
Premiada como Melhor Atriz Coadjuvante no 54º Festival de Cinema de Gramado por “Pele de Rinoceronte”, Naruna Costa reafirma a força de uma carreira que atravessa cinema, televisão, música e teatro sem jamais abandonar o território, a memória e a presença negra como fundamentos de sua criação.
Por tOn Miranda
“Tudo, tudo, tudo, tudo que nóis tem é nóis” como versaria Emicida, pois há prêmios que celebram uma atuação. E há aqueles que, ao pousarem nas mãos de uma artista, parecem iluminar também tudo aquilo que foi construído antes deles.
O Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante conquistado por Naruna Costa, no 54º Festival de Cinema de Gramado, pertence um pouco a essas duas dimensões.
A atriz foi premiada por sua atuação em “Pele de Rinoceronte”, longa dirigido por Marcello Ludwig Maia, no qual interpreta Maria Thereza, advogada criminalista envolvida na estratégia de acusação contra o assassino de um crime inspirado no caso de Ângela Diniz. Na trama, sua personagem cruza os caminhos de uma repórter policial, interpretada por Débora Falabella, e da própria vítima, vivida por Camila Lucciola.
Receber um Kikito em Gramado tem um significado particular dentro do audiovisual brasileiro. Trata-se de um dos símbolos mais reconhecíveis de nossa cinematografia e de um festival que, há décadas, funciona como espaço de encontro, visibilidade e reconhecimento da produção nacional. Para Naruna, entretanto, a conquista parece carregar uma camada adicional: não é apenas uma grande atriz sendo premiada por mais uma grande interpretação. É uma artista de trajetória profundamente comprometida com aquilo que significa ocupar a cena.
E seu discurso ao receber o prêmio tornou isso ainda mais evidente. Naruna lembrou que seus pais foram lavradores e transformou a imagem da terra, da semente e daquilo que se planta em metáfora para sua própria caminhada. Disse que o prêmio significava para ela uma “boa vingança” e, em seguida, ampliou o sentido dessa expressão: uma vingança pela memória das mulheres assassinadas no país, vítimas de homens incapazes de suportar mulheres livres. É difícil separar a força dessas palavras da artista que as pronuncia.
Uma atriz que não passa simplesmente pelos personagens

Naruna Costa em “Pele de Rinoceronte” como Maria Thereza | FOTO: Cris Lucena / divulgação
Naruna Costa construiu uma carreira na qual interpretar nunca parece significar apenas vestir outra pessoa. Existe corpo, pensamento, memória e posicionamento em seu trabalho.
Nascida em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, Naruna fez de sua origem não uma nota biográfica, mas parte de uma elaboração artística. Sua trajetória é marcada justamente pela valorização poética das periferias paulistanas e pela afirmação da presença negra na cultura brasileira.
Essa relação entre arte e território talvez seja uma das chaves mais interessantes para compreender sua carreira. Mesmo quando alcançou projeção nacional no audiovisual, Naruna nunca pareceu tratar o teatro como uma etapa anterior de sua trajetória. Ao contrário. O teatro continua sendo chão.
Ela é uma das fundadoras do Grupo Clariô de Teatro e do Espaço Clariô, em Taboão da Serra, experiência fundamental para compreender não apenas sua formação artística, mas seu pensamento sobre produção, criação, circulação e acesso à cultura. O projeto nasceu justamente do desejo de produzir narrativas relacionadas à população e ao território onde aqueles artistas estavam inseridos, invertendo uma lógica histórica segundo a qual a periferia precisaria sempre se deslocar até o centro para encontrar arte.
Há algo muito potente nisso. Naruna não saiu da periferia para “chegar” à cultura. Ela ajudou a construir cultura a partir da periferia. E talvez seja justamente essa diferença que dê tamanha consistência à sua presença artística.
Da Cristina de “Irmandade” a Maria Thereza
Para uma parcela enorme do público brasileiro, o rosto de Naruna ganhou ainda mais reconhecimento quando ela protagonizou “Irmandade”, interpretando Cristina, personagem que a colocou no centro de uma narrativa atravessada pelo sistema prisional, pela violência institucional, pelas relações familiares e pelas contradições de uma sociedade profundamente desigual.
Mas reduzir sua trajetória ao sucesso da série seria ignorar uma caminhada extensa. No audiovisual, Naruna esteve em produções como “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, “Marighella”, “Todas as Flores”, “Beleza Fatal” e “Falas Negras”. Mais recentemente, participou da novela “Coração Acelerado” e do longa “Dolores”. O release de sua premiação ainda antecipa novos trabalhos, entre eles as séries “Instinto” e “Habeas Corpus” e os filmes “Amadeo”, “Delicadeza” e “Os Demônios da Rua Scarpa”.
São personagens e linguagens diferentes, mas existe algo reconhecível em sua maneira de atuar: Naruna parece compreender que presença não é sinônimo de excesso.
Há força no silêncio, no olhar, na escuta e na maneira como seu corpo ocupa o enquadramento. O Kikito por “Pele de Rinoceronte” chega, portanto, em um momento especialmente bonito dessa trajetória: quando reconhecimento, maturidade artística e diversidade de linguagens parecem se encontrar.
E então Naruna atravessa o palco e olha a cena do outro lado

Naruna Costa | FOTO: divulgação
Talvez uma das dimensões mais fascinantes de sua carreira esteja justamente aí. Naruna Costa não é somente uma grande atriz. É também uma importante diretora teatral brasileira. E não se trata de uma atividade paralela. Existe uma conversa profunda entre a atriz e a diretora. Naruna já disse que sua experiência como atriz de teatro de grupo interfere diretamente em sua maneira de dirigir: ao olhar um elenco “de fora”, leva consigo o conhecimento de quem conhece profundamente a cena por dentro.
Essa perspectiva encontrou um de seus momentos mais importantes em “Buraquinhos ou O Vento É Inimigo do Picumã”, texto de Jhonny Salaberg. A montagem aborda a violência contra corpos negros e teve na direção de Naruna uma condução que não separava linguagem, política e experiência. Pelo trabalho, ela tornou-se, em 2018, a primeira mulher negra a conquistar o Prêmio APCA na categoria de Melhor Direção teatral, um marco que ultrapassa qualquer currículo individual.
Quando uma artista negra é a primeira a ocupar determinado lugar depois de décadas de existência de uma premiação, a alegria da conquista inevitavelmente convive com uma pergunta: por que demorou tanto?
Naruna compreendeu isso naquele momento. Sua vitória abria simbolicamente uma porta para outras diretoras e outros jovens artistas negros que poderiam finalmente enxergar naquele lugar uma possibilidade concreta. E ela continuou.
Sua trajetória como encenadora, diretora musical, dramaturga e criadora passa pelo trabalho permanente com o Grupo Clariô. Em “Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto”, por exemplo, Naruna esteve envolvida na dramaturgia, direção e direção musical. Mais recentemente, assina a direção de “Casa do Norte”, montagem do Clariô que articula humor popular, música, memória, migração, pertencimento e direito ao território. Não parece coincidência. São obras interessadas em pessoas, territórios e memórias que durante muito tempo permaneceram nas bordas das narrativas oficiais.
Quando ganhar também significa permanecer
Talvez por isso a imagem da semente usada por Naruna no palco de Gramado seja tão bonita. Porque sua carreira é feita de plantio. Há o plantio da menina de Taboão da Serra que encontrou o teatro ainda adolescente. Há o da estudante que passou pela Escola de Arte Dramática da USP. Há o da artista que ajudou a construir o Clariô. Há o da atriz que atravessou palcos, novelas, séries e filmes. Há o da diretora que abriu caminhos. Há o da cantora e compositora. Há ainda a artista que hoje também compartilha conhecimento como professora do Curso de Atuações do Centro de Pesquisa Teatral.
E há mais sementes sendo preparadas. Naruna também se encaminha para sua estreia na direção de longas-metragens com um documentário sobre o poeta Sérgio Vaz, outro artista cuja trajetória coloca periferia, palavra e território no centro da criação. Por isso, o Kikito conquistado em Gramado é importante. Porque premia Maria Thereza. Premia a interpretação de Naruna em “Pele de Rinoceronte”. Mas, simbolicamente, encontra também Cristina, Antígona, Elza Soares e tantas mulheres que seu corpo já tornou possíveis diante de nossos olhos. Encontra a diretora. Encontra o Grupo Clariô. Encontra Taboão da Serra. Encontra uma mulher negra que aprendeu que o centro da cena não precisa necessariamente estar onde historicamente nos disseram que ele estava. O centro também pode ser construído onde se planta.
E Naruna Costa vem plantando há muito tempo. Agora, em Gramado, uma dessas sementes virou Kikito. Mas talvez a beleza maior de sua trajetória esteja justamente no fato de que, mesmo depois de colher, Naruna continua plantando.

A atriz, diretora, dramaturga, cantora e compositora Naruna Costa | FOTO: divulgação
