Em A Mulher que virou ONG, atriz volta ao palco nos dias 15 e 16 de agosto, no Vale Criativo, em Visconde de Mauá
A primeira vez que li Leila Ferreira foi por intermédio de Vera Fajardo. Na ocasião, ela me presenteou com o livro Que ninguém nos ouça e comentou sobre a relação que percebia entre a escrita da autora e o teatro. Não falava ainda de um projeto específico. Compartilhava uma percepção artística, dessas que permanecem guardadas até encontrarem o momento de chegar ao palco.

Agora, aquela aproximação ganha forma concreta. Nos dias 15 e 16 de agosto, às 19h, Vera Fajardo estreia no Teatro Vale Criativo, em Visconde de Mauá, A Mulher que virou ONG. Com texto de Leila Ferreira e direção artística de Fernando Philbert, o trabalho foi idealizado e é protagonizado pela atriz.
A peça aborda os desafios enfrentados pelas mulheres ao envelhecerem em uma sociedade que continua a impor às mulheres padrões de beleza, juventude e comportamento. Por meio do humor, trata da vaidade, da solidão, das transformações físicas e psicológicas e do estigma social relacionado ao envelhecimento feminino.
O tema importa, mas há outra dimensão especialmente significativa nesta estreia: a presença de Vera Fajardo no centro da cena.
Vera é uma artista cuja trajetória não se restringe ao trabalho como atriz. Sua relação com o teatro passa também pela direção, pela produção, pela formação de outros artistas e pela construção de espaços de convivência cultural. Ao longo do tempo, ela não esteve apenas sobre o palco. Esteve à frente de projetos que permitiram que o teatro acontecesse e permanecesse.
Em março de 1992, Vera participou da fundação da Casa da Gávea, no Rio de Janeiro. Ao lado de outros artistas, ajudou a construir um centro cultural que se tornaria referência para o teatro carioca. Mais do que uma sala de espetáculos, a Casa se afirmava como espaço de experimentação, formação, produção e encontro.
Vera criou e dirigiu durante anos o Ciclo de Leituras da Casa da Gávea. Realizado regularmente e com entrada gratuita, o projeto aproximava atores, diretores, dramaturgos e público em torno de textos teatrais. Muitas das obras apresentadas nas leituras seguiram posteriormente para montagens profissionais.
Esse trabalho ajuda a compreender uma dimensão importante de sua trajetória. Vera sempre pareceu interessada não apenas em interpretar, mas em criar as condições para que o teatro se realizasse. Em uma entrevista concedida em 2010, ela definiu a Casa da Gávea como seu espaço de experimentação e afirmou que a experiência lhe permitiu pensar muito mais como artista do que apenas como atriz.
Foi também na Casa da Gávea que a entrevistei, em 2016, para o Canal Diversão & Arte. Naquela ocasião, conversamos sobre Ronaldo, por favor, documentário dirigido e produzido por ela em homenagem a Ronaldo Brandão, artista que teve presença decisiva em sua formação.
O filme foi lançado em 23 de maio de 2016, no Teatro Marília, em Belo Horizonte. Vera o definia como um “documentário afetivo”. Ronaldo era o único personagem e conduzia o filme a partir de sua própria maneira de falar, recordar e ocupar os espaços. Não havia uma sucessão de depoimentos explicando quem ele havia sido. Vera preferiu confiar na força de sua presença.
Durante a nossa conversa, ela contou que o documentário havia sido realizado de maneira independente. Falou também sobre o encontro com Ronaldo Brandão, sobre os horizontes que ele lhe havia apresentado e sobre a maneira como o teatro havia transformado sua percepção do mundo.
Uma frase daquela entrevista permanece comigo: “O teatro me abriu o olhar para a vida”.
A afirmação talvez ofereça uma chave para compreender Vera Fajardo. O teatro, para ela, não parece ter sido somente uma profissão ou linguagem artística. Tornou-se uma forma de ver, preservar encontros, elaborar experiências e construir relações.
A Casa da Gávea encerrou suas atividades naquele endereço em junho de 2016, depois de 24 anos de atuação. O fechamento significou a perda de um espaço importante para a cultura do Rio de Janeiro, mas não apagou o que havia sido construído ali. A experiência permaneceu nos espetáculos, nos artistas formados, nas leituras realizadas e nas relações criadas em torno do teatro.
A escolha do Vale Criativo para esta estreia também é significativa. Mantido por Pedro Gracindo e Júlia Fajardo, filha de Vera, o espaço recebe espetáculos, eventos culturais e atividades formativas, incluindo trabalhos com crianças e adolescentes da região.
Depois de uma trajetória que inclui a experiência da Casa da Gávea, é coerente que Vera apresente seu novo trabalho em um espaço igualmente comprometido com a formação, a convivência e a permanência do teatro.
Também merece atenção o fato de uma estreia nacional acontecer em Visconde de Mauá. A escolha rompe com a lógica segundo a qual um espetáculo precisa nascer em uma capital para somente depois alcançar outras cidades. Mauá é o lugar onde o trabalho se apresenta pela primeira vez ao público.
A Mulher que virou ONG coloca no palco uma mulher que enfrenta as contradições do envelhecimento. Sua estreia também nos permite olhar para a própria Vera: uma artista que atravessa o tempo sem abandonar a criação, o risco e a capacidade de transformar uma percepção em teatro.
Em 2016, ela me disse que o teatro havia aberto seu olhar para a vida. Em 2026, Vera Fajardo volta ao palco para dividir esse olhar com o público.
SERVIÇO
Espetáculo: A Mulher que virou ONG
Datas: 15 e 16 de agosto de 2026
Horário: 19h
Local: Teatro Vale Criativo

FICHA TÉCNICA
Texto: Leila Ferreira
Atriz e idealizadora do projeto: Vera Fajardo
Direção artística: Fernando Philbert
Direção musical: Marcelo Neves
Cenografia: Mirela Maniacci
Figurino: acervo pessoal da atriz
Assistente de direção: Monique Ottati
Iluminação: Vilmar Olos
Produção: Sinal Produções Artísticas
Produção executiva: Heder Braga
