ÉRICA MIRANDA: QUANDO NOVOS CAMINHOS SURGEM ENTRE LINHAS

Da moda e do design às artes visuais, Érica Miranda transforma tecidos, bordados e elementos recolhidos da natureza em uma linguagem construída pela experimentação, pela escuta e pelo desejo de compartilhar

Por Bia Ramsthaler | @biaramsthaler

Há trajetórias profissionais que parecem obedecer a uma sequência organizada de escolhas. Outras vão se revelando aos poucos, quando experiências aparentemente distintas encontram um ponto de convergência. A trajetória de Érica Miranda pertence a esse segundo movimento. Antes de se reconhecer como artista plástica, ela passou pelo universo da moda e do design. Foi nesse território, entre tecidos, texturas, formas e processos manuais, que acumulou referências que mais tarde encontrariam outro modo de existir.

Nada do que veio antes parece ter sido abandonado. Ao contrário, a passagem para as artes visuais incorporou conhecimentos, materiais e gestos construídos ao longo do caminho. O tecido permaneceu. As linhas permaneceram. O olhar atento para as cores, as combinações e as possibilidades de composição também permaneceram. O que mudou foi o suporte e, com ele, a maneira de organizar essa experiência.

Quando conversei com Érica sobre a exposição Entre Linhas Surgem Novos Caminhos, realizada em 2025 na Galeria Amantikir, em Penedo, ficou evidente que sua entrada nas artes plásticas não nasceu de uma ruptura repentina. Ela aconteceu como uma pesquisa. Érica sabia bordar sobre tecidos, materiais leves e maleáveis. Em determinado momento, decidiu experimentar esse mesmo gesto sobre a tela, um suporte mais firme, resistente e menos previsível.

Ela começou sem saber se daria certo. Talvez esteja justamente aí uma das chaves de seu processo criativo: a disposição para experimentar antes de dominar completamente o resultado.

A tela não recebe o bordado da mesma maneira que o tecido. Exige outra força, outro tempo e uma nova relação entre a mão e a matéria. Ao deslocar para a tela técnicas e conhecimentos trazidos de sua experiência anterior, Érica começou a construir uma linguagem que já não pertencia apenas à moda, ao design ou ao bordado tradicional. Surgia um trabalho situado entre diferentes campos, capaz de preservar a memória de sua trajetória e, ao mesmo tempo, inaugurar outro caminho.

Encontrar uma identidade visual não significou, para ela, escolher uma forma fixa ou estabelecer uma fórmula. Sua linguagem nasce justamente da combinação. Tecidos reaproveitados, linhas, lãs, rendas, tintas, galhos e outros elementos naturais convivem sobre a superfície das obras. O bordado deixa de ser apenas acabamento ou ornamento e passa a estruturar imagens, criar movimentos e sugerir percursos.

A natureza ocupa um lugar central nesse processo, mas não aparece como uma referência distante. Érica vive em Penedo (RJ), cercada pela vegetação, pelos sons e pela presença constante dos pássaros. Tucanos, sabiás, bem-te-vis, folhas e ramos integram seu cotidiano antes de chegarem às telas. Ela não precisa buscar muito longe aquilo que deseja representar. Como diz, com uma imagem que resume bem essa relação, “minha loja é o meu quintal”.

É no jardim que ela encontra parte dos materiais incorporados às obras. Um galho caído pode deixar de ser resto para assumir outra função. Ao entrar na composição, não serve apenas para representar uma árvore ou oferecer apoio a um pássaro. Ele leva consigo sua origem, sua textura e o tempo vivido antes de ser recolhido. A natureza, portanto, não aparece somente como tema. Ela participa materialmente da construção do trabalho.

Esse procedimento também ajuda a compreender como Érica cria. Embora comece com um esboço, ela sabe que a obra dificilmente terminará como foi inicialmente imaginada. A composição se modifica durante o fazer. Os ramos bordados encontram direções próprias. As cores pedem aproximações ou afastamentos. Um pássaro pode aparecer ou desaparecer. A tela vai indicando possibilidades, e a artista responde a elas.

Érica descreve esse processo como uma conversa. A escolha da palavra me parece especialmente significativa. Conversar pressupõe disponibilidade para escutar e aceitar que nem tudo será decidido por uma única voz. Em seu trabalho, a matéria não é inteiramente submetida a um projeto anterior. Ela reage, oferece resistência, provoca mudanças e participa da criação.

Talvez por isso suas obras transmitam uma sensação de movimento, mesmo quando representam cenas de aparente quietude. As linhas percorrem a tela sem obedecer a uma rigidez geométrica. Os ramos se expandem. As folhas se acumulam. Os pássaros parecem ocupar um instante entre a permanência e o voo. Há composição, mas também há liberdade.

