Depois de assistir à montagem em São Paulo, recomendo ao público carioca um espetáculo que reúne interpretações extraordinárias, uma encenação inventiva e uma história profundamente humana.
Por @biaramsthaler

Há espetáculos que nos impressionam pela grandiosidade da produção. Outros, pela força de seus intérpretes. E há aqueles que conseguem reunir tudo isso sem perder a delicadeza. Foi essa a sensação que tive ao assistir, em São Paulo, a Feliz Ano Velho – O Musical | @felizanovelhomusical , que chega ao Teatro Riachuelo Rio para uma temporada de 14 de janeiro a 28 de fevereiro de 2027.
Inspirado no romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva | @marcelorubenspaiva , publicado em 1982, o espetáculo revisita um dos momentos mais difíceis da vida do escritor: o acidente que sofreu aos 20 anos e que o deixou tetraplégico, dando início a um longo processo de reabilitação e reconstrução de sua existência.
É uma história densa, atravessada pela dor, pelas incertezas e pela necessidade de reinventar a própria vida. Mas o que mais me impressionou nessa montagem foi justamente a maneira como a direção de Gustavo Barchilon | @gustavobarchilon , com dramaturgia de Marilia Toledo | @mariliatoledo2012 , a partir da peça de Alcides Nogueira, encontra um caminho sensível para contar essa trajetória. Não há excessos na abordagem do sofrimento. Há cuidado, humanidade e um fio de esperança que percorre toda a narrativa.
A encenação é especialmente feliz ao construir um universo no qual memória, sonho, realidade e estados quase alucinatórios se encontram. O trabalho com as imagens e os recursos audiovisuais é um dos grandes méritos da montagem. As projeções não aparecem como simples elementos decorativos, mas participam efetivamente da dramaturgia, criando atmosferas, deslocando percepções e dando materialidade àquilo que se passa no universo interior do protagonista.
Tudo isso acontece em um diálogo muito bem construído entre interpretação, música, iluminação, cenografia e movimento. O resultado é uma linguagem cênica contemporânea, criativa e profundamente envolvente.
Hugo Bonemer | @hugobonemer merece um destaque especial. Acompanho sua trajetória há muitos anos, desde que o vi pela primeira vez em Hair, na montagem de Charles Möeller e Claudio Botelho. Ao longo desse percurso, tive também a oportunidade de entrevistá-lo e de acompanhar seu trabalho no teatro musical e no teatro de prosa.
Hugo sempre foi um artista de grande versatilidade, mas o que apresenta em Feliz Ano Velho revela um amadurecimento artístico extraordinário. Sua presença em cena é intensa, sua interpretação é precisa e sua capacidade de transitar entre diferentes estados emocionais impressiona. Há uma qualidade de escuta, de expressão corporal e de construção da personagem que faz de sua atuação um dos pontos mais altos do espetáculo. É bonito acompanhar o crescimento de um artista que já era muito bom e que agora alcança um patamar de excelência tão evidente.

Quero destacar também Mateus Ribeiro | @mateusribeir0 , um desses atores que possuem uma qualidade rara: a capacidade de transformar até mesmo uma breve passagem pelo palco em uma experiência de enorme potência. Sua presença captura o olhar. Há algo de profundamente magnético em sua interpretação, uma força que não depende do tempo de cena, mas da intensidade e da verdade com que ocupa aquele espaço. É um artista que sempre me impressiona e que, mais uma vez, confirma seu talento.
O elenco, que conta ainda com Bruno Garcia e Heloísa Périssé, contribui para a construção de uma narrativa que exige dos intérpretes sensibilidade e disponibilidade para transitar entre diferentes tempos, afetos e dimensões da memória.
A trilha musical, construída a partir de canções que marcaram os anos 1980, com repertório de artistas como Legião Urbana, Titãs, Lulu Santos e Barão Vermelho, acrescenta outra camada de significado à montagem. Mais do que despertar a nostalgia de uma geração, essas músicas ajudam a reconstruir uma atmosfera afetiva e cultural, aproximando o público das inquietações, dos desejos e das contradições daquele período.
Mas talvez a maior qualidade de Feliz Ano Velho – O Musical esteja em sua capacidade de nos fazer refletir sobre a fragilidade da vida sem reduzir a existência humana à experiência da dor. O espetáculo fala de perdas, de rupturas e de limites, mas também de afeto, de juventude, de memória e da possibilidade de continuar vivendo, mesmo quando a vida já não corresponde àquilo que imaginávamos.
Saí do teatro impressionada com a qualidade artística da montagem e, sobretudo, com a delicadeza de sua abordagem. É um espetáculo que emociona sem recorrer a sentimentalismos fáceis, que encontra beleza sem suavizar artificialmente a dureza da história e que nos convida a olhar para a vida em toda a sua complexidade.

Ao público carioca, deixo uma recomendação muito especial: assistam a Feliz Ano Velho – O Musical. É uma experiência teatral que merece ser vivida, não apenas pela excelência de sua realização artística, mas pela sensibilidade com que nos lembra da extraordinária capacidade humana de reconstruir caminhos.
Em São Paulo até 22 de novembro,
Teatro Sabesp Frei Caneca
Serviço – Feliz Ano Velho – O Musical
Local: Teatro Riachuelo Rio – Rio de Janeiro | @teatroriachuelorio
Temporada: 14 de janeiro a 28 de fevereiro de 2027
Horários: Quinta, sexta e sábado, às 20h; domingo, às 17h
Ingressos: De R$ 25 a R$ 220
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 120 minutos
Direção: Gustavo Barchilon
Dramaturgia: Marilia Toledo, a partir do texto teatral de Alcides Nogueira, inspirado no romance de Marcelo Rubens Paiva
Produção: Barho Produções
Apresentação: Ministério da Cultura e Petrobras
