Um sopro de vida e arte | Meu Olhar

por @biaramsthaler

Há quem passe a vida inteira no teatro sem jamais ser visto. E, ainda assim, sem essas pessoas, o espetáculo simplesmente não existiria.

Ontem assisti a Sopro, no Sesc 14 Bis, e saí encantada com a inteligência, a sensibilidade e a beleza desse espetáculo.

Com uma dramaturgia absolutamente genial do português Tiago Rodrigues, direção sensível e primorosa de Marco Antonio Rodrigues e trilha sonora original de Zeca Baleiro, a peça é uma belíssima declaração de amor ao teatro. Mas, sobretudo, àqueles que fazem o teatro acontecer longe dos olhos do público.

A protagonista é uma mulher que dedicou sua vida ao ofício de ponto, aquela pessoa que, escondida nas sombras, sopra as falas aos atores. Uma mulher que conhece cada palavra, cada gesto, cada silêncio. Que guarda a memória de tudo, mas foi treinada para não ser vista.

A peça é inspirada na história real de Cristina Vidal, que trabalhou durante décadas como ponto no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Talvez seja justamente essa origem tão profundamente humana que torne a dramaturgia ainda mais emocionante: dar voz e presença a alguém cuja profissão era, precisamente, permanecer invisível.

Até que, na ficção, essa mulher é convidada a ocupar o palco. É aí que a genialidade do texto ganha uma dimensão ainda mais comovente.

Para quem trabalha com arte e cultura, essa história tem um significado muito especial. Porque sabemos que, por trás de cada espetáculo, existem dezenas de pessoas que criam, imaginam, produzem, resolvem, sustentam e tornam possível aquilo que o público vê.

Muitas vezes, escolhemos esse lugar. Aprendemos a amar os bastidores, a encontrar realização no trabalho que aparece através do outro. E nos acostumamos à invisibilidade, não como ausência, mas como parte da nossa própria maneira de existir no teatro.

Sopro nos lembra que estar fora da luz não significa estar fora da cena e que a memória do teatro também pertence àqueles cujos nomes nem sempre chegam aos aplausos.

O espetáculo conta com um elenco extraordinário: Amanda Acosta, Biah Ramos, Dagoberto Feliz, Mada Rocco, Nicolas Trevijano e Noemi Marinho. Um trabalho coletivo de enorme qualidade, com interpretações que dão vida, delicadeza, humor e profundidade a essa dramaturgia tão especial.

Quero dar aqui um destaque especial para Dagoberto Feliz e Noemi Marinho, que me emocionaram profundamente. Que alegria encontrar artistas dessa grandeza em cena!

Saí do teatro pensando em quantas vidas existem dentro de um espetáculo. E em como é bonito quando a arte resolve olhar para aqueles que, durante tanto tempo, ajudaram a iluminar os outros.

Sopro é teatro falando de teatro. Mas é também uma reflexão profundamente humana sobre memória, pertencimento, reconhecimento e sobre a importância de cada pessoa na construção de algo coletivo.

Preciso terminar celebrando o Sesc 14 Bis. Que espaço fantástico! Mais uma demonstração da importância extraordinária do Sesc para a vida cultural de São Paulo e do Brasil. Uma instituição que acolhe artistas, valoriza a criação, forma públicos e nos oferece a possibilidade de encontros tão transformadores com a arte.

Viva o teatro! Viva quem está em cena e quem faz a cena existir!

Assistam a Sopro! É daqueles espetáculos que permanecem dentro da gente muito depois que as luzes se apagam.

📍 Teatro Raul Cortez — Sesc 14 Bis, São Paulo
📅 Em cartaz até 15 de novembro de 2026.

@SOPRO

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