
Elenco do espetáculo infantil O Bocejo da Serpente: Roberta Araujo, Thaís Melo, Luz Ribeiro e Bárbara Arakaki – de Marina Esteves e Rafaela Penteado – obra livremente inspirada no livro homônimo da poeta Antônia Gomes Minchoni | FOTO: José de Holanda / divulgação
O Bocejo da Serpente transforma poesia em corpo, música, desenho, brincadeira e imaginação e faz do encontro com as infâncias um exercício delicioso de reaprender a olhar
Por tOn Miranda
Onde a poesia se esconde quando as palavras desaparecem?
Talvez esteja justamente aí a pergunta mais bonita que O Bocejo da Serpente deixa pairando no Auditório do Itaú Cultural. Inspirado livremente no livro homônimo da poeta Antônia Gomes Minchoni, o espetáculo dirigido por Marina Esteves parte de uma premissa aparentemente simples: poemas e desenhos desapareceram misteriosamente e quatro personagens embarcam em uma jornada para recuperá-los. Mas basta a aventura começar para percebermos que procurar aquilo que sumiu é apenas uma das camadas de uma obra que fala, sobretudo, sobre descobrir outros lugares onde a poesia pode existir.
Porque poesia não mora apenas no poema.
Ela pode estar numa palavra. Num desenho. Num gesto inesperado. No movimento de um corpo. Numa música. Numa gargalhada. No espanto diante de alguma coisa que ainda não sabemos nomear. Pode surgir de uma brincadeira e, de repente, transformar nossa maneira de enxergar aquilo que estava diante dos nossos olhos o tempo inteiro.
É justamente aí que O Bocejo da Serpente encontra uma de suas maiores delicadezas: em vez de explicar poesia às crianças, convida-as a experimentá-la.
A dramaturgia de Marina Esteves e Rafaela Penteado compreende muito bem essa diferença. Não parece interessada em transformar o palco numa sala de aula ou a literatura em conteúdo pedagógico. Ao contrário, cria situações nas quais palavra, desenho, imaginação, humor, corpo e música vão se contaminando. A poesia deixa de ser alguma coisa que precisa ser decifrada para se tornar algo que pode ser vivido. E viver poesia também significa brincar.
Quando procurar é também inventar
O desaparecimento dos poemas e desenhos estabelece uma espécie de jogo de investigação. Há algo que falta. Há um mistério. É preciso procurar. E essa busca mobiliza temas que atravessam profundamente o universo das infâncias: curiosidade, descoberta, imaginação, memória, criatividade, colaboração, autonomia e capacidade de invenção.
Existe algo especialmente interessante em uma obra para crianças que parte da ausência. Porque aquilo que desaparece abre um espaço vazio e todo espaço vazio pode ser assustador, mas também pode ser preenchido por possibilidades. Onde foram parar os poemas? Onde estão os desenhos? E o que acontece enquanto procuramos por eles? Talvez encontremos outras coisas.
A dramaturgia parece compreender que a criança não precisa receber todas as respostas prontas. Ela pode investigar, suspeitar, imaginar, completar lacunas, construir hipóteses. Nesse sentido, O Bocejo da Serpente valoriza algo fundamental na experiência artística das infâncias: o direito de fabular.
A criança deixa de ser apenas espectadora de uma história e passa simbolicamente a compartilhar sua investigação. É também por isso que temas aparentemente periféricos ganham força dentro da montagem: a relação entre literatura e artes visuais, o jogo, o mistério, a expressão corporal, a musicalidade, a percepção do cotidiano, o encantamento e a criação coletiva. Tudo parece convergir para uma ideia maior: existem muitas maneiras de compreender e produzir sentido sobre o mundo.
Marina Esteves e uma direção que confia no jogo
Há uma inteligência especial na direção de Marina Esteves ao permitir que essas diferentes linguagens convivam sem que uma precise explicar a outra.
Marina, que também assina a concepção e o dispositivo de criação do espetáculo, além de dividir o texto com Rafaela Penteado, conduz uma encenação que encontra potência justamente na multiplicidade. A palavra pode provocar o movimento. O corpo pode continuar aquilo que a palavra começou. Uma imagem pode produzir uma pergunta. O humor pode quebrar uma expectativa. A música pode criar outro território para aquilo que estava sendo dito.
Sua direção parece confiar no jogo e, principalmente, confiar na inteligência da criança. Essa confiança é preciosa.
Há uma diferença enorme entre fazer teatro para crianças e fazer teatro disposto a conversar com elas. O Bocejo da Serpente parece escolher o segundo caminho, estabelecendo uma relação na qual a imaginação infantil não é tratada como algo menor ou simplificado, mas como uma poderosa ferramenta de leitura do mundo. E Marina conta com um quarteto de atrizes criadoras formado por Bárbara Arakaki, Luz Ribeiro, Thaís Melo e Roberta Araújo, que dá corpo a esse universo e sustenta o jogo entre palavra, movimento, comicidade e invenção.
Bárbara Arakaki e a deliciosa arte de roubar a cena
Entre um elenco entregue ao universo proposto pela montagem, é impossível não abrir um parêntese especial para Bárbara Arakaki.
Bárbara “rouba” deliciosamente a cena.
E rouba no melhor sentido que essa expressão pode ter no teatro. Com uma atuação extrovertida, espirituosa e engraçadíssima, a atriz parece compreender com enorme precisão o tempo da comicidade e a relação direta que uma obra como essa estabelece com sua plateia. Há uma presença expansiva que imediatamente captura o olhar, sem que isso signifique abandonar o jogo coletivo.
