existe uma beleza particular em acompanhar artistas através do tempo. Enquanto construímos nossas próprias histórias, algumas pessoas que encontramos pelo caminho também estão construindo as delas. Crescemos. Mudamos. Ocupamos outros lugares. Carregamos outras experiências. E algumas memórias que pareciam pequenas permanecem conosco sem que saibamos exatamente por quê. Até que, muitos anos depois, alguma coisa acontece e elas voltam. Talvez tenha sido isso que aconteceu comigo diante de Laila Garin como Édith Piaf.
Por alguns instantes, encontrei a cantora francesa. Encontrei a atriz extraordinária que estava diante de mim. Mas encontrei também aquela jovem artista de Cabaret Luxúria e o jovem produtor cultural que, começando sua própria trajetória, a observava cantar “Atrás da Porta” e “Ne Me Quitte Pas” sem imaginar onde a arte ainda levaria cada um de nós. E isso me emocionou em lugares muito especiais dentro de mim. Ela no palco. Eu na plateia. Laila diante de Piaf. Piaf diante de Laila. E a arte, mais uma vez, fazendo aquilo que talvez saiba fazer melhor: atravessando o tempo para provocar um novo encontro.
PIAF – Eu Não Me Arrependo encerra sua temporada paulistana neste domingo, 27 de setembro, no Teatro Bradesco. Em outubro, o espetáculo segue para o Rio de Janeiro, com estreia em 10 de outubro, no Teatro Riachuelo Rio.

PIAF – Eu Não Me Arrependo – musical escrito por Newton Moreno e Alessandro Toller, com idealização e direção de Sérgio Módena, direção musical de Cláudia Elizeu e produção da Aventura | FOTO: divulgação
