Quem tem direito ao centro da cena? | MEU OLHAR

As Armas Milagrosas – Seis personagens à procura de existência – em cartaz no Teatro do Itaú Cultural | FOTO: Mercelle Cerutti / divulgação

As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência transforma o palco em território de disputa por voz, autoria e visibilidade e pergunta quem ainda precisa lutar para deixar as margens da nossa história

Por tOn Miranda

Há uma diferença imensa entre estar em cena e ter direito à cena. Entre ser visto e ser reconhecido. Entre aparecer em uma narrativa e poder contar a própria história. É nesse território, ao mesmo tempo teatral, político e profundamente humano, que As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência constrói sua força.

Em cartaz no Itaú Cultural até este domingo, 16 de agosto, o espetáculo idealizado por Anderson Negreiro, que divide a direção com a colombiana Daniela Manrique, parte de um encontro tão improvável quanto fértil: Seis Personagens à Procura de um Autor, clássico de Luigi Pirandello, encontra Os Cães se Calavam, tragédia de Aimé Césaire presente na coletânea As Armas Milagrosas. Duas obras de tempos, geografias e contextos distintos colocadas em diálogo para pensar questões que permanecem brutalmente atuais: racismo estrutural, representação, existência, autoria e o direito de ocupar o espaço da narrativa.

Mas talvez seja justamente a alteração feita no título pirandelliano que nos ofereça a primeira chave para entrar nessa montagem. Aqui, os personagens não estão simplesmente à procura de um autor. Estão à procura da existência.

E existir, neste caso, não significa apenas estar vivo. Significa ser percebido. Ter voz. Produzir memória. Ser autor de si. Ocupar espaços dos quais determinados corpos foram historicamente afastados. Poder dizer “eu” antes que alguém diga quem você é.

Quando quem estava à margem atravessa a cena

A montagem começa dentro de uma situação aparentemente conhecida: um ensaio convencional da obra de Pirandello. Há atores, personagens, códigos e uma determinada ordem teatral estabelecida. Até que essa ordem é interrompida.

Entram em cena funcionários daquele próprio teatro: o porteiro/rebelde, a mãe, a assistente e o ponto. Eles deixam de aceitar silenciosamente os lugares que lhes foram destinados e passam a reivindicar algo fundamental: o direito de contar suas próprias histórias. Não aparecem como personagens ficcionais tradicionais, mas como personagens sociais produzidos pela branquitude, carregando consigo as marcas da existência negra no Brasil pós-abolição.

É nesse momento que a peça parece lançar sua pergunta mais incômoda:

Quem tem direito ao centro da cena?

E talvez seja impossível responder a essa pergunta olhando apenas para o teatro.

Porque o palco de As Armas Milagrosas também pode ser entendido como representação de uma sociedade que distribui lugares. Há aqueles autorizados a ocupar o centro, aqueles que permanecem nas bordas e aqueles que, muitas vezes, sequer são reconhecidos como participantes da narrativa.

A peça transforma essa divisão em conflito. De um lado está uma ideia de representação organizada, controlada por cenários, figurinos, interpretações e convenções. Do outro, irrompem experiências atravessadas pela violência histórica, pela invisibilização e pela urgência de finalmente ocupar o centro. O palco deixa então de ser apenas lugar da representação para tornar-se território de confronto simbólico.

As Armas Milagrosas: seis personagens à procura de existência | FOTO: Mercelle Cerutti / divulgação

Quem conta a história também exerce poder

Há outra pergunta pulsando por baixo da primeira: quem tem autorização para contar a história de quem?

Representatividade e representação não são exatamente a mesma coisa.

Um corpo pode estar representado e, ainda assim, permanecer aprisionado ao olhar que o outro construiu sobre ele. Pode estar visível sem possuir voz. Pode ser personagem sem jamais alcançar a condição de autor.

É nesse ponto que a aproximação entre Pirandello e Césaire se mostra especialmente potente. Segundo o próprio projeto, apesar das diferenças históricas e culturais entre os dois autores, suas obras encontram-se em questões relacionadas à existência, à autoria e às disputas sobre quem pode ocupar o espaço da representação. Dessa fricção nasce uma metaficção que desloca essas questões para o racismo estrutural no Brasil contemporâneo.

A discussão racial, portanto, não aparece como assunto colocado sobre a dramaturgia. Ela reorganiza a própria lógica da cena.

Falar de racismo estrutural aqui é falar também de poder, branquitude, silenciamento, memória, violência histórica, invisibilidade e hierarquias. É perceber que centro e margem não acontecem por acaso. São construídos. E talvez uma das virtudes do espetáculo esteja justamente em não deixar essa reflexão restrita às palavras.

A luz também escolhe quem vemos

Sem cenário fixo e trabalhando com poucos elementos cênicos, As Armas Milagrosas encontra na iluminação um de seus recursos dramatúrgicos mais expressivos.

O desenho de luz de Matheus Brant, indicado ao Prêmio Shell de Teatro pelo trabalho realizado na montagem, organiza o palco a partir de um cubo central iluminado. Dentro dele permanecem representantes alegóricos da branquitude. Fora desse território estão os funcionários negros do teatro, que operam aquele espaço e procuram atravessar sua fronteira. A imagem é simples e poderosa.

Porque a luz, que no teatro tradicionalmente nos diz para onde olhar, passa também a perguntar por que olhamos sempre para determinados lugares.