Em novembro de 2025, Entre Linhas Surgem Novos Caminhos reuniu dez telas em técnica mista na Galeria Amantikir. A primeira exposição individual de Érica, viabilizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, marcou a apresentação pública de uma pesquisa que havia começado de maneira despretensiosa. O que inicialmente era uma experiência com bordado sobre tela ganhou unidade, nome e espaço expositivo.

A escolha da Galeria Amantikir tornou esse encontro ainda mais coerente. Com grandes janelas abertas para a paisagem de Penedo e para a Serra da Índia, o espaço colocou as obras em contato direto com o ambiente que as inspirou. Dentro da galeria, os pássaros, folhas e galhos reapareciam transformados pela linguagem da artista. Do lado de fora, a natureza continuava seu próprio movimento.

Mas a trajetória da exposição não se encerrou naquela primeira montagem. Depois da temporada na Galeria Amantikir, as obras seguiram para o Parque Nacional do Itatiaia. Inserida em outro espaço profundamente vinculado à paisagem e à preservação ambiental, a mostra encontrou novas possibilidades de leitura e alcançou um público ampliado. A recepção foi bastante positiva e levou, inclusive, à extensão de sua permanência no local.

A circulação permitiu que Entre Linhas Surgem Novos Caminhos também se transformasse. Embora as obras permanecessem em parte as mesmas, cada novo espaço alterava a relação entre elas, o ambiente e o público. Ao deixar a galeria e ocupar locais vinculados diretamente à natureza, a exposição se aproximava ainda mais do território que havia dado origem às imagens, aos materiais e ao próprio processo criativo de Érica.

Entre junho e julho de 2026, a exposição ganhou uma nova temporada na sede do Parque Estadual da Pedra Selada, em Visconde de Mauá, também no estado do Rio de Janeiro. Mais uma vez, as obras foram apresentadas em um contexto no qual arte, paisagem e consciência ambiental podiam ser percebidas como partes de uma mesma experiência.

Essas diferentes montagens também amadureceram o percurso da exposição. O que começou como a primeira mostra individual de Érica passou a construir uma trajetória própria, circulando por espaços distintos e renovando, em cada um deles, o encontro com o público. A exposição deixou de representar apenas a chegada da artista às artes visuais e passou a revelar a continuidade de uma pesquisa que segue encontrando novos lugares para existir.

Ao rever o depoimento de Érica e as imagens daquela exposição, o que mais me interessa não é apenas o resultado alcançado. É o percurso. Sua trajetória mostra que uma linguagem artística pode surgir quando alguém reconhece valor no que já viveu, mas se permite deslocar esse conhecimento para outro território.

Érica não precisou apagar a profissional que veio da moda e do design para se afirmar como artista plástica. Foi exatamente essa experiência anterior que lhe ofereceu parte dos instrumentos com os quais hoje trabalha. A nova linguagem não substituiu sua história. Ela reorganizou essa história.

Também há em seu trabalho um desejo muito claro de compartilhamento. Érica não fala apenas sobre aquilo que recebe da natureza, mas sobre a vontade de dividir essa experiência com outras pessoas. Suas obras nascem de um encantamento cotidiano que ela procura transformar em encontro. Não se trata somente de reproduzir pássaros ou paisagens, mas de criar condições para que o público perceba algo da convivência que originou aquelas imagens.

Esse gesto talvez explique a delicadeza de seu trabalho sem reduzi-lo a uma ideia meramente decorativa. Existe beleza, mas existe também uma escolha de atenção. Em um cotidiano marcado pela velocidade e pelo descarte, Érica recolhe o que caiu, observa o que passa despercebido e dedica tempo a processos que não podem ser apressados. Bordar exige permanência. Escutar a obra também.

Entre linhas, tecidos, galhos e pássaros, Érica Miranda encontrou mais do que uma técnica. Encontrou uma maneira de reunir experiências, território e sensibilidade. Sua trajetória profissional não avançou pela negação do passado, mas pela capacidade de perceber que aquilo que parecia pertencer a outro momento ainda poderia produzir novos sentidos.

Os caminhos que surgem em suas telas são também os caminhos de sua própria formação. Não são retos nem inteiramente planejados. Modificam-se durante o percurso, seguem direções inesperadas e se constroem no diálogo entre intenção e descoberta.

Como os ramos que Érica borda, sua trajetória continua encontrando espaço para crescer.

Conheça mais de suas obras: https://www.instagram.com/flammboatelier/

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