O LIVRO É SÓ O COMEÇO

Por Bia Ramsthaler | @biaramsthaler

Imersão Escritores Admiráveis reúne mais de 200 autores em São Paulo para um dia de conversas sobre escrita, publicação, divulgação e os muitos caminhos que existem entre uma obra pronta e seus leitores

Há alguns meses, por força dos algoritmos — que às vezes acertam —, encontrei a LC e o projeto Escritores Admiráveis.

Meu primeiro movimento foi me inscrever no curso online. Encontrei ali um conteúdo bastante completo e, principalmente, muito útil para quem está se aventurando a mergulhar no mercado editorial e quer compreender melhor tudo aquilo que envolve a trajetória de um livro.

No decorrer do curso, decidi também contratar o serviço de leitura crítica realizada por Anne Caroline Gonçalves para uma obra minha. A experiência foi muito positiva. Recebi uma leitura cuidadosa, consistente capaz de me devolver um olhar externo sobre um texto que, naturalmente, depois de tanto tempo de trabalho, eu já enxergava de muito perto.

Foi nesse percurso que decidi participar da Imersão Escritores Admiráveis, realizada no dia 4 de setembro, no Holiday Inn Parque Anhembi, em São Paulo, ao lado da Bienal do Livro. E imersão foi exatamente o que aconteceu.

Foram praticamente doze horas de uma programação intensa sobre o mercado editorial, reunindo mais de 200 autores em diferentes momentos de suas trajetórias.

Um encontro entre iguais

Talvez uma das experiências mais interessantes do dia tenha vindo justamente desse encontro.

Havia ali escritores com diferentes percursos, gêneros, experiências e estágios profissionais. Mas, independentemente de onde cada um estava em sua carreira, muitas das questões eram comuns.

Como fazer um livro encontrar seus leitores? Como divulgá-lo? O que acontece entre a entrega de um original e sua chegada às livrarias? Qual o papel de um agente literário? O que são e para que servem os metadados? O que muda quando o autor escolhe a autopublicação? Como as redes sociais interferem na descoberta de novos livros? O que BookTok, influenciadores, marketplaces e inteligência artificial têm a ver com o trabalho de quem escreve?

Foi, de certa forma, um grande encontro entre iguais.

E isso importa especialmente porque escrever é uma atividade que passa longos períodos no território da solidão. Encontrar mais de 200 pessoas que, apesar de trajetórias tão distintas, reconhecem muitas das mesmas dúvidas, dificuldades e possibilidades produz também uma sensação de pertencimento.

Menos abstração, mais aplicação

Trabalho com eventos há muitos anos e fazia tempo que não participava de um encontro tão bem organizado, tão cuidado e com uma energia tão boa.

Mas há uma característica da Imersão Escritores Admiráveis que, para mim, merece um destaque especial: a utilidade da programação.

Não estávamos reunidos para passar um dia apenas refletindo, pensando ou filosofando sobre o mercado editorial. As falas traziam informações que podiam ser relacionadas diretamente às práticas cotidianas de quem escreve e pretende publicar, divulgar ou ampliar a circulação de sua obra.

A programação começou com Eduardo Zugaib, falando sobre comunicação que vende livros. Sue Hecker, André Vianco e Rodrigo Boecker dividiram experiências sobre seus caminhos na literatura, enquanto Alessandra Ruiz trouxe a perspectiva da agente literária.

André Fonseca, Cinthya Müller e Eduardo Cunha discutiram aquilo que chamaram de “livro invisível”: metadados, ficha técnica e decisões editoriais que acontecem para além da capa.

Na parte da tarde, Bruno Zolotar, Daniella Zebral, Paulo Tadeu e Lilian Cardoso conversaram sobre divulgação e venda de livros. Marília Chaves e Tess Hauser abordaram autopublicação e Amazon KDP.

André Palme, Tiago Valente e Gabriel Mattos falaram sobre BookTok, influenciadores e comunidades; Fernando Barra, sobre inteligência artificial como parceira do autor; Marcial Conte, sobre a trajetória de Mais Esperto que o Diabo; e Wendel Almeida, sobre marketplaces, distribuidoras e venda em site próprio.

