UMA IDEIA NA CABEÇA E MUITOS CAMINHOS PARA FAZER CULTURA

Por Bia Ramsthaler | @biaramsthaler

Livro de Dinho Santoz percorre a memória do cinema no Alto Tietê e, em ações realizadas em Suzano, reúne artistas, realizadores e produtores para pensar não apenas a história do audiovisual na região, mas os caminhos possíveis para continuar produzindo cultura.

Há uma frase que atravessa a história do cinema brasileiro e que, de tanto repetida, quase se tornou uma espécie de síntese de uma maneira de fazer: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, associada a Glauber Rocha e ao Cinema Novo. Dinho Santoz inverte a ordem para dar título ao livro Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão: No rastro do cinema do Alto Tietê. Mas, depois de acompanhar as ações que marcaram o lançamento da publicação em Suzano, fiquei pensando que talvez essa ideia possa ser estendida muito além do cinema.

Porque fazer cultura é, em grande medida, isso: ter uma ideia e procurar os meios para realizá-la. Com pouco dinheiro, com muito dinheiro — situação raríssima no setor — ou, tantas vezes, sem dinheiro algum. É criar condições, estabelecer parcerias, reunir pessoas, ocupar espaços, aprender enquanto se faz e continuar fazendo.

É justamente aí que o livro de Dinho Santoz encontra seu sentido mais interessante. Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão nasceu de uma pesquisa documental, de visitas a acervos e de entrevistas e percorre a relação com o cinema em seis cidades do Alto Tietê: Suzano, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Guararema, Poá e Ferraz de Vasconcelos. Ao mesmo tempo em que recupera antigas salas de rua e histórias que corriam o risco de desaparecer, a pesquisa volta o olhar para quem continua produzindo audiovisual na região.

É importante essa dupla perspectiva. Não se trata apenas de perguntar o que existiu aqui?, mas também quem está fazendo agora?

O livro tem texto, edição e pesquisa de Dinho Santoz e assistência de produção de Van Alves, projeto gráfico e diagramação de Jucélia Santos e traz na capa Madame Naif (2021), óleo sobre tela de Johnnas Oliva. Publicada pela Sete Veredas Produções, a obra integra projeto contemplado pelo Edital Fomento CultSP – PNAB nº 46/2024 – Realização de Pesquisa e Publicação de Estudo Cultural.

E é interessante que o projeto não tenha terminado no livro. Ao contrário: a publicação se tornou um ponto de partida para encontros.

Da memória à criação

O primeiro aconteceu no dia 17 de setembro, no Cineteatro Wilma Bentivegna, no Polo de Música e Audiovisual de Suzano. O ator, diretor, roteirista e artista visual Johnnas Oliva conduziu o workshop “Cinema e Memória Cultural”, acompanhado da exibição de quatro curtas-metragens dirigidos por ele.

Antes da atividade, estivemos no Casarão da Memória de Suzano. E houve ali uma dessas coincidências que parecem organizar uma história antes mesmo que a gente perceba: algumas das imagens preservadas no acervo jornalístico do Casarão também estão no livro que nos levara à cidade.

Começamos, portanto, falando de cinema dentro de um lugar dedicado à memória.

No workshop, Johnnas mostrou como acontecimentos, afetos, relações familiares e lembranças pessoais podem ser matéria de criação sem que a ficção precise simplesmente reproduzir a vida. Falou de roteiro, direção, atuação e trajetória profissional a partir da própria experiência.

Um dos momentos mais significativos veio com Charles e Seus Dias de Chaplin, dirigido por Johnnas e protagonizado por seu pai. A história dialoga com a experiência real de um homem que foi imitador de Charlie Chaplin, andava de patins e chegou a participar de programas de televisão. A memória particular torna-se ponto de partida para falar de identidade, envelhecimento, relações familiares e vontade de viver.

Era difícil encontrar exemplo melhor para uma oficina sobre cinema e memória.

E havia ainda outra conexão. Johnnas, hoje em evidência também por seu trabalho como ator, é o artista plástico responsável pela obra que ocupa a capa do livro. Madame Naif coloca, já na primeira imagem da publicação, outra dimensão de um artista que transita entre linguagens.

O workshop contou integralmente com interpretação em Libras, inclusive durante as conversas e exibições.

Aprender fazendo

No domingo, 20 de setembro, o projeto chegou à Casa Beija-Flor, em Suzano, para uma segunda ação formativa, desta vez com Wilson Feitosa conduzindo a oficina “Produção Audiovisual Comunitária”.

A proposta era aproximar a realização audiovisual da comunidade a partir de ferramentas e recursos acessíveis. Mas o que aconteceu ali ultrapassou, para mim, a ideia de uma oficina.

