Atriz, diretora, produtora e pesquisadora da improvisação dramática fala sobre autonomia, o erro como potência criativa, a presença das mulheres nos espaços de decisão e a inquietação que ainda a faz procurar aquilo que não sabe fazer

ALINE BOURSEAU | crédito: VITOR VIEIRA
Aline Bourseau ri quando lembra que, na adolescência, gostava de ser “a diferentona”. Havia quase uma preocupação em não fazer exatamente o que todo mundo fazia, como se seguir um caminho já conhecido pudesse apagar alguma coisa de sua personalidade. Vinte e cinco anos de carreira depois, a necessidade de ser diferente ganhou outro sentido. Hoje, diz ela, há menos preocupação com a diferença em si e muito mais clareza sobre por que escolher determinados caminhos.
Talvez essa inquietação ajude a explicar uma trajetória em que atuar nunca significou apenas esperar pelo próximo convite.
Em conversa com o Canal Diversão & Arte, Aline revisita esses 25 anos de trajetória sem tratar o passado como algo encerrado. Ao falar de carreira, improvisação, autonomia e dos caminhos que ainda pretende experimentar, fica evidente que a inquietação que a acompanhava no início continua presente — ainda que hoje venha acompanhada de outras certezas.
Desde que se formou em teatro, Aline percebeu que alguns dos trabalhos que realmente gostaria de fazer só existiriam se ela própria criasse as condições para realizá-los.
“Não podia ficar esperando alguém abrir uma porta para mim. Eu precisava construir a porta, a sala, às vezes até o prédio inteiro”, conta, entre risos.
Produzir, então, deixou de ser uma atividade paralela e passou a fazer parte de sua prática artística. Durante duas décadas dentro de uma companhia da qual foi sócia, aprendeu praticamente todas as etapas envolvidas entre uma ideia e o encontro com o público: transformar pensamentos em projetos, formar equipes, captar recursos, administrar crises e equilibrar decisões artísticas com as exigências concretas de uma produção.
Ou, na definição dela, aprender a lidar “com o sonho e com a planilha” — e descobrir que os dois precisam conversar.
Em 2024, porém, veio uma mudança importante. Depois de 20 anos, Aline deixou a sociedade. Não por falta de projetos, mas justamente porque começou a perceber que havia desejos, perguntas e caminhos artísticos que dificilmente conseguiria desenvolver permanecendo naquele espaço.
A saída significou mais do que encerrar um ciclo profissional. Era, para ela, assumir a responsabilidade pela artista que havia se tornado — e também pela artista que ainda desejava ser.

Improvisar não é simplesmente “ver o que acontece”
Boa parte dessa trajetória está ligada à improvisação teatral dramática, linguagem que Aline pesquisa e pratica e que ainda costuma ser associada, pelo grande público, principalmente ao humor.
No improviso dramático, o que interessa a ela está justamente no estado de atenção provocado pelo desconhecido. O ator entra em cena sem saber exatamente para onde a história caminhará, mas isso não significa ausência de rigor. Pelo contrário.
“O improvisador não sabe o que vai acontecer, mas sabe muito bem o que está fazendo”, resume.
O trabalho acontece nos detalhes: uma pausa, uma mudança quase imperceptível no estado do outro, algo que foi dito — ou aquilo que ninguém disse. A relação entre os personagens vai sendo descoberta ao mesmo tempo em que o público a acompanha.
Existe risco real ali.
Mas Aline faz questão de separar espontaneidade de despreparo. Para que a liberdade aconteça em cena, há treinamento, escuta, técnica, atenção, dramaturgia, consentimento e confiança entre os atores. Os acordos vão sendo reconstruídos à medida que novos elementos aparecem.
Ela encontra uma imagem bastante precisa para explicar esse processo: é como construir uma arquitetura enquanto se caminha sobre ela.
Quando o erro resolve entrar em cena
Nessa arquitetura instável, o erro não precisa necessariamente ser escondido.
Aline prefere fazer justamente o contrário.
Se alguma coisa sai do controle, uma informação é entendida de maneira diferente ou uma resposta não chega como o esperado, o impulso não é apagar o acontecimento para tentar recuperar a cena imaginada. A falha também pode virar material dramatúrgico.