O encerramento reuniu Lilian Cardoso e Maria Luiza Wiederkehr, com a Comunidade Escritores Admiráveis e a revelação do ganhador do 3º Concurso Literário EA.

Assuntos diferentes que, vistos em conjunto, ajudam a compreender algo fundamental: há um universo inteiro em torno de um livro depois que ele é escrito.

Quando minhas próprias trajetórias se encontraram

Foi justamente aí que a experiência ganhou para mim uma dimensão ainda mais particular.

Minha formação e minha trajetória profissional passam pela Comunicação, pelo Marketing, pela História Social e pela História da Arte e, especialmente, pela Produção Cultural. Trabalho especificamente com projetos culturais e, portanto, estou acostumada a pensar em estratégia, públicos, comunicação, circulação, viabilidade e nas diferentes formas de fazer uma obra cultural chegar às pessoas.

Durante a imersão, comecei a perceber com muito mais clareza onde todas essas experiências se encontram a favor do livro e a favor do escritor.

Um livro também é um projeto que precisa circular.

Uma obra precisa encontrar seus públicos.

Comunicação não começa necessariamente depois que o livro está pronto e tampouco se resume à divulgação de seu lançamento.

Há estratégias, escolhas, redes, relações, parcerias e possibilidades de circulação que podem ser pensadas em torno de uma obra. E compreender isso não diminui em nada o lugar da literatura ou da criação.

Ao contrário: pode contribuir para que aquilo que foi criado consiga efetivamente chegar a alguém.

Essa talvez tenha sido uma das minhas maiores descobertas durante o encontro. Não exatamente aprender algo completamente alheio à minha experiência profissional, mas reconhecer como conhecimentos que já fazem parte da minha trajetória podem ser reorganizados quando o objeto passa a ser o livro. Isso me despertou muitas ideias.

Para quem também está nesse caminho

A experiência com a LC não começou na imersão e, para quem está entrando ou pretende se aprofundar nesse universo, deixo também uma indicação: O livro secreto do escritor: escreva, publique e divulgue sua obra, de Lilian Cardoso, publicado pela Citadel em 2026.

O próprio título sintetiza boa parte das questões que atravessaram o encontro.

Escrever, publicar e divulgar são etapas distintas. E compreender o funcionamento de cada uma delas permite ao escritor tomar decisões mais conscientes sobre aquilo que deseja para sua obra.

Não significa que todo autor precise fazer tudo sozinho. Nem que precise se transformar em editor, agente, produtor, profissional de marketing, distribuidor ou vendedor. Significa apenas que conhecer o caminho ajuda a escolher como percorrê-lo.

Depois do ponto final

Saí da Imersão Escritores Admiráveis com muitas anotações, referências e ideias. Mas saí, principalmente, com caminhos muito mais claros para uma obra minha que é especialmente importante para mim. E talvez seja essa a melhor medida daquilo que um encontro como esse pode proporcionar.

Não uma fórmula pronta. Não a promessa de que determinado caminho levará necessariamente ao sucesso. Mas informação suficiente para ampliar o campo de possibilidades e permitir que cada autor pense estrategicamente sobre sua própria trajetória.

Meu agradecimento à Lilian Cardoso, à LC, a toda a equipe que esteve presente e também àqueles que trabalharam para que o encontro acontecesse, mesmo sem estar ali — pessoas que Lilian fez questão de lembrar e reconhecer.

Curiosamente, meu percurso até essa imersão começou meses atrás com um algoritmo. Passou por um curso, por uma leitura crítica e chegou a um dia inteiro cercada por mais de 200 escritores.

Saí de lá olhando de outra maneira para uma obra minha e, também, para a minha própria experiência profissional.

Porque há um momento em que o escritor coloca o ponto final no texto.

Mas isso não significa que a trajetória daquela obra tenha terminado.

Pode significar justamente o contrário.

O livro é só o começo.

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