As conversas acabaram convergindo para uma questão que acompanha quem trabalha com cultura: como fazer?

Como transformar uma ideia em alguma coisa que exista no mundo? Como começar? Como trabalhar com os recursos disponíveis? Como aprender aquilo que ainda não se sabe? Como encontrar parceiros? Como produzir quando as condições estão longe das ideais?

Não se trata de romantizar a precariedade. Cultura precisa de investimento, políticas públicas, remuneração e condições adequadas de trabalho. Mas quem vive o setor conhece também outra realidade: inúmeras obras, projetos, grupos e trajetórias começaram porque alguém decidiu arregaçar as mangas e descobrir um caminho possível.

Nesse sentido, o título do livro parecia estar espalhado pela Casa Beija-Flor naquele domingo.

Quando a memória volta à tela

A programação incluiu ainda a exibição de Doc Cine Saci – O que uma cidade perde quando morre um cinema de rua, codirigido por Van Alves e Tiz Juska.

O documentário recupera a história do Cine Saci, uma das antigas salas pesquisadas por Dinho no livro, e nasceu a partir da oficina de introdução à produção de documentários “Jovens Olhares”, promovida pela Prefeitura de Suzano, por meio da Secretaria de Cultura, em parceria com a Itapeti Filmes.

Há algo particularmente bonito nessa presença do filme dentro do lançamento.

O Cine Saci aparece como memória pesquisada no livro e retorna, agora, transformado em audiovisual. A sala que deixou de existir permanece como narrativa, imagem, lembrança e pergunta.

E Van Alves ocupa um lugar importante nesse movimento. Assistente de produção do projeto editorial, ela é também uma das realizadoras do filme exibido. Não está apenas ajudando a preservar uma história: está produzindo a partir dela.

Livro, documentário, oficina e conversa deixam, assim, de ser acontecimentos separados. Um alimenta o outro.

A coragem de fazer

Conheço Dinho Santoz há tempo suficiente para saber que existe uma característica que atravessa seu trabalho: uma enorme capacidade de articulação associada a uma disposição permanente para fazer.

Dinho circula pelo audiovisual, pelo teatro, pela literatura, pela produção e pela gestão cultural. Aprende fazendo, estabelece conexões, inventa soluções e coloca projetos de pé. Mas há algo que considero igualmente importante nessa trajetória: a disposição para fazer nunca significou fazer de qualquer jeito.

Existe um cuidado muito fino em seu trabalho. Uma atenção à imagem, ao texto, à edição, às pessoas e ao resultado. Suas produções carregam essa combinação, nem sempre fácil, entre a coragem de começar e o rigor necessário para terminar bem.

Talvez por isso este livro fale tanto sobre ele mesmo quando pretende falar sobre uma região.

Ao procurar quem construiu e quem continua construindo o cinema do Alto Tietê, Dinho realiza exatamente aquilo que pesquisa: articula pessoas, recupera histórias, produz memória e cria condições para novos encontros.

Uma cidade conhecida por seus encontros

Foi minha primeira vez em Suzano. E foi justamente a Casa Beija-Flor o lugar desse primeiro encontro com a cidade. Mais do que conhecer um espaço cultural que me encantou, tive ali a oportunidade de encontrar pessoas que estão pensando, produzindo, ensinando, registrando e fazendo circular cultura em Suzano. A potência dessas trocas foi, para mim, uma das experiências mais especiais daquele dia.

O encontro na Beija-Flor foi especialmente potente. Pelo espaço, pela produção, pelas pessoas presentes e, sobretudo, pela qualidade das trocas que aconteceram ali.

Saí de Suzano muito feliz. Talvez porque tenha ido até lá acompanhando o lançamento de um livro dedicado aos rastros do cinema e tenha encontrado algo ainda mais surpreendente: não apenas os rastros daquilo que já aconteceu, mas gente produzindo aquilo que, amanhã, será também memória.

No fim, uma ideia na cabeça e uma câmera na mão talvez seja exatamente isso.

Olhar para aquilo que existe, reconhecer aquilo que falta e, ainda assim, começar.

Sobre o livro

Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão: No rastro do cinema do Alto Tietê

Texto, edição e pesquisa: Dinho Santoz

Pesquisa: Beatriz Helena Ramsthaler Figueiredo

Assistência de produção: Van Alves

Projeto gráfico e diagramação: Jucélia Santos

Capa: Madame Naif (2021), óleo sobre tela de Johnnas Oliva

A publicação percorre a história do audiovisual em Suzano, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Guararema, Poá e Ferraz de Vasconcelos e está disponível gratuitamente também em versão digital.

Leia gratuitamente “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *