Nos 25 anos de Presença de Anita e no mês de aniversário de Agosto, uma leitura sobre repertório e construção de personagens na trajetória de José Mayer
Por Bia Ramsthaler – @biaramsthaler

Agosto reúne dois marcos da trajetória de José Mayer na televisão. Em 7 de agosto de 2026, Presença de Anita completou 25 anos de sua estreia. No dia 24, a minissérie Agosto, exibida pela primeira vez em 1993, completa 33 anos. Muito diferentes entre si, as duas produções ajudam a revelar a amplitude do repertório de José Mayer: em Presença de Anita, o ator vive um homem dominado pelo desejo e pelo ciúme; em Agosto, interpreta um comissário que investiga um crime em meio à corrupção e à crise política dos últimos dias do governo Vargas. As datas convidam a rever uma trajetória associada ao galã, mas construída sobre um repertório mais amplo.
Há atores que permanecem associados a um personagem. Outros participam de tantas histórias que acabam ligados não a um papel específico, mas a uma maneira de estar em cena. José Mayer pertence a esse segundo grupo. Durante décadas, seu rosto acompanhou o público brasileiro em personagens movidos pelo amor, pelo desejo, pelas disputas de poder e pelas contradições que se escondem sob uma aparência de segurança.
A televisão fez dele um dos galãs mais reconhecidos do país. A força dessa identificação, porém, nem sempre permitiu enxergar tudo o que havia por trás dela. Antes de ocupar esse lugar no imaginário popular, José Mayer já era um ator formado pelo palco, pelo contato com diferentes autores e pela experiência de compreender a cena também a partir da produção e da direção.
Olhar para seu trabalho para além do galã não significa negar a importância dessa imagem. Significa perceber como ela foi construída, tensionada e algumas vezes contrariada pelo próprio ator. É justamente nessa distância entre o tipo reconhecido pelo público e a variedade de seu repertório que sua trajetória artística ganha novas possibilidades de leitura.
Antes da imagem, o ator
Muito antes de se tornar uma presença habitual nas novelas, José Mayer encontrou no teatro um espaço de formação e exercício profissional. Seu repertório passou por textos de Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar, Albert Camus, Bertolt Brecht, Leilah Assumpção, Nelson Rodrigues e Alcione Araújo. São autores que propõem diferentes relações entre indivíduo e sociedade, intimidade e conflito, palavra e ação.
O teatro também lhe ofereceu uma compreensão ampliada do fazer artístico. No início da carreira, Mayer não se limitou à atuação. Trabalhou como produtor e diretor, aproximando-se dos muitos elementos que sustentam uma montagem. Essa experiência ajuda a compreender uma característica que permaneceria em seus trabalhos posteriores: a atenção à composição do personagem, não apenas como figura isolada, mas como parte de uma estrutura dramatúrgica.
Quando chegou à televisão, no começo dos anos 1980, levava consigo uma vivência construída fora dos estúdios. O palco o havia ensinado a sustentar o tempo da cena, a trabalhar a presença física e a perceber as relações que se estabelecem entre texto, espaço e público. A popularidade viria depois, mas encontraria um ator que já conhecia o ofício por diferentes perspectivas.
A televisão e a construção de uma presença
A projeção nacional veio com Bandidos da Falange, minissérie de 1983 escrita por Aguinaldo Silva, com colaboração de Doc Comparato. José Mayer interpretou Jorge Fernando em uma narrativa marcada pelo crime, pela corrupção, pela violência e pelas disputas políticas. O trabalho o apresentou a um público amplo e abriu uma sequência de encontros com personagens inseridos em contextos sociais e históricos complexos.
Nos anos seguintes, obras como O Pagador de Promessas, Agosto e Presença de Anita demonstraram a amplitude de sua participação na teledramaturgia. São produções muito diferentes entre si, mas que colocaram o ator diante de personagens confrontados por forças maiores do que suas vontades individuais. A história, a religião, a política, o desejo e a moralidade não apareciam apenas como temas. Eram elementos capazes de pressionar e transformar aqueles homens.
Em O Pagador de Promessas, adaptação da obra de Dias Gomes exibida em 1988, Mayer viveu Zé do Burro, homem que carrega uma promessa, uma cruz e uma convicção que não encontra acolhimento nas instituições. A obstinação do personagem nasce de uma fé simples e inegociável. Não há nele o domínio normalmente associado ao galã, mas a determinação de quem permanece fiel à própria palavra, mesmo sem compreender inteiramente as forças que se organizam contra ele.

Em Agosto, minissérie que estreou em 24 de agosto de 1993, exatamente 39 anos após a morte de Getúlio Vargas, interpretou o comissário Alberto Mattos, investigador envolvido em uma trama que aproximava ficção policial e crise política nos últimos dias do governo Vargas. A contenção do personagem, seu desgaste físico e a progressiva percepção de um mundo em decomposição exigiam uma atuação distante do apelo romântico.
Em Presença de Anita, exibida a partir de 7 de agosto de 2001, Mayer interpretou Fernando, arquiteto que desejava se tornar escritor e encontrou na jovem Anita a projeção de suas fantasias e frustrações. Vinte e cinco anos depois, o personagem permanece como exemplo das contradições trabalhadas pelo ator. Fernando tem a aparência do homem maduro e estabelecido, mas se revela incapaz de administrar o desejo, o ciúme e as consequências de suas escolhas. A imagem do galã torna-se parte do conflito e é progressivamente desfeita pela narrativa.
Esses trabalhos mostram que a popularidade de José Mayer não foi construída apenas sobre histórias de amor. Sua atuação também se firmou em personagens movidos por convicções, conflitos morais e impasses diante da realidade. Ainda assim, foram as novelas que consolidaram a figura pela qual ele se tornaria imediatamente reconhecido.
O galã e suas contradições
A televisão brasileira não apenas conta histórias. Ela cria referências afetivas, produz modelos de comportamento e participa da formação do imaginário social. Durante muito tempo, o galã ocupou um lugar bastante definido nesse sistema: era o homem desejado, seguro, socialmente estabelecido e capaz de conduzir a ação.
José Mayer se tornou um dos principais representantes dessa figura. Em sucessivos trabalhos, viveu homens maduros envolvidos em relações amorosas, disputas familiares e conflitos provocados por escolhas que nem sempre conseguiam administrar. Sua parceria com Manoel Carlos foi determinante para essa construção. Nas obras do autor, seus personagens estiveram frequentemente próximos das Helenas e dos universos familiares que organizavam as narrativas.
Mas reduzir essas atuações à sedução seria ignorar o elemento que lhes conferia interesse dramático. Muitos desses homens não correspondiam inteiramente à segurança que projetavam. Diante das mudanças, dos afetos e da reação das pessoas ao redor, revelavam limites e dificuldades para compreender as relações que procuravam conduzir. Mayer trabalhava justamente nesse lugar entre a aparência de controle e a instabilidade que surgia quando esse controle era colocado em questão.
Marcos, de Viver a Vida, por exemplo, surge como um empresário bem-sucedido e experiente. No entanto, sua vida familiar expõe um homem diante do desgaste de um casamento, da atração por uma mulher mais jovem e das transformações que já não consegue acompanhar da mesma maneira. O interesse do personagem está menos na posição que ocupa do que na distância entre a autoridade que demonstra e as incertezas que suas relações revelam.
Essa capacidade de atuar dentro de uma imagem conhecida, confirmando alguns de seus elementos e transformando outros, tornou-se uma característica importante de seu trabalho na televisão. O público reconhecia imediatamente aquela presença, mas nem sempre encontrava o mesmo homem.
O palco como reencontro
Se a televisão ampliou sua popularidade, o teatro permaneceu como território de renovação. Em Um Violinista no Telhado e Kiss Me, Kate: O Beijo da Megera, José Mayer encontrou no teatro musical um desafio que reunia interpretação, canto, ritmo e presença física.

Em Um Violinista no Telhado, viveu Tevye, homem que tenta preservar as tradições familiares enquanto percebe que o mundo ao seu redor está mudando. Mais uma vez, o ator se aproxima de uma figura investida de autoridade, mas obrigada a negociar com aquilo que não pode impedir. O afeto pelas filhas, o apego à tradição e o confronto com a transformação social fazem de Tevye um personagem no qual força e vulnerabilidade não podem ser separadas.
Em Kiss Me, Kate, inspirado em A Megera Domada de William Shakespeare, a relação entre vida e representação ofereceu outro campo de criação. A montagem permitia observar o ator dentro de um jogo em que os conflitos dos personagens se prolongavam nos bastidores e a própria linguagem teatral se tornava parte da narrativa.
Os reconhecimentos recebidos por esses trabalhos também ajudam a reposicionar sua trajetória. Por Um Violinista no Telhado, José Mayer recebeu o Prêmio Shell de Melhor Ator; por Kiss Me, Kate, conquistou os prêmios APTR, Cesgranrio e Reverência de Teatro Musical. As premiações confirmam uma carreira que nunca pertenceu exclusivamente à televisão.
Também é significativo que essas montagens tenham acontecido quando sua imagem televisiva já estava plenamente consolidada. Retornar ao grande palco significava se colocar novamente diante do risco da presença imediata. No teatro não há edição nem uma segunda tomada. O ator precisa sustentar o personagem diante do público e reconstruí-lo a cada apresentação.
O ator para além da imagem
José Mayer participou de uma televisão que reunia o país em torno das mesmas histórias e transformava atores em presenças cotidianas. Seus personagens chegaram às casas brasileiras antes da fragmentação das telas, das plataformas e das formas de assistir. Permanecem, por isso, ligados não apenas às obras em que apareceram, mas também à memória afetiva de diferentes gerações.
Essa permanência não se explica somente pela popularidade. Está relacionada à maneira como o ator construiu tipos humanos reconhecíveis e encontrou variações dentro de figuras que poderiam parecer semelhantes. Seus personagens ocuparam posições de autoridade, viveram paixões, enfrentaram perdas, sustentaram convicções e descobriram que nem sempre era possível conduzir os acontecimentos segundo a própria vontade.
Quando afastamos por um instante a palavra ‘galã’, surge o ator que passou por Camus, Brecht, Nelson Rodrigues, Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar; que interpretou personagens históricos, populares, trágicos, românticos e cômicos; que transitou entre o palco, o cinema e a televisão; e que encontrou no teatro musical um novo campo de criação e reconhecimento.
A imagem pública nunca é capaz de conter inteiramente uma trajetória artística. Ela seleciona características, repete gestos e transforma uma parte em representação do todo. No caso de José Mayer, o galã foi uma construção poderosa, mas insuficiente para traduzir a extensão de seu repertório.
Por trás dessa imagem permanece o ator que ajudou a dar forma a muitos dos homens imaginados pela dramaturgia brasileira. Personagens que amaram, desejaram, disputaram espaços e procuraram conduzir suas histórias, mas que, em algum momento, revelaram aquilo que não conseguiam controlar.
