MONJOLEAR: QUANDO A CRIAÇÃO COMEÇA PELA ESCUTA

Em 1996, a produção de um CD com 250 crianças e adolescentes, ao lado de Dércio e Doroty Marques, tornou-se uma experiência de arte-educação, cultura popular e criação coletiva que atravessaria outros projetos e deixaria marcas profundas na minha formação

Há experiências que só compreendemos inteiramente muitos anos depois de vivê-las. Em 1996, quando participei da produção do CD Monjolear, na Escola da Criança – Espaço de Adolescer, em Uberlândia, Minas Gerais, eu ainda não tinha dimensão da importância que aquele trabalho teria na minha trajetória. Era uma das minhas primeiras experiências ao lado de Dércio e Doroty Marques e, sobretudo, a primeira vez em que acompanhei tão de perto uma prática de arte-educação que não separava criação, aprendizagem, pesquisa, cultura popular e vida.

O disco reuniu cerca de 250 crianças e adolescentes em torno de um tema que, naquele momento, já nos colocava diante de uma questão que se tornaria cada vez mais urgente: o Cerrado brasileiro. Era a década de 1990. Falar de preservação ambiental, conhecer um bioma, reconhecer seus sons, sua cultura, seus modos de vida e transformá-los em matéria artística significava experimentar uma educação que ultrapassava os limites convencionais da sala de aula.

Mas Monjolear não nasceu simplesmente da ideia de gravar um CD com crianças. O disco foi consequência de um processo.

Antes da gravação, houve oficinas, pesquisa, canto, composição e sensibilização para a arte e para a temática ambiental. O professor de música da escola participou efetivamente do trabalho, e crianças e adolescentes não foram tratados apenas como intérpretes de um repertório previamente escolhido. Eles participaram da criação. Compuseram. Experimentaram. Algumas dessas composições foram selecionadas e chegaram ao disco.

Talvez aí esteja uma das características fundamentais daquele trabalho. Não se buscava apagar as particularidades das vozes infantis para alcançar uma sonoridade coral idealizada. Havia preparação, evidentemente, mas interessava preservar a força daquelas vozes como elas eram. O canto coletivo mantinha uma relação profunda com o popular, com a espontaneidade e com a identidade de quem cantava. Não se tratava de enquadrar a criança em uma forma artística previamente estabelecida, mas de criar condições para que ela participasse da construção daquela forma.

Hoje penso muito nessa horizontalidade.

Doroty teve papel fundamental nesse processo. Seu trabalho com as crianças menores era particularmente próximo, embora sua presença atravessasse toda a experiência. Foi ali que pude observar, pela primeira vez tão de perto, uma prática de arte-educação que ela desenvolve ainda hoje: uma relação com a criança que parte de sua possibilidade de criação, e não apenas da transmissão de um conhecimento artístico.

Dércio trabalhava mais diretamente com os adolescentes e trazia outra dimensão essencial à experiência. Ele tinha uma capacidade muito particular de receber aquilo que surgia durante o processo e transformá-lo em matéria musical.

Essa característica se tornava ainda mais evidente no momento da gravação. Para Dércio, o estúdio nunca foi apenas o lugar onde se registrava aquilo que já havia sido decidido anteriormente. Evidentemente havia estudo, preparação e repertório. Mas a criação continuava acontecendo enquanto se gravava. Um som inesperado podia abrir uma possibilidade. Um objeto podia se transformar em instrumento. Em outras experiências de gravação com ele, cheguei a vê-lo fazer percussão em uma melancia. Isso diz muito sobre sua maneira de produzir: nas mãos de Dércio, quase tudo podia revelar uma música que ainda não sabíamos que existia.

Havia nisso certa anarquia criativa e uso a expressão no melhor sentido. O planejamento não eliminava o acaso. A técnica não encerrava a descoberta. O estúdio não servia apenas para reproduzir uma concepção anterior, mas para prolongar o processo de criação.

Em Monjolear, o próprio espaço escolar integrou a gravação. Parte importante daquele universo permaneceu dentro da escola, e uma Folia de Reis local também participou do trabalho. A cultura popular não aparecia como ilustração de um conteúdo pedagógico. Ela chegava por meio de seus próprios fazedores, colocada em relação com as crianças, com os músicos e com os demais artistas envolvidos. Essa talvez seja outra chave para compreender aqueles trabalhos.

Dércio foi um cantador andarilho. Circulou pelo Brasil e pela América Latina construindo uma espécie de cartografia afetiva e musical. Por onde passava, encontrava pessoas, repertórios, instrumentos, histórias e modos de fazer. E fazia algo que considero fundamental: colocava essas pessoas em relação. Alguém que conhecia em determinado lugar era apresentado a alguém encontrado em outro. Um repertório descoberto numa viagem reaparecia em outra circunstância. Dércio construía pontes.

Tive o privilégio de acompanhá-lo em parte dessas andanças.

Viajamos muito por Minas Gerais, atravessando cidades grandes e pequenas, algumas delas lugares aos quais dificilmente eu teria chegado por outros caminhos. Estivemos também pela Bahia, pelo interior de São Paulo, pelo Centro-Oeste e pelo Paraná. Em Curitiba, encontramos José Eduardo Gramani, então professor da Unicamp e importante pesquisador da música, e o acompanhamos em parte de uma pesquisa relacionada à viola de cocho, descendo em direção ao litoral paranaense e chegando a Antonina, em contato com pessoas ligadas àquele universo.

Durante essas viagens, eu falava menos do que escutava.

Sabia que estava convivendo com pessoas que tinham muito a me ensinar. Observava. Escutava histórias, músicas e conversas. Via os encontros acontecerem. Via Dércio estabelecer conexões. E fui aprendendo, sem que houvesse propriamente uma aula, que trabalhar com cultura exige, antes de tudo, disponibilidade para reconhecer o conhecimento que existe no outro.

Muito do meu olhar profissional para a cultura popular nasceu dessa convivência. O respeito pelos fazedores, a atenção às diferentes fontes, a compreensão de que a cultura não se organiza apenas a partir dos centros legitimadores e a necessidade de escutar antes de propor são aprendizados que carrego até hoje.

Monjolear condensava muito disso.

E condensava também outra característica marcante dos trabalhos de Dércio e Doroty: ninguém criava sozinho. Eram processos povoados por muitas presenças e muitas vozes.

Dani Lasalvia foi uma dessas presenças. Guardo uma pequena história que talvez diga mais sobre aquela experiência do que muitas explicações conceituais. A Escola da Criança tinha uma extensa área verde e vivíamos dias intensos de trabalho. Em determinado momento, Dani resolveu descansar e adormeceu no gramado. Quando acordou, havia várias crianças ao seu redor. Encantadas com ela, com sua voz e com tudo o que estavam vivendo, chamavam-na de Bela Adormecida. Para elas, naquele instante, parecia perfeitamente possível que aquela mulher tivesse saído de uma história infantil e aparecido no jardim da escola.

Há algo muito bonito nessa imagem porque a arte, naquele momento, não estava sendo apresentada às crianças como um objeto distante. Ela havia entrado na vida delas.

Kátya Teixeira também esteve muito próxima desses processos e das trocas construídas ao redor de Dércio e Doroty. Como Dani, fez parte dessa rede de artistas, pesquisadores, educadores e amigos que se formava e se refazia continuamente pelo caminho. Pensar nesses trabalhos significa, portanto, pensar sempre no plural.

Monjolear não seria uma experiência isolada.

Alguns anos depois, voltamos a trabalhar juntos em Espelho d’Água, realizado com patrocínio da Sabesp e envolvendo cerca de 50 crianças, filhos de funcionários da companhia. Dessa vez, a água era o eixo do repertório e da experiência. Novamente, arte e educação ambiental se encontravam em um momento em que muitas das questões que hoje ocupam o centro do debate sobre meio ambiente ainda não possuíam a visibilidade atual.

Mais tarde veio Cantos da Mata Atlântica, envolvendo cerca de 500 crianças dos Colégios Maristas de São Paulo e Santos. A experiência ganhou outras dimensões, mas preservou princípios semelhantes. Houve oficinas de composição e canto e também atividades de artes plásticas. Edson Lima, o Ted, companheiro de Doroty, artista plástico e artesão, desenvolveu com as crianças um trabalho com argila. A produção visual resultante dessas atividades chegou ao encarte do CD. Mais uma vez, algumas das canções gravadas haviam sido criadas pelos próprios alunos.

Cerrado. Água. Mata Atlântica.

Olhando hoje para essa sequência, percebo que não se tratava apenas de escolher temas para discos infantis. Havia uma compreensão de que a experiência estética podia ser também uma forma de aproximação com o território, com a natureza, com a memória e com os saberes produzidos pelas comunidades.

E havia pesquisa.

Cada projeto exigia mergulhar em seu universo temático e buscar repertórios capazes de ampliar o horizonte das crianças. Canções populares e folclóricas conviviam com obras de compositores que Dércio e Doroty haviam conhecido, pesquisado ou garimpado pelo Brasil. O repertório tornava-se, assim, uma espécie de mapa. Por meio das canções, aquelas crianças podiam chegar a outros lugares, conhecer outras pessoas e perceber que a cultura brasileira era muito maior do que aquilo que habitualmente lhes chegava pelos meios de comunicação.

Talvez seja por isso que, tantos anos depois, eu tenha dificuldade de definir essas experiências apenas como produção de discos.

Os discos existem. Monjolear chegou, inclusive, a ser indicado ao Prêmio Sharp na categoria de melhor CD infantil. É uma memória importante e um reconhecimento daquele trabalho. Mas, quando penso no que permaneceu, não é o objeto CD que aparece primeiro.

Lembro das crianças compondo. Das vozes preservadas em sua singularidade. Da Folia de Reis entrando na escola. De Dani dormindo no gramado e acordando transformada em Bela Adormecida pelo olhar das crianças. Das mãos trabalhando a argila. Das viagens. De Dércio encontrando pessoas e imediatamente imaginando outras pessoas que elas precisavam conhecer. Do estúdio como lugar onde até uma melancia podia virar instrumento.

E lembro, principalmente, de estar quase sempre observando.

Hoje entendo que aquela escuta não era uma posição passiva. Era parte da minha formação.

Com Dércio e Doroty aprendi que a criação pode nascer do encontro sem que seja necessário apagar as diferenças entre aqueles que se encontram. Aprendi que a cultura popular não precisa ser domesticada para entrar em um projeto educativo. Aprendi que uma criança não precisa receber uma obra pronta para viver uma experiência artística: ela pode compor, cantar, modelar, pesquisar, perguntar, inventar e participar da própria construção da obra.

Aprendi também que produzir cultura não é apenas organizar os meios para que alguma coisa aconteça. Às vezes, produzir é criar as condições para que aquilo que não estava previsto possa acontecer.

Trinta anos depois de Monjolear, talvez seja essa a imagem que mais me interessa preservar daquele tempo: um grupo de artistas, educadores, músicos, crianças e adolescentes reunidos não apenas para fazer um disco, mas para descobrir juntos o que poderia se transformar em música.

E, nas mãos de Dércio quase tudo podia. Com ele aprendi a viver!

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