Quem foi iluminado pela História? Quem permaneceu fora do foco? Quem construiu, operou, carregou, abriu portas, preparou o espaço e tornou possível aquilo que acontecia sob a luz sem jamais receber essa mesma luz sobre si?

Anderson Negreiro sintetiza essa ideia ao afirmar que a iluminação torna visível uma estrutura que geralmente não vemos: “o racismo que organiza quem está no centro e quem fica à margem”. E talvez esteja aí uma das imagens conceituais mais bonitas da montagem: atravessar a luz passa a significar também atravessar uma estrutura.

A luz de Matheus Brandt (indicada ao Prêmio Shell) que ajuda a contar a história de As Armas Milagrosas: seis personagens à procura de existência | FOTO: Mercelle Cerutti / divulgação

E o som também nos diz o que sentir

Se a luz desenha as fronteiras entre centro e margem, a sonoridade de As Armas Milagrosas parece atravessá-las. A trilha sonora criada por Dani Nega não funciona como simples acompanhamento ou preenchimento das transições. Ela participa da atmosfera da montagem, tensiona silêncios, sustenta estados e encontra a medida necessária para que música, palavra e presença dos corpos possam coexistir sem que uma camada se imponha gratuitamente sobre a outra. O release credita Tomé de Souza pela operação de som e vídeo, mas sua contribuição percebida na experiência do espetáculo merece ser compreendida para além da operação: há um verdadeiro desenho da escuta na maneira como as vozes dos personagens, a trilha, os silêncios e as diferentes intensidades sonoras chegam ao público. É um trabalho de precisão e sensibilidade, no qual cada interferência parece encontrar o tamanho certo para cada momento da encenação. Se a iluminação de Matheus Brant determina quem podemos ver e onde nosso olhar pousa, a criação de Dani Nega e o trabalho sonoro de Tomé ajudam a determinar como escutamos aqueles corpos quando finalmente conquistam o direito à palavra. E, em um espetáculo tão atravessado pelas ideias de voz, silenciamento, invisibilidade e existência, ser escutado também é uma forma de ocupar o centro da cena.

Os trabalhadores que fazem a cena existir

Existe ainda uma camada particularmente interessante na escolha de colocar trabalhadores do próprio teatro no centro desse conflito.

Porteiro. Assistente. Ponto. Funções que pertencem à engrenagem que permite que uma obra aconteça, mas que normalmente permanecem invisíveis ao público. Quando esses sujeitos atravessam a fronteira entre bastidor e palco, As Armas Milagrosas abre uma possibilidade de leitura que ultrapassa a discussão sobre representação artística e alcança também o trabalho, a produção e as hierarquias existentes dentro da própria cultura.

Quem cria? Quem executa? Quem sustenta? Quem recebe os aplausos? Quem pode assinar uma narrativa? E quem desaparece quando as luzes se acendem? O espetáculo parece compreender que a margem não é somente um lugar geográfico ou racial. A margem também pode ser uma posição construída pelas relações de poder. E quando corpos historicamente colocados nesses lugares decidem atravessar a linha imaginária que os separava do centro, não estão simplesmente pedindo espaço. Estão questionando quem desenhou essa linha em primeiro lugar.

As Armas Milagrosas: seis personagens à procura de existência – em cartaz no Teatro do Itaú Cultural até 16 de agosto de 2026 | FOTO: Mercelle Cerutti / divulgação

Existir também é tornar-se autor

Por isso, talvez o gesto mais bonito de As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência esteja justamente na palavra existência.

Pirandello colocou personagens diante da impossibilidade de encontrar quem completasse suas histórias. A montagem de Anderson Negreiro e Daniela Manrique parece radicalizar essa inquietação ao aproximá-la da experiência negra: o que acontece quando, antes mesmo de procurar um autor, é necessário reivindicar o próprio direito de existir como sujeito?

Não apenas existir diante do olhar do outro. Mas existir por inteiro. Com memória, contradição, ancestralidade, desejo, voz e autoria.

Nesse sentido, os temas aparentemente periféricos da montagem, como branquitude, pós-abolição, invisibilização, fronteira, silenciamento, trabalho, hierarquia e ocupação dos espaços, deixam de ser periféricos. Todos conduzem novamente ao mesmo centro.

E talvez seja justamente essa a provocação que permanece quando saímos do teatro: será que aquilo que chamamos de periferia não é apenas tudo aquilo que decidimos manter distante do nosso foco?

As Armas Milagrosas acende a luz sobre essa pergunta.

E quando a luz muda de lugar, muda também aquilo que conseguimos enxergar. Porque ocupar o centro da cena não deveria significar apenas conquistar visibilidade. Significa conquistar o direito de narrar, criar, lembrar, produzir sentidos e transformar experiência em história. No fundo, talvez esses seis personagens não estejam apenas à procura da existência. Talvez estejam reivindicando algo ainda mais fundamental: o direito de serem autores dela.

As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência segue em cartaz no Itaú Cultural até 16 de agosto, com apresentações de quinta-feira a sábado, às 20h, e domingo, às 18h. A temporada é gratuita e os ingressos são disponibilizados pela plataforma INTI.

O elenco de As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência: corpos, vozes e histórias que atravessam as margens para reivindicar o centro da cena. Porque existir também é ser visto, ser escutado e ter o direito de contar a própria história. | FOTO: Mercelle Cerutti / divulgação

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