Seu humor não parece surgir como um elemento colocado à parte da dramaturgia. Ele participa dela. Bárbara transforma reação em acontecimento, gesto em piada, presença em comunicação. É aquela qualidade rara de intérprete que consegue fazer o público antecipar a graça simplesmente porque alguma coisa começou a acontecer em seu corpo.
E as crianças percebem isso imediatamente. Talvez porque o humor infantil seja muito mais sofisticado do que frequentemente imaginamos. Ele reconhece exageros, repetições, silêncios, pequenas quebras de expectativa, expressões corporais e cumplicidades. E Bárbara parece navegar por esse território com uma liberdade contagiante.
Quando Chico César transforma poesia em canção

Chico César – autor e cantor da trilha original para o espetáculo O Bocejo da Serpente | FOTO: divulgação
Se a montagem propõe diferentes maneiras de viver a poesia, a música naturalmente precisava ocupar um lugar importante nessa experiência. E ocupa.
As composições musicais originais são assinadas por Chico César (eu acho um luxo necessário), cuja própria voz também integra a trilha sonora da peça. A presença de Chico amplia de maneira muito especial o universo poético da montagem. Não se trata apenas de acompanhar cenas musicalmente. As canções ajudam a demonstrar justamente aquilo que o espetáculo parece defender desde o início: um poema pode abandonar o papel e continuar existindo em outras formas.
Quando encontra melodia, ritmo e voz, a palavra ganha outro corpo. Quando essa voz é a de Chico César, artista cuja obra há décadas constrói pontes entre poesia e música popular brasileira, essa relação ganha ainda outra camada de significado.
Sua participação sonora não funciona como uma assinatura de prestígio colocada sobre a montagem. Ela conversa organicamente com a proposta artística. A poesia escrita por Antônia Gomes Minchoni encontra a dramaturgia, que encontra os corpos das atrizes, que encontra a música, que encontra novamente a palavra.
É quase um movimento circular. A poesia vai embora para poder voltar diferente.
Formar público também é formar sensibilidade
Talvez seja aqui que O Bocejo da Serpente ultrapasse sua aventura e encontre uma dimensão ainda mais importante. Estamos falando de formação de público e de plateia, sim, mas talvez devêssemos falar também em formação de sensibilidade.
Levar uma criança ao teatro não significa apenas apresentar a ela um palco, ensinar quando as luzes se apagam ou estabelecer códigos de comportamento de uma plateia. Formação de público acontece verdadeiramente quando uma experiência artística produz curiosidade suficiente para que aquela criança queira encontrar outra obra. E outra. E outra.
Quando ela percebe que teatro pode ser um lugar onde coisas estranhas, engraçadas, bonitas, misteriosas e inexplicáveis acontecem. Quando descobre que um poema não precisa necessariamente significar uma coisa só. Quando entende que um desenho pode conversar com uma música. Que um corpo também escreve. Que uma gargalhada também produz memória. Que imaginar é uma forma legítima de compreender o mundo.
Nesse sentido, O Bocejo da Serpente trabalha simultaneamente com literatura, poesia, artes visuais, música, movimento, expressão corporal, humor e teatralidade, mas também com temas menos evidentes e igualmente importantes: curiosidade, colaboração, escuta, memória, ausência, descoberta, autonomia imaginativa, criatividade, investigação, pertencimento ao jogo coletivo e liberdade de interpretação.
Não são assuntos apresentados como uma lista de ensinamentos. Estão entranhados na própria experiência. E talvez seja exatamente assim que devam chegar às crianças. A criança que existe em todas as idades
Há ainda algo bonito na classificação livre de uma obra como essa: a possibilidade de que seu convite não termine na infância cronológica. Porque adultos também desaprendem a imaginar. Talvez até mais do que as crianças. Em algum momento passamos a procurar utilidade em tudo. Queremos entender rapidamente. Explicar. Classificar. Descobrir o significado correto. Perguntar o que o autor quis dizer. As crianças frequentemente fazem o movimento contrário. Elas perguntam: “E se?” E se a serpente bocejar? E se os poemas desaparecerem? E se um desenho estiver escondido? E se uma palavra puder virar música? E se aquilo que estamos procurando estiver bem diante da gente, mas precisarmos aprender a olhar novamente?
É por isso que O Bocejo da Serpente pode encontrar tanto as crianças quanto os adultos que chegam com elas ao teatro. Talvez os pequenos reconheçam imediatamente aquele universo. E talvez sejamos nós, adultos, que precisemos recuperá-lo. Porque, no fundo, a busca empreendida pelas quatro personagens pode ser também a nossa. Procuramos poemas e desenhos desaparecidos e terminamos encontrando curiosidade, música, corpo, humor, memória, imagens, palavras, brincadeiras e novas maneiras de perceber o mundo.
A poesia, afinal, talvez nunca tenha desaparecido. Talvez apenas tenhamos parado de procurá-la nos lugares certos. E O Bocejo da Serpente faz algo bonito e necessário ao nos lembrar disso: às vezes é preciso voltar a olhar o mundo com olhos de criança para perceber que ele continua cheio de poesia.

O Bocejo da Serpente em cartaz até novembro de 2026 no Auditório do Itaú Cultural aos domingos às 16h | FOTO: José de Holanda / divulgação