Uma experiência no Peru ficou especialmente marcada em sua memória. Durante um espetáculo de improvisação dramática em espanhol, ela entendeu de maneira completamente diferente algo dito pelo ator que contracenava com ela.
Houve aquele instante desconfortável em que todos percebem que alguma coisa saiu do lugar.
Em vez de corrigir o mal-entendido, os dois decidiram incorporá-lo. Passaram a trabalhar com metáforas, assumiram a dificuldade de comunicação dentro da própria relação dos personagens e transformaram o que poderia ser um problema em uma das cenas mais fortes daquela noite.
“A língua, que naquele momento era um obstáculo, virou dramaturgia”, lembra.
Para Aline, há alguma coisa de revelador nesse tipo de acidente. Às vezes, diz ela, aquilo que não estava previsto pode ser mais verdadeiro do que aquilo que havia sido imaginado.
Não basta estar no palco
Ao olhar para os últimos 25 anos, Aline também percebe uma mudança importante na presença das mulheres no teatro. Para ela, talvez o avanço mais significativo não esteja simplesmente no número de mulheres em cena, mas na ampliação de sua presença nos espaços em que as decisões são tomadas.
Dramaturgia, direção, produção, curadoria e gestão passaram a ter uma presença feminina muito maior. E ocupar esses lugares muda também quais histórias encontram espaço, quais projetos recebem recursos e quem participa da construção do discurso sobre o próprio fazer artístico.
A experiência pessoal atravessa essa leitura. Ao longo da carreira, Aline entendeu que não bastaria desenvolver seu trabalho como atriz e improvisadora. Precisou aprender também a dirigir, produzir, negociar, buscar financiamento e defender suas próprias escolhas.
Os avanços, para ela, são reais, mas estão longe de encerrar a discussão. Acesso desigual a recursos, maternidade, etarismo, cobranças estéticas e resistência à liderança feminina permanecem presentes.
Há ainda uma diferença que ela considera mais silenciosa: muitas vezes, a mulher precisa demonstrar competência antes mesmo que lhe seja concedida confiança.
Por isso, quando fala da própria trajetória, Aline usa outra imagem de construção.
Muitas mulheres, diz, não apenas precisaram conquistar uma cadeira à mesa. Antes disso, tiveram que construir a própria cadeira. E, depois de construir a sua, ela prefere pensar que aquele espaço não precisa ser exclusivo: “Se eu consegui abrir uma fresta, quero que outras mulheres encontrem a porta aberta.”
Depois de 25 anos de carreira, ainda há o que descobrir
A experiência não eliminou o gosto pelo desconhecido.
Ao contrário.
Entre projetos como Improvisações Selvagens, o podcast Selvagem, Por Trás do Improviso e a experiência audiovisual de Dublê – O Casamento, o que ainda mobiliza Aline é a possibilidade de encontrar novas formas de contar uma história.
Na conversa com o Canal Diversão & Arte, Aline também antecipa um pouco do que começa a ocupar seu pensamento agora. Ela desenvolve uma nova pesquisa autoral com horizonte para 2027. Ainda não quer revelar muito, mas o ponto de partida está em uma inquietação bastante contemporânea: nossa relação com o tempo, a atenção e as experiências que deixamos pela metade.
Livros começados e abandonados. Conversas interrompidas. Relações que não chegam a se completar. Histórias recebidas em fragmentos. A sensação de que temos acesso a uma quantidade cada vez maior de coisas enquanto talvez permaneçamos cada vez menos tempo diante de cada uma delas.
É desse inacabado que começa a nascer o próximo trabalho.
Depois de uma trajetória construída justamente a partir da disposição para experimentar, talvez não surpreenda que Aline continue procurando territórios que ainda não domina.
Ela própria encontra uma maneira melhor de dizer:
“No fundo, acho que continuo procurando a mesma coisa que procurava quando comecei: aquilo que ainda não sei fazer.”
E completa, com o humor de quem já aprendeu alguma coisa nesses 25 anos: agora há apenas “um repertório maior” para encontrar problemas novos.
