FESTA JULINA – Quando a cultura popular nos devolve para casa | MEU OLHAR

Por Bia Ramsthaler – @biaramsthaler

Há experiências que nos lembram quem somos. Ontem, ao participar da Festa Julina da Associação Beneficente Arcanjo Gabriel (@arcanjogabriel.associacao), em Penedo, tive essa sensação.

Em um tempo em que tantas festas reproduzem modelos prontos, playlists iguais e uma ideia pasteurizada do que seria uma “festa caipira”, reencontrar uma celebração construída coletivamente, com respeito às tradições populares, foi um presente.

A retomada dessa festa acontece em um momento especial: o ano em que a Associação Beneficente Arcanjo Gabriel celebra seus 30 anos de história. E talvez seja justamente essa história que explique a força do que aconteceu. Nada parecia ter sido pensado apenas para entreter. Havia pertencimento. Havia memória. Havia comunidade.

Cada detalhe carregava a marca das muitas mãos que construíram aquele encontro em mutirões e ações colaborativas, sob a orientação e a dedicação de Rodrigo Camará (@rodrigocamarah), que conduziu esse processo com sensibilidade e profundo respeito pela cultura popular.

Mais do que uma festa, encontrei uma comunidade celebrando aquilo que construiu ao longo do tempo.

Ver o Boi Roncador (@boironcador) entrar em cena, presenciar o encontro de maracatu com os grupos Pedra Sonora (@grupopedrasonora) e Águas de Oxalá (@aguasdeoxala), assistir a contação de histórias de Anaura Sales (@montanha_de_historias), ver a Caminhada das Lanternas, ouvir músicas que dialogam com o universo rural em sua essência — e não apenas com a indústria do entretenimento que convencionamos chamar de sertanejo universitário — faz diferença. A cultura popular tem um ritmo próprio. Ela não precisa disputar volume com as caixas de som nem velocidade com os algoritmos. Ela nos convida a escutar, a observar e a participar.

Ao longo da vida, tive o privilégio de percorrer o interior de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro acompanhando folias de reis, congadas, bumba meu boi e tantas outras manifestações tradicionais. Em todas elas encontrei algo em comum: a cultura popular nunca é apenas um espetáculo. Ela é uma forma de transmitir conhecimento, fortalecer laços e afirmar identidades.

Por isso, encontrar essa experiência tão perto de casa, sendo moradora de Penedo, teve um significado especial. É um alívio perceber que ainda existem pessoas dispostas a preservar aquilo que nos conecta às nossas raízes, não como uma peça de museu, mas como uma prática viva, capaz de reunir diferentes gerações em torno do mesmo terreiro.

Recentemente, li o artigo “Quando o ‘campo’ ensina a viver…”, de Rachel Camara (@racheleducadora), publicado pelo Diário de Itatiaia (@diariodeitatiaia), que propõe uma reflexão sobre os aprendizados presentes nas festas rurais. A leitura dialoga com essa experiência, mas ontem percebi algo que talvez só quem participa consiga compreender: a cultura popular não nos ensina apenas sobre o campo. Ela nos devolve um eixo que a pressa da vida urbana insiste em retirar.

Ela nos lembra que pertencemos a uma história maior do que nós mesmos.

E talvez seja exatamente por isso que essas festas continuam emocionando. Porque, enquanto tudo muda rapidamente ao nosso redor, elas permanecem guardando aquilo que não deveria nunca deixar de existir: a memória, a comunidade e o encontro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *